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Collor: o último ato da carreira do ex-presidente…

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Collor: o último ato da carreira do ex-presidente...

Marcela Mattos

A folclórica Casa da Dinda, localizada em um setor de mansões de Brasília, mantém até hoje o letreiro sob um portal branco, a fachada ornada com plantas bem cuidadas e o nome do ilustre proprietário, Fernando Collor de Mello. Do outro lado da rua, há um “centro de memória” onde o ex-­presidente da República guarda todo o acervo dos trinta meses em que esteve no poder. Lá, uma ilustração dele com a faixa verde-amarela no peito é tratada como uma obra-prima, há uma biblioteca com declarados 40 000 livros e uma infinidade de vídeos, fotografias e documentos — material reunido para ornar, quem sabe, um futuro memorial. Certa vez, Collor confidenciou que gostaria de ser lembrado como um homem “diferenciado” e “antecipado ao tempo”. Na mesma ocasião, ele foi questionado sobre uma fortuna que havia sido depositada em sua conta bancária por um conhecido doleiro. “Não tenho a menor ideia do que essas transferências significam. Quando o dinheiro surgiu, questionei a origem dele. Não conhecia a pessoa que transferiu, não sabia de quem se tratava. Pedi ao banco que o deixasse fora da minha conta até que a polícia visse o motivo daquele depósito.”

RASTILHO - Reportagens de VEJA: o início da derrocada da turbulenta carreira política do ex-presidente (./.)

Os trejeitos teatrais do ex-presidente, a impostação da voz e a convicção da resposta levariam qualquer desavisado a acreditar que, no mínimo, se estava diante de um mal-entendido. Indagado se era corrupto, ele rebateu com a mesma veemência: “Não. Não sou”. A investigação mostrou que as negativas eram apenas mais algumas das muitas mentiras que o ex-presidente contou ao longo de uma carreira política de mais de quarenta anos. Ficou provado que ele embolsou 20 milhões de reais. Ficou provado que o dinheiro foi obtido através de um esquema de corrupção do qual ele fazia parte. Ficou provado que a propina bancava sua vida confortável. Falar a verdade nunca foi uma virtude do ex-presidente. Na quinta-feira 24, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, rejeitou o último recurso da defesa e determinou a imediata prisão de Collor. Ele foi condenado em maio de 2023 a oito anos e dez meses de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. Até quinta-feira 1º, ele estava detido na Penitenciária Baldomero Cavalcante, em Maceió, numa cela individual, com televisão e ar-condicionado.

DEBACLE - Ascensão e queda: apenas trinta meses no poder
DEBACLE - Ascensão e queda: apenas trinta meses no poder (Marcos Rosa; Roberto Stuckert Filho/Agência O Globo/.)

A defesa pediu para que o ex-presidente cumprisse a pena em regime domiciliar, alegando que ele é idoso e portador de doenças como Parkinson, apneia do sono e transtorno bipolar, um problema psiquiátrico que faz os pacientes alternarem momentos de euforia e depressão. Soube-se que Collor também faz uso diário de oito tipos de medicamentos, incluindo quatro antidepressivos, e precisa de um aparelho para garantir uma respiração normal durante o sono. O STF dará a palavra final sobre a solicitação, mas, qualquer que seja a decisão, não é o fim de carreira que se imagina para alguém que já foi o político mais poderoso da nação, a esperança de mudança para milhões de eleitores. Esse desfecho, porém, está longe de ser surpreendente. A honestidade nunca foi uma qualidade do ex-presidente. Em 1989, ele disputou e venceu a primeira eleição direta depois de vinte anos de ditadura. Ao derrotar Lula, prometeu modernizar o país. Reduziu a máquina administrativa, fechou estatais ineficientes, confrontou os militares, congelou ativos financeiros para tentar domar a hiperinflação, acabou com o protecionismo de setores da indústria e abriu o mercado para produtos importados.

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Paralelamente, no entanto, se locupletava de uma engrenagem de corrupção que operava dentro do governo com seu aval. Paulo César Farias, seu tesoureiro de campanha, achacava empresários que tinham negócios com a administração, principalmente as empreiteiras, cobrando gordas fatias de propina em troca de contratos. Parte do dinheiro arrecadado era canalizada para campanhas políticas de aliados. Outra parte sustentava o luxo e as mordomias da família presidencial. Collor ganhou notoriedade caçando os chamados “marajás” — funcionários públicos que trabalhavam pouco, ganhavam muito e tinham uma vida nababesca —, mas, na intimidade, vivia e se comportava como um deles. Em 1992, VEJA publicou uma entrevista com o irmão de Collor. Foi o início da derrocada. Pedro Collor revelou que o então presidente e seu tesoureiro eram sócios, extorquiam empresários e mantinham bens escondidos fora do país. Sete meses depois da reportagem, o Congresso aprovou o impeachment. Desalojado do governo, Collor foi acusado de corrupção, mas, apesar das inúmeras provas, o processo acabou arquivado por falhas jurídicas. O ex-presidente ganhou então uma segunda chance. Depois de cumprir o período de inelegibilidade, ele recuperou os direitos políticos e se elegeu senador por Alagoas em 2006. O retorno a Brasília revelou mais uma característica do ex-presidente: a completa ausência de coerência. Ao assumir o mandato, fez as pazes com o presidente Lula e anunciou um antecipado apoio ao governo da presidente Dilma Rousseff em 2009.

CONVENIÊNCIA - Com Dilma Rousseff: depois do período de inelegibilidade, o recomeço em Brasília como aliado do PT
CONVENIÊNCIA – Com Dilma Rousseff: depois do período de inelegibilidade, o recomeço em Brasília como aliado do PT (./Reprodução)

Como prêmio pela parceria, Collor foi agraciado com o direito de indicar diretores da BR Distribuidora, uma subsidiária da Petrobras, onde os petistas haviam instalado uma gigantesca plataforma de corrupção. A Lava-Jato descobriu que o ex-presidente, assim como seus novos aliados, intermediava contratos em troca de propina. O dinheiro irrigou as contas de suas empresas em Maceió e financiou uma frota pessoal de carrões importados — apenas um deles foi avaliado em quase 5 milhões de reais. A máscara de caçador de marajás havia caído outra vez, mas ele continuou apostando na impunidade, que imaginava garantida diante de sua proximidade com os poderosos de plantão. A Lava-­Jato, como se sabe, fisgou, além de Collor, boa parte da elite política do país. Em 2016, Dilma Rousseff, fragilizada por uma miríade de acusações, teve o mandato cassado. Quando viu que o barco da aliada estava afundando, Collor não hesitou em abandoná-­lo: “Constatamos que o maior crime de responsabilidade está na irresponsabilidade pelo desleixo com a política, pelo desleixo com a economia de um país, no aparelhamento do Estado que o torna inchado. Nas obstruções de ações da Justiça. É crime de responsabilidade a irresponsabilidade com o país. Não foi por falta de aviso”. Sem ruborizar, disse isso e votou a favor do impeachment.

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OPORTUNISMO - Ao lado de Bolsonaro: nova aliança após ser desmascarado
OPORTUNISMO - Ao lado de Bolsonaro: nova aliança após ser desmascarado (Anderson Riedel/PR)

Com Dilma destituída, Lula preso e o PT em frangalhos, o senador virou novamente a chave ideológica, viu para que lado o vento estava soprando e se aliou a Jair Bolsonaro tão logo ele foi eleito. Nos derradeiros passos como político, Collor se candidatou ao cargo de governador de Alagoas em 2022, dividindo programas na televisão com o capitão. Nenhum dos dois se elegeu. Numa nova tentativa de sobrevivência e com a Justiça batendo em sua porta, ele voltou a circular em Brasília, fazendo-se presente nas posses de Ricardo Lewandowski no Ministério da Justiça e de Flávio Dino no STF. No ano passado, pôs à prova seu papel de cabo eleitoral e se embrenhou na campanha do sobrinho e xará, Fernando Collor, filho do irmão Pedro — aquele mesmo que o denunciou no passado —, que tentava se eleger vereador de Maceió. Não se sabe se por causa de Collor, ou apesar dele, o herdeiro político do clã obteve menos de 600 votos.

REINCIDENTE - Carros de luxo: o dinheiro de propina bancava mordomias
REINCIDENTE - Carros de luxo: o dinheiro de propina bancava mordomias (Pedro Ladeira/Folhapress/.)
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Com 75 anos, parecia que o ex-presidente jamais se encontraria com a Justiça. Ela tardou, mas chegou, engordando uma triste contabilidade nacional. Desde a redemocratização, o país teve sete presidentes — três deles já foram presos, todos fisgados pela Lava-Jato. Lula foi o primeiro. Em 2017, o petista foi condenado a nove anos e seis meses por corrupção e lavagem de dinheiro, passou 580 dias detido numa cela improvisada na sede da Polícia Federal em Curitiba, até o processo ser anulado pelo Supremo. Em 2019, foi a vez de Michel Temer, que substituiu Dilma após o impeachment. Investigado por corrupção e obstrução da Justiça, ele foi preso preventivamente, passou quatro dias numa sala da Polícia Federal no Rio de Janeiro, foi solto e, assim como Lula, também teve o processo anulado. Fernando Collor, portanto, é o primeiro ex-presidente da República condenado em última instância e preso. Em breve, essa galeria pode ganhar mais um personagem. Em março, Jair Bolsonaro foi transformado em réu por tentativa de golpe de Estado e, por causa disso, pode pegar até quarenta anos de prisão. Não é um histórico do qual um país pode se orgulhar.

Publicado em VEJA de 2 de maio de 2025, edição nº 2942



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Matheus Leitão

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“Estou muito envergonhado! Isto é uma indignidade inexplicável!” (Ciro Gomes, ex-ministro da Fazenda, usando as redes sociais para reclamar da troca de Carlos Lupi por Wolney Queiroz, seu desafeto no PDT, no comando do Ministério da Previdência Social) 


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Felipe Barbosa

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A articulação para mudar quem define o teto de jur…

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A articulação para mudar quem define o teto de jur...

Nicholas Shores

O Ministério da Fazenda e os principais bancos do país trabalham em uma articulação para transferir a definição do teto de juros das linhas de consignado para o Conselho Monetário Nacional (CMN). 

A ideia é que o poder de decisão sobre o custo desse tipo de crédito fique com um órgão vocacionado para a análise da conjuntura econômica. 

Compõem o CMN os titulares dos ministérios da Fazenda e do Planejamento e Orçamento e da presidência do Banco Central – que, atualmente, são Fernando Haddad, Simone Tebet e Gabriel Galípolo.

A oportunidade enxergada pelos defensores da mudança é a MP 1.292 de 2025, do chamado consignado CLT. O Congresso deve instalar a comissão mista que vai analisar a proposta na próxima quarta-feira. 

Uma possibilidade seria aprovar uma emenda ao texto para transferir a função ao CMN.

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Hoje, o poder de definir o teto de juros das diferentes linhas de empréstimo consignado está espalhado por alguns ministérios. 

Cabe ao Conselho Nacional da Previdência Social (CNPS), presidido pelo ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, fixar o juro máximo cobrado no consignado para pensionistas e aposentados do INSS.

A ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, é quem decide o teto para os empréstimos consignados contraídos por servidores públicos federais.

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Na modalidade do consignado para beneficiários do BPC-Loas, a decisão cabe ao ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias.

Já no consignado de adiantamento do saque-aniversário do FGTS, é o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que tem a palavra final sobre o juro máximo.

Atualmente, o teto de juros no consignado para aposentados do INSS é de 1,85% ao mês. No consignado de servidores públicos federais, o limite está fixado em 1,80% ao mês.

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Segundo os defensores da transferência da decisão para o CMN, o teto “achatado” de juros faz com que, a partir de uma modelagem de risco de crédito, os bancos priorizem conceder empréstimos nessas linhas para quem ganha mais e tem menos idade – restringindo o acesso a crédito para uma parcela considerável do público-alvo desses consignados.

Ainda de acordo com essa lógica, com os contratos de juros futuros de dois anos beirando os 15% e a regra do Banco Central que proíbe que qualquer empréstimo consignado tenha rentabilidade negativa, a tendência é que o universo de tomadores elegíveis para os quais os bancos estejam dispostos a emprestar fique cada vez menor.



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