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Excesso de opções produz angústia e estimula o imobilismo – 15/12/2024 – Álvaro Machado Dias

A grade fixa dos canais de TV é um fenômeno de época em declínio no mundo todo. Sua popularidade inabalável por mais de meio século deu o tom à expressão “tempo de qualidade com a família”, uma consequência dos consensos criados na sala de estar, sendo essa a sua função.

A médio prazo, o fim da transição para o consumo de mídia individualizado e assíncrono deve levar a uma reorganização do espaço das residências, com a remoção das televisões do seu centro, produzindo um efeito maior que 90% das inovações “disruptivas” que vemos por aí.

Raciocínio semelhante se aplica à socialização pela comida. Enquanto as áreas sociais dos apartamentos se miniaturizam, a taxa de pessoas comendo desacompanhadas nos restaurantes sobe e as entregas individuais por aplicativo disparam. O refluxo do coletivo também é intenso no ensino, no trabalho, no encontro de parceiros e em tantas outras dimensões da vida da geração Z (pessoas com menos de 28 anos).

A tendência tem sido apontada, quase consensualmente, como responsável pelos baixos escores de felicidade dessa geração e por projeções ainda mais severas para a seguinte. A solidão, sem dúvida, é um ponto, mas eu tenho dúvidas se a adversidade emerge pela falta, como se diz, ou pelo excesso, tal sendo o ponto central do artigo de hoje.

Mudanças societárias no mundo capitalista quase sempre levam ao aumento da individualização, ao mesmo tempo que são acompanhadas pela elevação do IDH, que possui forte correlação com a felicidade mensurada. Conforme os países ficam mais ricos, as decisões se individualizam e pouca gente reclama. Privacidade e personalização são as grandes aspirações de quem não as acessa.

Do mais, convenhamos, a TV desconectada era o Bashar al-Assad da sala de estar. Como foi libertador sair do seu domínio! Igualmente libertador é comer sozinho numa boa, atender menos ligações em função do WhatsApp, aprender línguas deitado na cama e assim por diante.

A tese de que o “mal do século” surge do declínio de psicotecnologias gregárias não é mais que um entrave à compreensão do que se passa na mente da maioria, só perdendo para a de que, se não tivermos mais que bater ponto, mergulharemos no vazio existencial.

O que faz mais sentido é considerar que o mal-estar é um reflexo do paradoxo da escolha, onde menos é mais. Poder selecionar uma série é melhor que assistir ao programa de auditório por inércia familiar, mas passar a noite testando possibilidades não é.

Esse é exatamente o problema vivido nos aplicativos de relacionamento, em que a insatisfação emerge por design, nas plataformas de ensino, nas quais ninguém termina curso algum, na definição de rotas profissionais próprias e em tantos outros domínios. Quando as opções se multiplicam, liberdade e angústia convergem.

Pois bem, muito se discute se a inteligência artificial irá se rebelar e dominar a existência humana, sem que se perceba que o mais provável é que a maioria transfira de bom grado suas decisões para a máquina pelo simples fato de que o excesso de opções gera desconforto e estimula o imobilismo.

A aridez dessa visão é o que recalca o diagnóstico sobre a natureza do mal-estar. Antes fosse saudade da novela. A agonia contemporânea é uma crise de pânico pela ameaça de liberdade.


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