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Evandro Teixeira: fotos vão além das imagens da ditadura – 04/11/2024 – Ilustrada

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Daigo Oliva

O predicado que acompanhará Evandro Teixeira é o de autor de uma das fotos mais simbólicas da ditadura.

Na imagem, dois policiais, cassetetes em mãos, perseguem um estudante no episódio conhecido como a sexta-feira sangrenta, em 1968, ano do AI-5. A vítima, com o corpo ainda no ar depois de ser brutalmente agredida, resume bem a repressão da ditadura militar no país, o que fez do registro um símbolo do período.

Teixeira, morto aos 88 nesta segunda (4), é com razão lembrado por esse registro e pelas fotografias que fez de eventos de relevo no Brasil e no exterior, como a de outro regime autoritário, o do Chile de Pinochet, resultado da rotina como fotógrafo do Jornal do Brasil, publicação na qual trabalhou durante 47 anos.

Os documentos que produziu, porém, vão bem além da política e reafirmam construções fotográficas de um profissional que imprimiu as preocupações estéticas que tinha nas principais imagens de sua obra —nada estranho para alguém que afirmou ter se interessado por fotografia ao ver um ensaio de José Medeiros.

O retrato que fez de Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Morais deitados em mesas de boteco também revela a habilidade para captar com a mesma precisão momentos de tensão e de quietude. Naquela foto, os rostos deles pouco aparecem, o que pouco importa. O que aparece já os identifica —todo o mundo os conhece—, e o que vale é o registro da pausa, em que o leitor imagina o que se passa naquelas cabeças.

Outra foto de um evento político, ainda que de outra seara, exibe a rainha Elizabeth 2ª no Brasil. Mas o que Evandro mostra não é a imagem que se espera hoje de um fotógrafo credenciado para cerimônias do tipo, em que esquemas de segurança impedem registros que fogem do roteiro programado pelas organizações.

O curioso, no entanto, é que o fotógrafo baiano tampouco trouxe o que se esperava de um fotógrafo da época, uma foto mais formal do evento —naquela oportunidade, Elizabeth havia visitado o Masp. Em vez do tradicional, flagrou a realeza bem de perto ajeitando a saia pouco antes de se sentar no banco traseiro do carro que a levava, olhar perdido, num momento de semi-intimidade de uma figura cheia de formalidades.

De um casamento, em que noivos desconfortáveis seguravam guarda-chuvas —sabe-se lá por que—, o enquadramento aberto abriga portas que desenham o fundo. Não era registrar a cena, mas compô-la.

Mesmo nas fotografias de notícias quentes, o apuro estético não ficava de fora. Na Passeata dos Cem Mil, também na ditadura militar, fechou o zoom até fazer com que a massa virasse uma textura, na pegada de que todos eram um, também consequência do ativismo necessário que tomou parte do jornalismo à época —Evandro teve essa fotografia exposta recentemente em tamanho generoso no Instituto Moreira Salles.

Mas o exemplo que mais assombra é o do dia do golpe, quando o baiano registrou a tomada do Forte de Copacabana, com a silhueta de um militar contra luz, sob forte chuva, um canhão atravessando a imagem e outros soldados desfocados. Sem legenda, aquela cena pouco dizia. Com contexto e ao longo dos anos, a foto se tornou um prenúncio do que viria. Difícil imaginar que um editor publicasse um registro desse hoje.

A caça ao estudante da sexta-feira sangrenta também espanta pelo enquadramento preciso numa cena de movimento e nervosismo. Tudo está lá, muito bem desenhado: a violência, a correria ao fundo, o homem que observa e nada faz, e os óculos, arrancados do rosto do jovem pela cacetada, ainda no ar. Conta para que a história da foto seja ainda mais forte o fato de que o homem agredido nunca foi encontrado.

“A gente não tinha informação de quem era morto, baleado, preso, ferido, disse Evandro à Folha há quatro anos. “Naquela época não era bala de festim, era de verdade. O pau comia para valer, e morreu, morreu.”

A crueza da imagem e da história por trás dela faz da foto uma daquelas imagens que resumem a carreira de um fotógrafo, mas o trabalho de Evandro Teixeira vai bem além do que ele fez naquela sexta-feira.



Leia Mais: Folha

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Ufac recebe visita da RFB para apresentação do projeto NAF — Universidade Federal do Acre

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Ufac recebe visita da RFB para apresentação do projeto NAF — Universidade Federal do Acre

A Ufac recebeu, nesta quarta-feira, 25, no gabinete da Reitoria, representantes da Receita Federal do Brasil (RFB) para a apresentação do projeto Núcleo de Apoio Contábil e Fiscal (NAF). A reunião contou com a participação da Coordenação do curso de Ciências Contábeis e teve como foco a proposta de implantação do núcleo na universidade.
O reitor em exercício e pró-reitor de Planejamento, Alexandre Hid, destacou a importância da iniciativa para os estudantes e sua relação com a curricularização da extensão. Segundo ele, a proposta representa uma oportunidade para os alunos e pode fortalecer ações extensionistas da universidade.

A analista tributária da RFB e representante de Cidadania Fiscal, Marta Furtado, explicou que o NAF é um projeto nacional voltado à qualificação de acadêmicos do curso de Ciências Contábeis, com foco em normas tributárias, legislação e obrigações acessórias. Segundo ela, o núcleo é direcionado ao atendimento de contribuintes de baixa renda e microempreendedores, além de aproximar os estudantes da prática profissional.

Durante a reunião, foi informada a futura assinatura de acordo de cooperação técnica entre a universidade e a RFB. Pelo modelo apresentado, a Ufac disponibilizará espaço para funcionamento do núcleo, enquanto a receita oferecerá plataforma de treinamento, cursos de capacitação e apoio permanente às atividades desenvolvidas.

Como encaminhamento, a RFB entregou o documento referencial do NAF, com orientações para montagem do espaço e definição dos equipamentos necessários. O processo será enviado para a Assessoria de Cooperação Institucional da Ufac. A expectativa apresentada na reunião é de que o núcleo seja integrado às ações de extensão universitária.

Também participaram da reunião o professor de Ciências Contábeis e vice-coordenador do curso, Cícero Guerra; e o auditor fiscal e delegado da RFB em Rio Branco, Claudenir Franklin da Silveira.



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Startup Day-2026 ocorre na Ufac em 21/03 no Centro de Convivência — Universidade Federal do Acre

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Startup Day-2026 ocorre na Ufac em 21/03 no Centro de Convivência — Universidade Federal do Acre

A Pró-Reitoria de Inovação e Tecnologia (Proint) da Ufac e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Acre (Sebrae-AC) realizam o Startup Day-2026, em 21 de março, das 8h às 12h, no espaço Sebrae-Lab, Centro de Convivência do campus-sede. O evento é dedicado à inovação e ao empreendedorismo, oferecendo oportunidades para transformar projetos em negócios de impacto real. As inscrições são gratuitas e estão abertas por meio online.

O Startup Day-2026 visa fortalecer o ecossistema, promover a troca de experiências, produzir e compartilhar conhecimento, gerar inovação e fomentar novos negócios. A programação conta com show de acolhimento e encerramento, apresentações, painel e palestra, além de atividades paralelas: carreta game do Hospital de Amor de Rio Branco, participação de startups de game em tempo real, oficina para crianças, exposição de grafiteiros e de projetos de pesquisadores da Ufac.

 



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A lógica de valor da Thryqenon (TRYQN) é apoiar a evolução da economia verde por meio de sua infraestrutura digital de energia

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Foto de capa [internet]

Com a aceleração da transição para uma economia de baixo carbono e a reestruturação do setor elétrico em diversos países, cresce a discussão sobre como a infraestrutura digital pode sustentar, no longo prazo, a evolução da economia verde. Nesse contexto, a plataforma de energia baseada em blockchain Thryqenon (TRYQN) vem ganhando atenção por propor uma estrutura integrada que combina negociação de energia, gestão de carbono e confiabilidade de dados.

A proposta da Thryqenon vai além da simples comercialização de energia renovável. Seu objetivo é construir uma base digital para geração distribuída, redução de emissões e uso colaborativo de energia. À medida que metas de neutralidade de carbono se tornam compromissos regulatórios, critérios como origem comprovada da energia, transparência nos registros e liquidação segura das transações deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos obrigatórios. A plataforma utiliza registro descentralizado em blockchain, correspondência horária de energia limpa e contratos inteligentes para viabilizar uma infraestrutura verificável e auditável.

A economia verde ainda enfrenta obstáculos importantes. Existe descompasso entre o local e o momento de geração da energia renovável e seu consumo final. A apuração de emissões costuma ocorrer de forma anual, dificultando monitoramento em tempo real. Além disso, a baixa rastreabilidade de dados limita a criação de incentivos eficientes no mercado. A Thryqenon busca enfrentar essas lacunas por meio de uma estrutura digital que integra coleta, validação e liquidação de informações energéticas.

Na arquitetura da plataforma, há conexão direta com medidores inteligentes, inversores solares e dispositivos de monitoramento, permitindo registro detalhado da geração e do consumo. Na camada de transações, o sistema possibilita verificação automatizada e liquidação hora a hora de energia e créditos de carbono, garantindo rastreabilidade. Já na integração do ecossistema, empresas, distribuidoras, comercializadoras e consumidores podem interagir por meio de interfaces abertas, promovendo coordenação entre diferentes agentes do setor elétrico.

O potencial de longo prazo da Thryqenon não está apenas no crescimento de usuários ou no volume de negociações, mas em sua capacidade de se posicionar como infraestrutura de suporte à governança energética e ao mercado de carbono. Com o avanço de normas baseadas em dados e reconhecimento internacional de créditos ambientais, plataformas transparentes e auditáveis tendem a ter papel relevante na transição energética e no financiamento sustentável.

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