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O torcedor do Botafogo desaprendeu a sofrer – 20/12/2024 – Alvaro Costa e Silva

Com a conquista do Brasileiro e da Libertadores, veio outra façanha, talvez ainda maior. Enterrar a fama aziaga que durante anos acompanhou os torcedores do Botafogo, segundo a qual nossa razão de existir é duvidar da sorte e sofrer sem limite.

A cada jogo teríamos o direito de nos desesperar. Arrancar cabelos e chorar lágrimas de esguicho, para usar a imagem de Nelson Rodrigues. Num último ato, rasgar a carteirinha de sócio, queimar a camisa nas arquibancadas e jurar que nunca mais na vida seríamos enganados por aquele timeco de tucas, purucas e cremilsons.

Com garra, tática, categoria e sorte, o Botafogo de 2024 destruiu as pesadas doses de pessimismo que envenenavam —não envenenam mais— a alma de todo alvinegro. Em ótimo artigo na Ilustríssima, Maurício Stycer (meu contemporâneo de desventuras no Maraca) apontou a mudança de comportamento que exibe a nova geração de torcedores e, por osmose, a velha guarda. O medo, o desalento, a incerteza, as superstições e até o cachorrinho Biriba ficaram no passado.

O mais desesperado “sofredor” podia até cobrir os olhos para não ver o lance decisivo —mas no fundo sabia que ia dar certo. Foi assim na jogada que originou o primeiro gol da final da Libertadores contra o Atlético-MG, com a bola magicamente indo de pé em pé até o fundo das redes. E na final antecipada do Brasileiro contra o Palmeiras. Um amasso, com gostinho especial. Derrubou a invenção de parte da imprensa de que a equipe, na hora agá, se mostrava “mentalmente” despreparada. No popular, um bando de pipoqueiros. Almada pipoqueiro? Savarino? Luiz Henrique?

O atual Botafogo sempre mostrou confiança na vitória. Faculdade que não se pode comparar à certeza da vitória. Com o pessoal da estrela solitária não há soberba. Esta cai melhor em outro clube do Rio.

Nos anos 1990, em conversa com o tricolor Carlos Heitor Cony, ele me desconcertou ao dizer que o Botafogo era um cometa, uma aparição passageira que encanta de cem em cem anos. A partir de agora teremos de confirmar que somos um clube (que até pode ser de bairro, mas com muito orgulho), e não um cometa financeiro chamado Textor.


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