Na contramão da polarização nacional, os nomes do PL e do PT que concorrem à prefeitura em Fortaleza apostam, na disputa de segundo turno, em uma roupagem moderada para atrair apoios. De um lado, André Fernandes (PL) busca se afastar da imagem de radical de direita que o alçou à Câmara há dois anos e tem evitado se associar ao ex-presidente Jair Bolsonaro na campanha. Do outro, Evandro Leitão (PT) adotou um discurso de “frente ampla” para expandir seu eleitorado para além da esquerda.
Temas que costumam opor os dois campos políticos, como liberação das drogas, aborto e direitos de minorias, por exemplo, estiveram ausentes das campanhas na cidade, que focaram em questões locais. As discussões têm girado em torno da crise na segurança pública e em saúde, educação e na taxa do lixo, implementada pelo prefeito de Fortaleza, José Sarto (PDT), derrotado no primeiro turno.
A posição de Fernandes tem respaldo em pesquisas. Levantamento do Datafolha, que apontou empate técnico entre os dois candidatos no segundo turno, mostra que 21% dos eleitores que declararam voto no nome do PL votaram em Lula em 2022.
Adversários do PL dizem que o receio de perder esses votos fez com que Fernandes escondesse o principal nome de seu partido no primeiro turno. Bolsonaro ficou de fora da propaganda eleitoral na TV e, em declarações, o candidato também tenta se desvincular do ex-presidente.
“O candidato sou eu”, afirmou ele em uma postagem nas redes sociais na semana passada após ser cobrado por adversários a “mostrar a cara” de Bolsonaro em sua campanha.
A estratégia de se colocar como um candidato moderado tem dado certo. Na sexta-feira, cinco dos oito vereadores eleitos do PDT, partido aliado a Lula na esfera federal, declararam apoio à sua campanha no segundo turno. O presidente da legenda, deputado André Figueiredo (CE), por sua vez, afirmou que o partido ficará neutro na disputa, apesar de ele, pessoalmente, escolher Leitão.
Mesmo sendo da base de Lula, o PDT é rompido com o PT no Ceará, e o principal nome do partido, o ex-governador Ciro Gomes, é um dos principais críticos ao governo Lula. O atual prefeito de Fortaleza, José Sarto, que ficou em terceiro, também optou por não tomar lado no segundo turno.
Da mesma forma, o União Brasil, que lançou Capitão Wagner no primeiro turno, liberou os filiados para apoiarem qualquer um dos dois nomes restantes na disputa. Wagner, por sua vez, declarou voto em Fernandes e diz que vai fazer campanha para ele.
No outro flanco, porém, a campanha de Leitão acredita que pode atrair os eleitores de Wagner. O Datafolha mostrou que 52% dos que votaram no candidato do União no primeiro turno agora dizem apoiar o candidato do PL, enquanto 29% estão com o petista.
Diferentemente de Fernandes, Leitão aposta na sua vinculação com Lula para superar o adversário. A capital cearense foi escolhida como primeiro destino a ser visitado pelo presidente neste segundo turno. Na ocasião, o chefe do Palácio do Planalto participou de comício ao lado do candidato petista na sexta-feira.
Em evento de campanha, Leitão disse ser preciso “ter humildade de reconhecer que não conseguiremos vencer essas eleições se não tivermos um amplo arco de alianças” e que “ninguém governa sozinho”.
Irmão de Ciro, o senador Cid Gomes (PSB-CE) disse que Leitão precisa se apresentar como alguém que vai além da legenda de esquerda e simbolize a expectativa de um governo amplo.
— Eleição de dois turnos é isso. No primeiro turno, você demarca os espaços e, no segundo turno, você propõe coalizões — disse Cid, que já havia declarado apoio ao petista no primeiro turno.
O petista tem adotado pragmatismo para atrair partidos de centro e centro-direita para seu arco de alianças. Logo no primeiro turno ele conseguiu aglutinar PP e Republicanos, legendas que estiveram com Bolsonaro em 2022. Leitão também preteriu o PSB, partido de esquerda que pleiteava a sua vice, e escolheu o PSD, de centro, para o cargo.
Agora no segundo turno, além de parte do União e do PDT, outro partido que foi procurado pela campanha do PT na cidade foi o PSDB, que faz oposição à sigla na esfera federal. Os tucanos, que hoje têm a vice-prefeitura de Fortaleza, por meio de seu diretório municipal, declararam apoio a Fernandes.
Uma das principais lideranças políticas do estado, o ex-senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), porém, disse que não tem “simpatia por nenhum dos dois candidatos” e indicou que deve ficar neutro. O vice-prefeito da cidade, Élcio Batista, presidente estadual do PSDB, também recomendou neutralidade.
Principais pontos da campanha
O nome do PL tem evitado usar a figura de Bolsonaro e já falou diversas vezes que o candidato é ele e não o ex-presidente. O petista não chega a esconder Lula, mas tenta expandir seu eleitorado ao dizer com frequência que busca uma frente ampla, inclusive com siglas de direita, porque ninguém governa sozinho.
Tema que que virou prioridade em várias capitais, a segurança também alcançou a campanha dos candidatos. O deputado federal do PL tem atacado a gestão do PT no estado. Do outro lado, o petista aposta no diálogo com as gestões de seu partido no Ceará e na Presidência para ter uma ação coordenada no setor.
O petista resgatou vídeos feitos por Fernandes quando era adolescente em que ele fez declarações machistas. O político diz que se arrepende. Já Leitão passou a ser alvo do PL por ter sido presidente do Ceará Sporting Club de 2008 a 2015. Fernandes o acusa de ter abandonado o clube nas dificuldades, algo que ele nega.
