A carta acaba de ser assinada com o primeiro nome: Dominique. O leitor não terá mais informações sobre essa mulher que mergulha em suas memórias, num belo dia da década de 1970. Nesta quarta-feira, como todas as outras quartas-feiras, Dominique vai à banca de jornal comprá-la. Charlie Hebdo. Problema: só sobrou uma cópia e um homem também a quer. Então eles compram juntos, tomam um café e leem.
Três anos depois nasceu a filha Charly, depois o filho, a quem queriam chamar de Hebdo – que acabaria por ser Hugo. 7 de janeiro de 2015, data do ataque terrorista contra Charlie Hebdoo marido de Dominique teria 60 anos, se o câncer não o tivesse levado embora em 2012. Como companheiros no céu, “você oferece a ele um terno cheio de seus ídolos”ironiza Dominique nesta carta enviada à redação do jornal satírico, logo após o atentado. E então o tom fica mais pesado. “Por favor, continuem, para quem partiu, para Charly e Hugo, para meus netos, que eles sempre acreditam na liberdade e também um pouquinho para mim”, ela conclui.
Cartas como esta, a escrita de Charlie Hebdo recebeu dezenas de milhares após 7 de janeiro de 2015. Entre 56 mil e 70 mil segundo estimativas das equipes do jornal. Dez anos depois, grande parte deste “fundo Charlie”, recolhido até fevereiro de 2018, está guardado em 146 caixas cinzentas alinhadas nas prateleiras de uma câmara frigorífica do Arquivo de Paris, mais capaz de preservar este acervo documental do que as instalações do o semanal.
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