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Escândalo da BYD Brasil expõe falhas no investimento chinês – DW – 01/08/2025

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O termômetro marcava mais de 30 graus Celsius na madrugada de 23 de dezembro, quando agentes de uma força-tarefa liderada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) resgataram 163 trabalhadores chineses do canteiro de obras da nova fábrica da gigante automobilística BYD em Camaçari, no norte do país. estado da Bahia.

Investigadores do MPT em declarações à DW disseram que condições de trabalho são “semelhantes à escravatura” foram encontrados no site.

Nos dormitórios do Grupo Jinjiang, empresa contratada pela BYD para realizar os trabalhos, não havia colchões nas camas e os poucos banheiros atendiam centenas de trabalhadores em condições extremamente anti-higiênicas. Os trabalhadores também tinham alimentos armazenados sem refrigeração.

O MTP acusou ainda as empresas de reterem os passaportes dos trabalhadores e de ficarem com 60% dos seus salários – os restantes 40% seriam pagos em moeda chinesa.

Depois de as autoridades alegarem que os trabalhadores eram vítimas de tráfico internacional de seres humanos, o local foi encerrado. A fábrica deveria ser inaugurada em 2025.

Os 163 trabalhadores resgatados foram encaminhados para hotéis. Poucos dias depois, o governo brasileiro parou de emitir vistos de trabalho temporário para a BYD. A montadora disse que está cooperando com as autoridades brasileiras e que não tolerará o desrespeito à lei brasileira e à dignidade humana.

Especialistas disseram à DW que o caso compara a importância do investimento chinês com a manutenção dos padrões locais.

“Essa ação foi ainda mais significativa porque ocorreu em uma empresa que conta com forte apoio político, tanto no governo federal quanto na Bahia, devido à importância de seus investimentos no Brasil para os projetos de reindustrialização do presidente Lula”, disse Mauricio Santoro, Cientista político e professor de relações internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Produção externa da China em foco

Na terça-feira, os investigadores do MPT se reuniram com representantes da BYD e das empresas envolvidas na construção.

Todos os trabalhadores resgatados já receberam as indemnizações por rescisão e regressaram à China. Um relatório sobre a fiscalização do local será concluído na próxima semana e a remuneração dos trabalhadores será discutida em reunião subsequente.

Uma placa da BYD na unidade de Camaçari, na Bahia, Brasil
A unidade da BYD em Camaçari deveria ser inaugurada em março de 2025Imagem: Aliança de foto/imagem Raphael Muller/AP

Usar trabalhadores chineses para construir a fábrica da BYD é semelhante à forma como as multinacionais chinesas operam na África e em outros países latino-americanos, disse Paulo Feldmann, economista e professor da FIA Business School em São Paulo.

A prática traz poucos benefícios para os países que recebem o investimento, disse ele à DW.

“Para o Brasil, teria sido melhor se esses trabalhadores fossem locais, pela renda que teriam gerado para si e suas famílias, pelo impacto positivo em suas comunidades e pela formação profissional que teriam adquirido. para monitorar suas condições de trabalho”, disse ele.

O projeto de reindustrialização do Brasil

Camaçari, uma cidade de 300 mil habitantes perto da capital do estado de Salvador da Bahia, abrigou uma fábrica de automóveis Ford por 20 anos, mas a fábrica foi fechada em 2021 e a montadora norte-americana encerrou a produção no Brasil.

A paralisação veio acompanhada de uma queda na produção industrial brasileira, que em 2021 representava apenas 11% do PIB.

Quando Lula da Silva foi eleito presidente em 2022 com a promessa de reindustrialização Brasilsua administração procurou empresas parceiras interessadas em se instalar.

Em 2023, a montadora chinesa de automóveis elétricos BYD anunciou um investimento de US$ 484 milhões em uma nova fábrica para produzir seus veículos elétricos em parte do terreno que pertenceu à Ford.

Como a China está impulsionando a mudança para veículos elétricos

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“São investimentos enormes que mostram que a marca chegou para lutar de forma estruturada no mercado automotivo brasileiro. Não são os aventureiros que às vezes vemos”, disse Milad Kalume Neto, consultor automotivo, à DW.

A chegada da BYD também trouxe esperança à economia local.

“A Ford criou uma série de empresas para apoiar suas operações. Não apenas fornecedores, mas pequenas empresas para prestar serviços. Com a saída da empresa, essas empresas tiveram que reduzir suas atividades e agora têm mais uma chance de trabalhar para uma grande montadora.” ele acrescentou.

China alega campanha difamatória

A reação pública na China ao caso BYD foi dividida entre o ceticismo sobre as alegações estrangeiras e o debate sobre direitos trabalhistas no país.

No rescaldo do escândalo, a BYD e o seu empreiteiro, o Jinjiang Group, negaram as acusações, chamando-as de parte de uma campanha difamatória contra as marcas chinesas – uma narrativa apoiada por muitos nacionalistas chineses.

“Quando alguém quer acusar você, não faltam desculpas”, postou Li Yunfei, gerente geral do Departamento de Marca e Relações Públicas do Grupo BYD, no Weibo, uma plataforma de microblog popular na China.

Li prosseguiu acusando as forças estrangeiras de manchar deliberadamente a imagem da China e de tentar prejudicar as suas relações com o Brasil.

O Grupo Jinjiang também divulgou um vídeo no qual trabalhadores chineses liam uma declaração, assinada com suas impressões digitais, afirmando que “ser injustamente rotulados como ‘escravizados’ deixou seus funcionários profundamente insultados… a dignidade do povo chinês foi gravemente prejudicada”.

Esta narrativa foi ecoada pelos meios de comunicação estatais e por muitos utilizadores chineses da Internet, que caracterizaram o escândalo como um desafio às empresas nacionais que se expandem no estrangeiro.

Mas nem todos em China aceitou a ideia de culpar as “forças estrangeiras”.

Alguns usuários do Weibo escreveram que as condições de trabalho na fábrica da BYD no Brasil eram semelhantes às dos trabalhadores da construção civil na China. Isto gerou discussões online sobre quantos trabalhadores na China poderiam estar a viver em condições análogas à escravatura segundo os padrões internacionais.

O mercado de trabalho chinês é conhecido pela sua chamada cultura de trabalho “996”, que envolve trabalhar das 9h00 às 21h00, seis dias por semana, em violação das leis laborais. Este fenômeno é particularmente prevalente no setor de tecnologia.

“Eu estou do lado do Brasil. Os trabalhadores chineses estão sendo cruelmente explorados”, afirmou um comentário em uma postagem no Weibo, comparando as condições de trabalho na fábrica brasileira da BYD com as dos canteiros de obras locais.

“Sinto que as fábricas nacionais muitas vezes não tratam as pessoas como seres humanos, mas sim como máquinas”, disse outro comentário.

BYD visa o mercado europeu de EV

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Brasil continua sendo um mercado atraente para a China

Apesar da repercussão internacional do caso, as ações das autoridades brasileiras no caso BYD não devem impedir mais investimentos chineses no Brasil, disse o economista Feldmann.

“O mercado brasileiro é muito atrativo para as empresas chinesas. Elas vêm para o Brasil principalmente por causa desse mercado. Não creio que a relação entre Brasil e China esteja em risco por causa desse episódio”, afirmou.

O cientista político Mauricio Santoro disse à DW que espera que o incidente sirva de lição aos investidores chineses sobre a independência dos poderes no Brasil.

“Eles aprenderam que, independentemente dos acordos com os líderes políticos, os procuradores e o poder judicial agirão à sua própria maneira e aplicarão as leis laborais. De forma optimista, isto poderia evitar novos abusos”, disse ele.

Editado por: Wesley Rahn



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Ufac recebe visita da RFB para apresentação do projeto NAF — Universidade Federal do Acre

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Ufac recebe visita da RFB para apresentação do projeto NAF — Universidade Federal do Acre

A Ufac recebeu, nesta quarta-feira, 25, no gabinete da Reitoria, representantes da Receita Federal do Brasil (RFB) para a apresentação do projeto Núcleo de Apoio Contábil e Fiscal (NAF). A reunião contou com a participação da Coordenação do curso de Ciências Contábeis e teve como foco a proposta de implantação do núcleo na universidade.
O reitor em exercício e pró-reitor de Planejamento, Alexandre Hid, destacou a importância da iniciativa para os estudantes e sua relação com a curricularização da extensão. Segundo ele, a proposta representa uma oportunidade para os alunos e pode fortalecer ações extensionistas da universidade.

A analista tributária da RFB e representante de Cidadania Fiscal, Marta Furtado, explicou que o NAF é um projeto nacional voltado à qualificação de acadêmicos do curso de Ciências Contábeis, com foco em normas tributárias, legislação e obrigações acessórias. Segundo ela, o núcleo é direcionado ao atendimento de contribuintes de baixa renda e microempreendedores, além de aproximar os estudantes da prática profissional.

Durante a reunião, foi informada a futura assinatura de acordo de cooperação técnica entre a universidade e a RFB. Pelo modelo apresentado, a Ufac disponibilizará espaço para funcionamento do núcleo, enquanto a receita oferecerá plataforma de treinamento, cursos de capacitação e apoio permanente às atividades desenvolvidas.

Como encaminhamento, a RFB entregou o documento referencial do NAF, com orientações para montagem do espaço e definição dos equipamentos necessários. O processo será enviado para a Assessoria de Cooperação Institucional da Ufac. A expectativa apresentada na reunião é de que o núcleo seja integrado às ações de extensão universitária.

Também participaram da reunião o professor de Ciências Contábeis e vice-coordenador do curso, Cícero Guerra; e o auditor fiscal e delegado da RFB em Rio Branco, Claudenir Franklin da Silveira.



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Startup Day-2026 ocorre na Ufac em 21/03 no Centro de Convivência — Universidade Federal do Acre

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Startup Day-2026 ocorre na Ufac em 21/03 no Centro de Convivência — Universidade Federal do Acre

A Pró-Reitoria de Inovação e Tecnologia (Proint) da Ufac e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Acre (Sebrae-AC) realizam o Startup Day-2026, em 21 de março, das 8h às 12h, no espaço Sebrae-Lab, Centro de Convivência do campus-sede. O evento é dedicado à inovação e ao empreendedorismo, oferecendo oportunidades para transformar projetos em negócios de impacto real. As inscrições são gratuitas e estão abertas por meio online.

O Startup Day-2026 visa fortalecer o ecossistema, promover a troca de experiências, produzir e compartilhar conhecimento, gerar inovação e fomentar novos negócios. A programação conta com show de acolhimento e encerramento, apresentações, painel e palestra, além de atividades paralelas: carreta game do Hospital de Amor de Rio Branco, participação de startups de game em tempo real, oficina para crianças, exposição de grafiteiros e de projetos de pesquisadores da Ufac.

 



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A lógica de valor da Thryqenon (TRYQN) é apoiar a evolução da economia verde por meio de sua infraestrutura digital de energia

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Foto de capa [internet]

Com a aceleração da transição para uma economia de baixo carbono e a reestruturação do setor elétrico em diversos países, cresce a discussão sobre como a infraestrutura digital pode sustentar, no longo prazo, a evolução da economia verde. Nesse contexto, a plataforma de energia baseada em blockchain Thryqenon (TRYQN) vem ganhando atenção por propor uma estrutura integrada que combina negociação de energia, gestão de carbono e confiabilidade de dados.

A proposta da Thryqenon vai além da simples comercialização de energia renovável. Seu objetivo é construir uma base digital para geração distribuída, redução de emissões e uso colaborativo de energia. À medida que metas de neutralidade de carbono se tornam compromissos regulatórios, critérios como origem comprovada da energia, transparência nos registros e liquidação segura das transações deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos obrigatórios. A plataforma utiliza registro descentralizado em blockchain, correspondência horária de energia limpa e contratos inteligentes para viabilizar uma infraestrutura verificável e auditável.

A economia verde ainda enfrenta obstáculos importantes. Existe descompasso entre o local e o momento de geração da energia renovável e seu consumo final. A apuração de emissões costuma ocorrer de forma anual, dificultando monitoramento em tempo real. Além disso, a baixa rastreabilidade de dados limita a criação de incentivos eficientes no mercado. A Thryqenon busca enfrentar essas lacunas por meio de uma estrutura digital que integra coleta, validação e liquidação de informações energéticas.

Na arquitetura da plataforma, há conexão direta com medidores inteligentes, inversores solares e dispositivos de monitoramento, permitindo registro detalhado da geração e do consumo. Na camada de transações, o sistema possibilita verificação automatizada e liquidação hora a hora de energia e créditos de carbono, garantindo rastreabilidade. Já na integração do ecossistema, empresas, distribuidoras, comercializadoras e consumidores podem interagir por meio de interfaces abertas, promovendo coordenação entre diferentes agentes do setor elétrico.

O potencial de longo prazo da Thryqenon não está apenas no crescimento de usuários ou no volume de negociações, mas em sua capacidade de se posicionar como infraestrutura de suporte à governança energética e ao mercado de carbono. Com o avanço de normas baseadas em dados e reconhecimento internacional de créditos ambientais, plataformas transparentes e auditáveis tendem a ter papel relevante na transição energética e no financiamento sustentável.

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