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Vice-presidente da Argentina tem aprovação maior que Milei – 30/12/2024 – Mundo

Mayara Paixão

Nem o presidente Javier Milei, nem seus ministros. A figura com maior índice de aprovação da Argentina é a vice-presidente Victoria Villarruel, para quem o chefe da Casa Rosada torce o nariz. Pesquisas de opinião como a mais recente da consultoria local CB a posicionam com quase 53% de imagem positiva, ante 51% de Milei.

Sua dianteira na aprovação entre os membros do governo vem sendo marcada repetidamente em levantamentos. Ela tem imagem positiva superior inclusive à de membros da atual oposição, como a principal personagem política do país, a ex-presidente Cristina Kirchner (35,2%).

Villarruel não tem protagonismo na gestão e muito raramente aparece em eventos públicos ao lado de Milei. Como rege a Constituição local, a vice é também a presidente do Senado —mas não tem direito a voto nos projetos, a menos que seja para desempatar uma decisão. Ela não recebeu de Milei nenhuma área-chave para ter sob sua batuta.

Como, então, ganhou apoio? Um assessor de Villarruel que fala à reportagem sob reserva atribui à “naturalidade e à espontaneidade” e a um “carisma especial” a imagem positiva da vice. Ela é, diz ele, contra o “politicamente correto”.

De uma família de militares, a advogada de 49 anos ingressou na vida política ao se tornar deputada em 2021, junto com Milei, pelo então nanico movimento Liberdade Avança. Hoje um partido político que teve ascensão meteórica, o LLA, como é conhecido, está à frente em todas as pesquisas de intenção de voto para as eleições de 2025, quando se renovarão algumas vagas do Congresso.

Antes, era conhecida por sua defesa de um revisionismo histórico na Argentina sobre o período da ditadura militar (1976-1983). Villarruel defende que haja reparação para o que diz ser mil vítimas de ações de grupos de esquerda armados daquele período. Ela não nega que houve crimes contra os direitos humanos praticados pelos militares, mas afirma que uma parte dessa história foi apagada.

Muitos de seus discursos públicos e de suas publicações em redes sociais ainda versam sobre esse tema. Mas esse mesmo assessor diz que ela não vê essa como a agenda mais urgente do país. Repetindo o tom da chefe, que tenta colocar panos quentes na relação com Milei, afirma que o mais importante hoje é que a economia melhore.

Os atributos que dá a Villarruel não estão tão distantes do que dizem os analistas políticos.

Cristian Buttié, diretor-geral da consultoria CB, diz que ela tem boa imagem especialmente em um segmento da centro-direita que não era a base de apoio original de Milei, mas que se somou a ele na disputa do segundo turno em 2023. É uma faixa etária mais velha, em geral acima dos 50 anos, diferente da base jovem cativa do ultraliberal.

Naquele pleito, Milei obteve cerca de 30% do votos no primeiro turno, ante 36% do peronista Sergio Massa. Quando foi ao segundo turno, porém, somou quase 26 pontos percentuais a mais, alcançando 55,6%. É essa fatia que, para Buttié, vê Villarruel com mais bons olhos. Por quê?

“Sua personalidade é o mais importante porque não gera repulsa. Ela representa a moderação e razoabilidade que alguns esperavam de Milei. E conseguiu construir um posicionamento por fora do núcleo duro de Milei”, diz ele, referindo-se ao grupo composto por Karina, irmã do presidente, e por Santiago Caputo, seu assessor.

“Até aqui ela não tem musculatura eleitoral competitiva, mas tem potencial para construir.”

O futuro que a hoje vice-presidente tentará ter na política é uma incógnita que ronda os corredores da Casa Rosada. Milei não faz questão de mostrar que está em sintonia com sua vice. Mais de uma vez o argentino despendeu críticas públicas a Villarruel.

Em novembro, em entrevista ao canal LN +, disse que ela “não tinha influência alguma sobre as decisões do governo” e que estava “muito mais próxima da casta política”, maneira como ele se refere aos políticos tradicionais.

Recentemente, um rebuliço no Senado levou a mais indiretas do presidente. A Casa chefiada por Villarruel votou por expulsar Edgardo Kueider, um senador eleito pelo peronismo que foi preso no Paraguai ao tentar entrar no país com mais de US$ 200 mil sem declarar.

Eleito em 2019 para um mandato de seis anos, ele rompeu com os kirchneristas e depois, quando Milei se tornou presidente, passou a apoiar medidas do governo.

A estratégia que a Casa Rosada havia pedido que Villarruel defendesse no Senado, porém, era outra: queriam que a vice articulasse para que Kueider fosse suspenso, não expulso. Isso porque, com a expulsão, ele será substituído por uma parlamentar aliada de Cristina Kirchner, já que, ainda que tenha debandado, foi eleito pela coalizão Frente de Todos. Se tivesse sido suspenso, porém, sua vaga seria reposta em 2025. Mas Villarruel não conseguiu levar adiante a estratégia governista.

Naqueles mesmos dias, quando estava em viagem à Itália a convite da primeira-ministra Giorgia Meloni, uma de suas principais aliadas internacionais, Milei disse, sem mencionar a vice, que “aquele que tem agendas próprias e não acata a linha do partido é expulso”.

A correlação do discurso como indireta a Villarruel ficou por parte dos argentinos, até que a própria vice mostrou ter captado a mensagem.

No X, ela escreveu: “Não estou participando de nenhuma armação política e, quando o fizer, farei como o presidente Milei me pedir. Sou parte do projeto que governa o país desde a sua fundação e seguirei defendendo as convicções que nos levaram a encontrar um caminho comum”.



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