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É possível seguir depois de uma traição? – 22/01/2025 – Amor Crônico
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Traição é um dos temas mais delicados, dolorosos e urgentes a serem abordados de forma corajosa e complexa. Convido você a pensar no ato não como um “erro moral”, mas como uma expressão da complexidade do desejo. Talvez mais duro do que lidar com a quebra da confiança seja enfrentar a inevitável quebra da ilusão da completude. A traição desvela algo estrutural do humano: o desejo é sempre dividido, e, ainda que nos amemos muito, não somos tudo para o outro.
Percebo que muitos de nós ainda têm dificuldade de aceitar que fomos destronados do posto de “vossa majestade o bebê”, como propôs Freud. A traição reedita nossa primeira ferida narcísica e nos devolve ao desamparo estrutural. Passamos a vida em busca de um “paraíso perdido”, alimentando a fantasia de que já vivemos um estado de completude. Ao descobrir-se traído, pensamos: “falta algo em mim ou na relação”. Sim, falta. Falta algo em todos nós. Somos seres faltantes. Essa insuficiência que emerge na relação é estrutural, e não culpa de um indivíduo, dos dois, tampouco da traição recente.
Casais felizes traem, pessoas comprometidas com a monogamia traem, quem ama trai. Segundo a pesquisa “Radiografia da infidelidade e infiéis no Brasil 2022”, 8 em cada 10 brasileiros admitem já ter traído, e 7 em cada 10 dizem acreditar que é possível amar e ser infiel. Como provoca Esther Perel: “Como podemos nos reconciliar com algo que é universalmente proibido e universalmente praticado?”.
Retomando a ideia de que o desejo é sempre dividido, é preciso, ainda que doído, entender que a traição não é sobre você, é sobre ele. Perel defende: “Quando buscamos um terceiro, não estamos virando as costas ao parceiro, mas à pessoa que nos tornamos. Não buscamos outra pessoa, buscamos um ‘outro’ de nós mesmos”.
Compreender que a traição reflete o desejo por novas formas de conexão, autonomia e liberdade —sem cair na ilusão de que “poderíamos ter feito isso juntos”— exige maturidade e nos convoca a olhar para nossos próprios desejos. Penso em Nilton Bonder, que em “A Alma Imoral” nos provoca: “A fidelidade será voltada ao próprio desejo ou à cultura na qual se está inserido? E se não atender ao seu desejo? Terá traído a si mesmo?”. E afirma: “Há traições pela fidelidade muito mais violentas do que as traições pela transgressão”.
Acredito que relacionamentos saudáveis não necessariamente são os que se tornam abertos para evitar a transgressão. São aqueles maduros o suficiente para entender que a transgressão faz parte do desejo humano e que realizá-la não significa o fracasso da relação, mas do ideal romântico (que por si só é insustentável). É preciso desmoralizar a traição.
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No entanto, quando a transgressão vem à tona, é preciso coragem e honestidade para enfrentá-la. A mesma moral que leva a pessoa traída a invalidar o caráter do parceiro faz com que o traidor queira se eximir da culpa e, por isso, minta.
Mais do que a traição em si, o que corrói os relacionamentos é a negação, a sequência de mentiras, o jogo de manipulação, o desmentido. E, mais do que nunca, acho importante discutirmos os impactos do desmentido nos casos de traição, visto a repercussão do caso de Vanessa Barbara contado em podcast da Rádio Novelo.
Na psicanálise, o desmentido é um mecanismo de defesa em que a pessoa simultaneamente reconhece e nega uma realidade incômoda na tentativa de evitar a dor do confronto com algo insuportável. Em situações de infidelidade, essa é uma peça-chave do jogo psicológico: o parceiro infiel, confrontado por provas evidentes, insiste em negar. A mentira escala envolvendo cada vez mais pessoas, criando uma rede de tensões emocionais que sufocam qualquer chance de reconciliação genuína.
O traidor, temendo ser descoberto, desloca a culpa para o outro com frases como “você está paranoico” ou “você deveria se tratar”. Essa dinâmica perversa inverte os papéis, fazendo o traído internalizar a culpa e duvidar de si mesmo. Surge, então, o gaslighting: um jogo de manipulação que destrói a confiança no próprio julgamento e aprofunda o trauma. Como aponta Sandor Ferenczi, o trauma não é apenas o evento em si, mas a forma como ele é tratado ou desmentido pelas figuras de referência. No caso da traição, não é apenas o ato que machuca, mas a forma como o traidor lida com ele.
A traição pode ser superada, mas primeiro precisa ser validada. E isso exige coragem do traidor para enfrentar as consequências de seus atos. A honestidade é o primeiro passo: reconhecer o ocorrido, validar os sentimentos do outro e abrir espaço para o diálogo. Sim, algo aconteceu. Sim, passaremos por dias mais sensíveis e difíceis. Para que haja elaboração é preciso que haja implicação no ocorrido —dos dois lados— e não um jogo de culpa.
Mais do que focar os detalhes do caso extraconjugal —um movimento comum de quem foi traído, que só alimenta seus fantasmas—, momentos de ruptura podem ser usados para algo mais produtivo: abrir diálogos honestos e profundos sobre desejos, desconfortos e acordos implícitos que precisam ser revisados.
Em seu TED Perel diz “nossa geração se casará de três a quatro vezes. Talvez com a mesma pessoa. Depois da traição, seu primeiro casamento acabou. Vocês querem juntos construir um segundo?”. Que tenhamos coragem de sustentar as faltas, as falhas e as consequências de nossos atos e desejos.
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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre
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7 de abril de 2026A Ufac participou do lançamento do projeto Tecendo Teias na Aprendizagem, realizado na reserva extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira (AC). O evento ocorreu em 28 de março e reuniu representantes do poder público, comunidade acadêmica e moradores da reserva.
Com uma área de aproximadamente 750 mil hectares e cerca de 500 famílias, a Resex é território de preservação ambiental e de produção de saberes tradicionais. O projeto visa fortalecer a educação e promover a troca de conhecimentos entre universidade e comunidade.
O presidente da reserva, Nenzinho, destacou que a iniciativa contribui para valorizar a educação não apenas no ensino formal, mas também na qualidade da aprendizagem construída a partir das vivências no território. Segundo ele, a proposta reforça o papel da universidade na escuta e no reconhecimento dos saberes locais.
O coordenador do projeto, Rodrigo Perea, sintetizou a relação entre universidade e comunidade. “A floresta ensina, a comunidade ensina, os professores aprendem e a Ufac aprende junto.”
Também estiveram presentes no lançamento os professores da Ufac, Alexsande Franco, Anderson Mesquita e Tânia Mara; o senador Sérgio Petecão (PSD-AC); o prefeito de Sena Madureira, Gerlen Diniz (PP); e o agente do ICMBio, Aécio Santos.
(Fhagner Silva, estagiário Ascom/Ufac)
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Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre
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7 de abril de 2026Os professores Jhonatan Gomes Gadelha e Shirley Regina de Almeida Batista, do curso de Educação Física da Ufac, realizaram a mostra de dança NT: Sementes de uma Pioneira, em homenagem à professora aposentada Norma Tinoco, reunindo turmas de bacharelado e licenciatura, escolas de dança e artistas independentes. O evento ocorreu na noite de 25 de março, no Teatro Universitário, campus-sede, visando celebrar a trajetória da homenageada pela inserção e legitimação da dança no curso.
Norma recebeu uma placa comemorativa pelos serviços prestados à universidade. Os alunos do curso, André Albuquerque (bacharelado) e Matheus Cavalcante (licenciatura) fizeram a entrega solene. Segundo os organizadores, os anos de dedicação da professora ao curso e seu pioneirismo jamais serão esquecidos.
“A ideia, que ganhou corpo e emoção ao longo de quatro atos, nasceu do coração de quem viveu de perto a influência da homenageada”, disse Jhonatan Gomes Gadelha, que foi aluno de Norma na graduação. Ele contou que a mostra surgiu de uma entrevista feita com ela por ocasião do trabalho dele de conclusão de curso, em 2015. “As falas, os ensinamentos e as memórias compartilhadas por Norma naquele momento foram resgatadas e transformadas em movimento”, lembrou.
Gadelha explicou que as músicas que embalaram as coreografias autorais foram criadas com o auxílio de inteligência artificial. “Um encontro simbólico entre a tradição plantada pela pioneira e as ferramentas do futuro. O resultado foi uma apresentação carregada de bagagem emocional, autenticidade e reverência à história que se contava no palco.”
Mostra em 4 atos
A professora de Educação Física, Franciely Gomes Gonçalves, também ex-aluna de Norma, foi a mestre de cerimônias e guiou o público por uma narrativa que comparava a trajetória da homenageada ao crescimento de uma árvore: “A Pioneira: A Raiz (ato I), “A Transformadora: O Tronco” (ato II), “O Legado: Os Frutos” (ato III) e “Homenagem Final: O reconhecimento” (ato IV).
O ato I trouxe depoimentos em vídeo e ao vivo, além de coreografias como “Homem com H” (com os 2º períodos de bacharelado e licenciatura) e “K Dance”, que homenageou os anos 1970. O ex-bolsista Kelvin Wesley subiu ao palco para saudar a professora. A escola de dança Adorai também marcou presença com as variações de Letícia e Rayelle Bianca, coreografadas por Caline Teodoro, e o carimbó foi apresentado pelo professor Jhon e pela aluna Kethelen.

O ato II contou com o depoimento ao vivo de Jhon Gomes, ex-aluno que seguiu carreira artística e acadêmica, narrando um momento específico que mudou sua trajetória. Ele também apresentou um solo de dança, seguido por coreografias da turma de licenciatura e uma performance de ginástica acrobática do 4º período.
No ato III foi exibido um vídeo em que os atuais alunos do curso de Educação Física refletiram sobre o que a dança significa em suas formações. As apresentações incluíram o Atelier Escola de Dança com “Entre o que Fica e o que Parte” (Ana Fonseca e Elias Daniel), o Estúdio de Artes Balancé com “Estrelas” (coreografia de Lucas Souza) e a Cia. de Dança Jhon Gomes, com outra versão de “Estrelas”. A escola Adorai retornou com “Sarça Ardente”, coreografada por Lívia Teodoro; os alunos do 2º período de bacharelado encerraram o ato.
No ato IV, após o ministério de dança Plenitude apresentar “Raridade”, música de Anderson Freire, a professora Shirley Regina subiu ao palco para oferecer palavras à homenageada. Em seguida, a mestre de cerimônias convidou Norma Tinoco a entrar em cena. Ao som de “Muda Tudo”, os alunos formaram um círculo ao redor da professora, cantando o refrão em coro.
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I FÓRUM ESTADUAL "Autismo, Cultura, Mercado de Trabalho e Políticas Públicas no Acre."
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11 de ABRIL
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