Daigo Oliva
O predicado que acompanhará Evandro Teixeira é o de autor de uma das fotos mais simbólicas da ditadura.
Na imagem, dois policiais, cassetetes em mãos, perseguem um estudante no episódio conhecido como a sexta-feira sangrenta, em 1968, ano do AI-5. A vítima, com o corpo ainda no ar depois de ser brutalmente agredida, resume bem a repressão da ditadura militar no país, o que fez do registro um símbolo do período.
Teixeira, morto aos 88 nesta segunda (4), é com razão lembrado por esse registro e pelas fotografias que fez de eventos de relevo no Brasil e no exterior, como a de outro regime autoritário, o do Chile de Pinochet, resultado da rotina como fotógrafo do Jornal do Brasil, publicação na qual trabalhou durante 47 anos.
Os documentos que produziu, porém, vão bem além da política e reafirmam construções fotográficas de um profissional que imprimiu as preocupações estéticas que tinha nas principais imagens de sua obra —nada estranho para alguém que afirmou ter se interessado por fotografia ao ver um ensaio de José Medeiros.
O retrato que fez de Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Morais deitados em mesas de boteco também revela a habilidade para captar com a mesma precisão momentos de tensão e de quietude. Naquela foto, os rostos deles pouco aparecem, o que pouco importa. O que aparece já os identifica —todo o mundo os conhece—, e o que vale é o registro da pausa, em que o leitor imagina o que se passa naquelas cabeças.
Outra foto de um evento político, ainda que de outra seara, exibe a rainha Elizabeth 2ª no Brasil. Mas o que Evandro mostra não é a imagem que se espera hoje de um fotógrafo credenciado para cerimônias do tipo, em que esquemas de segurança impedem registros que fogem do roteiro programado pelas organizações.
O curioso, no entanto, é que o fotógrafo baiano tampouco trouxe o que se esperava de um fotógrafo da época, uma foto mais formal do evento —naquela oportunidade, Elizabeth havia visitado o Masp. Em vez do tradicional, flagrou a realeza bem de perto ajeitando a saia pouco antes de se sentar no banco traseiro do carro que a levava, olhar perdido, num momento de semi-intimidade de uma figura cheia de formalidades.
De um casamento, em que noivos desconfortáveis seguravam guarda-chuvas —sabe-se lá por que—, o enquadramento aberto abriga portas que desenham o fundo. Não era registrar a cena, mas compô-la.
Mesmo nas fotografias de notícias quentes, o apuro estético não ficava de fora. Na Passeata dos Cem Mil, também na ditadura militar, fechou o zoom até fazer com que a massa virasse uma textura, na pegada de que todos eram um, também consequência do ativismo necessário que tomou parte do jornalismo à época —Evandro teve essa fotografia exposta recentemente em tamanho generoso no Instituto Moreira Salles.
Mas o exemplo que mais assombra é o do dia do golpe, quando o baiano registrou a tomada do Forte de Copacabana, com a silhueta de um militar contra luz, sob forte chuva, um canhão atravessando a imagem e outros soldados desfocados. Sem legenda, aquela cena pouco dizia. Com contexto e ao longo dos anos, a foto se tornou um prenúncio do que viria. Difícil imaginar que um editor publicasse um registro desse hoje.
A caça ao estudante da sexta-feira sangrenta também espanta pelo enquadramento preciso numa cena de movimento e nervosismo. Tudo está lá, muito bem desenhado: a violência, a correria ao fundo, o homem que observa e nada faz, e os óculos, arrancados do rosto do jovem pela cacetada, ainda no ar. Conta para que a história da foto seja ainda mais forte o fato de que o homem agredido nunca foi encontrado.
“A gente não tinha informação de quem era morto, baleado, preso, ferido, disse Evandro à Folha há quatro anos. “Naquela época não era bala de festim, era de verdade. O pau comia para valer, e morreu, morreu.”
A crueza da imagem e da história por trás dela faz da foto uma daquelas imagens que resumem a carreira de um fotógrafo, mas o trabalho de Evandro Teixeira vai bem além do que ele fez naquela sexta-feira.
