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No Museu do Louvre, a arte de representar a demência

“O Navio dos Tolos” (por volta de 1500), de Hieronymus Bosch.

É uma exposição muito densa, mas fascinante, que o Museu do Louvre oferece. Intitulado “Figuras do Louco”, explora, em 340 obras, pinturas, esculturas, manuscritos iluminados, textos, trajes e objetos diversos, a forma como a nossa visão da loucura mudou, desde a Idade Média até ao século XIX.e século.

A primeira parte, a mais surpreendente, descreve o tema até o Renascimento (da segunda parte, que sobre a loucura moderna e romântica, poderíamos ter feito outra exposição): naquela época, os loucos estavam por toda parte. Não como definido pela psiquiatria contemporânea, estes pertencem, na melhor das hipóteses, ao exorcismo, na pior das hipóteses, à fogueira, nem aos simplórios (o reino de Deus lhes pertence), mas aqueles que manifestam o que poderíamos chamar de uma loucura comum: que de todos os homens – e mulheres – que, permanente ou ocasionalmente (durante o carnaval, por exemplo), entregam-se às suas paixões. Temos aqui um elogio à loucura tal como concebida pela arte do Norte da Europa (mundo flamengo, germânico, anglo-saxão e francês), onde se revela um período fascinante que culminará com alguns textos determinantes, como O Navio dos Tolospublicado por Sébastien Brant em 1494, seguido, em forma de resposta irônica, por O louvor da loucurade Erasmo (1511).

O primeiro opõe-se às crises do seu tempo (a decadência da moral dos clérigos, os excessos que o dinheiro permite, as diversas heresias que minam a ordem do mundo) com moderação e sabedoria, sob a égide do imperador e do romano. Igreja católica. Ele é um daqueles que pensam que empreendimentos perigosos desagradam a Deus. O que logo depois permitiu ao franciscano Thomas Murner apresentar Lutero e seus discípulos como loucos que deveriam ser erradicados. Erasmo, por sua vez, chega a se perguntar se não são os sábios, os raciocinadores, os verdadeiros loucos… Hieronymus Bosch dá uma visão próxima: em sua pintura O Navio dos Tolos (por volta de 1500), a desrazão reina em todo o navio, exceto à direita da pintura onde o louco, usando seu boné com sinos e segurando o boné, vira-lhes as costas e bebe calmamente sua taça de vinho, sentado na fresta em uma árvore…

Cabeça cheia de vento

Já que começa mostrando marginaliaos monstrinhos ou os personagens grotescos desenhados nas margens dos livros, podemos confessar a única decepção proporcionada por esta exposição: a ausência do exemplar de O louvor da loucurade Erasmus preservado no Kunstmuseum de Basileia, ilustrado pelos irmãos Holbein, Ambrose e Hans, o Jovem. Mesmo que no catálogo seja reproduzida uma página, que no seu conjunto é uma obra exemplar, é difícil compreender por que ali não aparece um objeto que respondeu tão bem ao tema. No entanto, este aspecto é apenas uma pequena parte da exposição, que está organizada tematicamente. Certamente começamos pela relação entre o louco e Deus, mas também descobrimos a loucura do amor, os loucos do rei, os loucos da cidade, depois, com o advento dos tempos modernos, as primeiras tentativas de tratamento dos loucos, até os primórdios da psiquiatria.

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