Ícone do site Acre Notícias

Com morte de Jorge Lanata, Argentina perde voz imparcial – 03/01/2025 – Sylvia Colombo

Era o ano de 2012 e já corria solta a fricção entre a então presidente peronista Cristina Kirchner e o Grupo Clarín, motivada pelo fato de o maior conglomerado de mídia da Argentina ter se posicionado contra um aumento dos impostos ao setor rural.

A relação dos governos kirchneristas com a imprensa, que jamais foi boa, vivia naquela época sua pior fase. Anunciantes eram pressionados a não publicar em veículos do Clarín, e a mandatária tentava passar uma lei para que o grupo fosse obrigado a vender alguns de seus negócios.

O impetuoso e irreverente Jorge Lanata passou a mão no telefone. Ele mesmo ligou, um a um, a diretores dos principais jornais e TVs, repórteres e correspondentes internacionais.

Armou um ato. Ele explicava a tarefa: “Vocês vão ficar atrás da cortina e, quando eu abrir, vão gritar ‘queremos perguntar’, uma e dezenas de vezes”.

A cena algo circense teve repercussão internacional e, embora não tenha feito com que o governo se explicasse sobre o avanço contra a liberdade de expressão, expôs o estrangulamento que a mandatária exercia, então, sobre os meios de comunicação.

Lanata morreu no último dia 30, aos 64 anos. Cedo demais, vítima de uma série de problemas de saúde vinculados ao tabagismo e a uma vida de seus excessos.

Foi o mais importante jornalista de sua geração, a primeira pós-redemocratização. A ditadura militar argentina (1976-1983) e, antes, a ação da Triple A, durante a gestão de Isabel Perón, havia sucateado um dos melhores e mais pujantes mercados editorial e de meios de comunicação da região. Lanata, que ainda era jovem e trabalhava de garçom nos anos de chumbo, escapou ileso a essa caça às bruxas, não “foi desaparecido” nem teve de se exilar, como tantos.

Foi nesse ambiente que fundou, com apenas 26 anos, o Página/12 (em 1987), com um projeto gráfico arrojado, títulos irônicos e capas que abusavam de charges e fotos. Os jornalistas de renome disputavam para ter seus textos publicados ali.

Seguindo a máxima de que todo bom jornalismo é de oposição, o peronista Carlos Menem foi seu principal foco. Cada ação do popular presidente foi contestada. No dia em que Menem deu indulto a generais condenados pelo Julgamento das Juntas, publicou uma página completamente em branco, em repúdio.

Os problemas econômicos, porém, logo chegariam depois do “estallido”, de 2001/2002, e Lanata se viu obrigado a vender a publicação a empresários peronistas, perdendo todo seu vigor.

Lanata não ficou quieto e criou outro jornal, “Critica de la Argentina”, que teve vida curta.

Descobriu, porém, uma vida nova na TV, em vários programas tradicionalmente veiculados no horário nobre do domingo à noite, geralmente mais esperados do que muitas mesas-redondas de futebol.

O de maior destaque foi o PPT (Periodismo para Todos), que tinha algo de show político, como imitadores e esquetes de humor, misturados a jornalismo investigativo. Um dos principais processos a que responde Cristina Kirchner hoje na Justiça está ligado a um esquema de desvio de dinheiro público divulgado neste programa.

Apaixonado pelo jornalismo, Lanata atendia estudantes, novatos, e vivia dando espaço a novas vozes.

O jornalismo argentino perde uma voz necessária e um grande defensor da imparcialidade, numa mídia marcada por canais cuja propriedade é de amigos de governo e da oposição, sem meios-termos.

Na noite de seu velório, a fila era de dobrar o quarteirão. Verdadeiro fenômeno que um jornalista, nos dias de hoje, tenha algo assim em sua despedida.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Leia Mais: Folha

Sair da versão mobile