POLÍTICA
Condenar golpistas de 2023 não encerrará ciclo de…
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11 meses atrásem
Matheus Leitão
No primeiro 31 de março desde o golpe de 1964 em que generais estão no banco dos réus, o Brasil precisa compreender a importância de punir golpistas do 8 de janeiro – um momento histórico, de fato -, sem esquecer o maior erro da nossa história após a escravidão: a impunidade dos torturadores da ditadura militar.
A nova tese que circula no país, e principalmente em Brasília, é de que o caso da trama golpista pode finalmente curar a ferida de 1964, ou mesmo enterrar o corpo insepulto dos crimes imprescritíveis e continuados dos generais do regime militar.
Mentira.
Sim, eles estão conectados. Se o Brasil tivesse escolhido outro caminho, o da justiça de transição após o regime, punindo seus golpistas, não teríamos nem um presidente que fez odes à torturadores nem a destruição da sede dos Três Poderes após a eleição de 2022.
As Forças Armadas têm uma tradição golpista desde a fundação da República. Os primeiros presidentes brasileiros foram militares, civis como Artur Bernardes governaram com o estado de sítio em vigor. É uma história toda entrecortada por tentativas de golpes e violência vil por parte dos militares.
Entre 1946 e 1964 houve tumultos e ameaças, com militares tentando impedir posses de presidentes. Teve governo aberto sim, relativa liberdade de imprensa, mas não exatamente uma democracia plena. A democracia era amedrontada, assustada, sempre acuada.
Um presidente suicidou-se com um tiro no peito. Jacareacanga e Aragarças, chamadas de “revoltas”, foram movimentos golpistas da FAB que queriam derrubar presidentes com a velha desculpa de combater a corrupção e outras “mazelas da esquerda”.
Lembra bem o 31 de março, quando Exército, Marinha e Aeronáutica também se colocaram como reservas morais do país na luta contra o comunismo e a “corrupção dos progressistas”. Derrubaram um político que de comunista mesmo não tinha nada. João Goulart era um trabalhista.
Entramos então no dia que durou 21 anos. Sombrios, tenebrosos. Congresso fechado, cassação de opositores, troca de ministros do Supremo. A tortura virou prática comum do estado brasileiro em prédios públicos. Quartéis que deveriam proteger brasileiros viraram máquinas da morte.
Mas há sim ligações com os tempos atuais.
O general Sylvio Frota em 1977 queria colocar novo combustível na linha dura – mais perseguições, torturas e assassinatos do regime que começava timidamente e lentamente a se abrir. Geisel que havia fechado o Congresso em abril disputou na faca com a linha dura que queria um novo AI-5. Era o lado muito ruim contra o péssimo.
E quem era um dos principais assessores de Frota?
O general Augusto Heleno, hoje réu por envolvimento na primeira tentativa de golpe desde a redemocratização em 1985. O Brasil foi construído em uma cultura de impunidade e longos sobressaltos antidemocráticos. É essencial punir os golpistas de hoje, mas isso não resolve os horrores da ditadura. Criminosos da ditadura ajudaram na organização das milícias que mataram Marielle Franco e Bruno Pereira. Não é por acaso.
A democracia constitucional de massas, com a constituição cidadã, presenteou o país, nos últimos 40 anos, com o maior período de normalidade institucional brasileira. E o que aconteceu? Foi fortemente ameaçada durante todo o governo Bolsonaro. Houve eleições, alternância de poder, mas vivemos novamente uma tentativa de golpe.
Nesta última turnê de Gilberto Gil entoa-se “Cálice” e “Não chores mais”. Imagens de Rubens Paiva, Vladimir Herzog e Stuart Angel nos telões, dores da ditadura, levam o público a vincular as imagens a Bolsonaro e o grito de sem anistia. Nunca curamos as dores da ditadura, e já temos as dores de agora. Juntamos os tempos, sem resolve-los separadamente.
O acordão dos militares com parte da sociedade civil que nos levou à anistia em 1979, e à redemocratização em 1985, é o segundo maior cover up de crimes imprescritíveis e contra a humanidade do país. Criminosos estão protegidos pelo muro da impunidade que deveria ter sido derrubado há anos. No Brasil, perdoou principalmente os militares. E eles se aferram a isso até o fim para evitar processos. O STF falhou fragosamente ao não mudar essa realidade.
Não estamos em um novo terreno com os generais no banco dos réus. É o mesmo terreno movediço em que os fantasmas antidemocráticos voltarão a nos assombrar. Chico Buarque foi realmente genial ao escrever música em 1973, censurada pela ditadura até 1978.
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado, eu permaneço atento
Na arquibancada, pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa
Pai (Pai), afasta de mim esse cálice
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Matheus Leitão
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“Estou muito envergonhado! Isto é uma indignidade inexplicável!” (Ciro Gomes, ex-ministro da Fazenda, usando as redes sociais para reclamar da troca de Carlos Lupi por Wolney Queiroz, seu desafeto no PDT, no comando do Ministério da Previdência Social)
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Felipe Barbosa
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A articulação para mudar quem define o teto de jur…
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10 meses atrásem
5 de maio de 2025Nicholas Shores
O Ministério da Fazenda e os principais bancos do país trabalham em uma articulação para transferir a definição do teto de juros das linhas de consignado para o Conselho Monetário Nacional (CMN).
A ideia é que o poder de decisão sobre o custo desse tipo de crédito fique com um órgão vocacionado para a análise da conjuntura econômica.
Compõem o CMN os titulares dos ministérios da Fazenda e do Planejamento e Orçamento e da presidência do Banco Central – que, atualmente, são Fernando Haddad, Simone Tebet e Gabriel Galípolo.
A oportunidade enxergada pelos defensores da mudança é a MP 1.292 de 2025, do chamado consignado CLT. O Congresso deve instalar a comissão mista que vai analisar a proposta na próxima quarta-feira.
Uma possibilidade seria aprovar uma emenda ao texto para transferir a função ao CMN.
Hoje, o poder de definir o teto de juros das diferentes linhas de empréstimo consignado está espalhado por alguns ministérios.
Cabe ao Conselho Nacional da Previdência Social (CNPS), presidido pelo ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, fixar o juro máximo cobrado no consignado para pensionistas e aposentados do INSS.
A ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, é quem decide o teto para os empréstimos consignados contraídos por servidores públicos federais.
Na modalidade do consignado para beneficiários do BPC-Loas, a decisão cabe ao ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias.
Já no consignado de adiantamento do saque-aniversário do FGTS, é o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que tem a palavra final sobre o juro máximo.
Atualmente, o teto de juros no consignado para aposentados do INSS é de 1,85% ao mês. No consignado de servidores públicos federais, o limite está fixado em 1,80% ao mês.
Segundo os defensores da transferência da decisão para o CMN, o teto “achatado” de juros faz com que, a partir de uma modelagem de risco de crédito, os bancos priorizem conceder empréstimos nessas linhas para quem ganha mais e tem menos idade – restringindo o acesso a crédito para uma parcela considerável do público-alvo desses consignados.
Ainda de acordo com essa lógica, com os contratos de juros futuros de dois anos beirando os 15% e a regra do Banco Central que proíbe que qualquer empréstimo consignado tenha rentabilidade negativa, a tendência é que o universo de tomadores elegíveis para os quais os bancos estejam dispostos a emprestar fique cada vez menor.
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