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Maduro e oposição enganam venezuelanos, diz ex-chavista – 27/01/2025 – Mundo

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Mayara Paixão

Luis Bonilla-Molina é mais a regra do que a exceção. É um imigrante venezuelano com sete filhos, um professor aposentado que buscou em outros países um novo lar com condições de subsistência.

Mas há algo que o diferencia. O hoje professor visitante da Universidade Federal de Sergipe foi vice-ministro de Hugo Chávez (1954-2013), o pai da revolução que terminou em ditadura.

Apesar da saudade que tem do lar, Luis, 61, não deve voltar tão cedo. Ele não vê condições materiais de sobrevivência na Venezuela atual e tampouco se sente seguro para isso. “Há uma absoluta intolerância à dissidência” no madurismo, diz à reportagem.

Ele integra a Frente Democrática Popular, um grupo oposicionista ao regime de Nicolás Maduro que tampouco está alinhado à oposição majoritária de María Corina Machado e Edmundo González. Um dos líderes da Frente, Enrique Márquez, está desaparecido.

Nasci em Rubio, um povo na fronteira com a Colômbia, e sou professor. Um professor que se aposentou com uma pensão de US$ 20 mensais —e é impossível sobreviver e criar filhos assim. Sou pai de sete, e cinco dos meus filhos estão vivendo a tragédia da migração como eu.

Primeiro fui ao México em 2018 para um pós-doutorado com bolsa, depois fui ao Panamá para trabalhar por quatro anos como professor. Há um ano e meio sou professor visitante na Universidade Federal de Sergipe. Quando vi a vaga, corri. Depois olhei o mapa. Não fazia ideia de onde era Aracaju. Como a maior parte dos imigrantes, não tenho estabilidade em nenhum lugar, mas tive o privilégio de ter trabalho.

Quando Chávez surgiu, nos parecia representar as melhores vontades do povo. Decidimos apostar. Ocupei cargos no governo, acompanhei-o até com suas falhas, porque não, não foi um período perfeito. Dirigi o Centro Internacional Miranda, de onde fomos desalojados por fazer críticas, entre elas uma à hiperliderança de Chávez. Fui assessor do gabinete dele. E fui vice-ministro de Educação Universitária.

Romper foi uma tragédia pessoal. Conhecemos Maduro, ele é parte de uma geração que acreditava estar comprometida com um projeto de transformação política. Mas os acontecimentos de 2014 a 2019 nos fizeram entender que era impossível seguir apoiando ele.

Maduro foi progressivamente traindo o projeto que Chávez encarnou, fazendo de uma proposta de mudança radical na relação da população com o governo uma nova modalidade de neoliberalismo. Seu governo fala de soberania, mas está entregando o petróleo aos Estados Unidos em condições leoninas, quase neocoloniais, com a Chevron. E ainda assim segue dizendo que seu governo é anti-imperialista.

Com Maduro, não se tolerava a crítica. Quando começamos a fazê-las na esquerda, começaram as intervenções nos partidos políticos. Durante muito tempo esperamos uma retratação. Não houve.

Ele bloqueou qualquer possibilidade de candidatura que não fosse a da direita. A expressão da simpatia eleitoral por Edmundo González não expressa um giro à direita na população, mas sim um sentimento anti-Maduro. As pessoas que votaram por ele votaram por uma mudança o mais rápido possível.

Fui muito critico quando se apelou a qualquer excesso de uso da força antes de Maduro e hoje em dia. A política é diálogo, consenso. Os colectivos [milícias civis armadas pelo regime] não representam nenhum trabalho de esquerda, são anônimos encapuzados.

Nas eleições do ano passado, foi impossível votar. Disponibilizaram somente o consulado em Brasília para fazer o registro, que só abriu por poucos dias. Era preciso viajar de Sergipe até lá duas vezes, e o custo da passagem era muito alto para mim. Ir à Venezuela e voltar, então, era materialmente impossível. Por isso lhes pedimos que abrissem um prazo mais longo para que pudéssemos ir em ônibus. Também pedimos que habilitassem outros consulados. Nada disso ocorreu. [Apenas 69 mil imigrantes estavam registrados para votar em um universo de mais de 7,7 milhões deles; relatos como o de Luis ocorreram em vários países.]

Precisamos retomar a democracia. O erro começou com o Conselho Nacional Eleitoral, que não cumpriu com a sua tarefa de divulgar as atas eleitorais.

Quando uma organização da qual faço parte publicou um comunicado pedindo a divulgação das atas, uma alta autoridade me ligou, dizendo que por minha culpa a violência na Venezuela se multiplicaria. Eu quero voltar ao meu país, mas não posso pelas condições materiais da vida e agora pela absoluta intolerância, como mostra essa ameaça.

O que vemos hoje não são bons projetos em disputa. O que aconteceu no dia da posse de Maduro foi uma dupla traição: por um lado, o roubo da democracia pelo governo, e por outro o engano à população por parte da oposição que lidera María Corina Machado, que prometia que Edmundo González iria ao país, mesmo sendo impossível.

Por que María Corina está livre, mas Enrique Márquez está detido? Isso porque o governo teme qualquer narrativa que fuja ao que lhes resulta funcional, que é estar ao lado dos Estados Unidos.

O surgimento de uma terceira opção, progressista, mas despolarizada, é fundamental. Uma opção que defenda a soberania popular, seja contra o bloqueio, contra qualquer ataque militar à Venezuela, mas também que denuncie o desgoverno que houve com Maduro, especialmente a situação para a classe trabalhadora.

Hoje Maduro não vê condições e garantias para deixar o poder. E a oposição não soube construí-los. Lamentavelmente, parte da oposição vem defendendo uma tragédia, que é a possibilidade de invasão militar. O problema dos venezuelanos resolvem os venezuelanos.

É incrível que um governo que se reivindica socialista e de esquerda piore as condições da população.



Leia Mais: Folha

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Cerimônia do Jaleco marca início de jornada da turma XVII de Nutrição — Universidade Federal do Acre

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No dia 28 de março de 2026, foi realizada a Cerimônia do Jaleco da turma XVII do curso de Nutrição da Universidade Federal do Acre. O evento simbolizou o início da trajetória acadêmica dos estudantes, marcando um momento de compromisso com a ética, a responsabilidade e o cuidado com a saúde.

 

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Ufac realiza aula inaugural do MPCIM em Epitaciolândia — Universidade Federal do Acre

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Ufac realiza aula inaugural do MPCIM em Epitaciolândia — Universidade Federal do Acre

A Ufac realizou a aula inaugural da turma especial do mestrado profissional em Ensino de Ciência e Matemática (MPCIM) no município de Epitaciolândia (AC), também atendendo moradores de Brasileia (AC) e Assis Brasil (AC). A oferta dessa turma e outras iniciativas de interiorização contam com apoio de emenda parlamentar da deputada federal Socorro Neri (PP-AC). A solenidade ocorreu na sexta-feira, 27.

O evento reuniu professores, estudantes e representantes da comunidade local. O objetivo da ação é expandir e democratizar o acesso à pós-graduação no interior do Estado, contribuindo para o desenvolvimento regional e promovendo a formação de recursos humanos qualificados, além de fortalecer a universidade para além da capital. 

A pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação, Margarida Lima Carvalho, ressaltou que a oferta da turma nasceu de histórias, compromissos e valores ao longo do tempo. “Hoje não estamos apenas abrindo uma turma. Estamos abrindo caminhos, sonhos e futuros para o interior do Acre, porque quando o compromisso atravessa gerações, ele se transforma em legado. E o legado transforma vidas.”

 



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Ufac recebe visita da RFB para apresentação do projeto NAF — Universidade Federal do Acre

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Ufac recebe visita da RFB para apresentação do projeto NAF — Universidade Federal do Acre

A Ufac recebeu, nesta quarta-feira, 25, no gabinete da Reitoria, representantes da Receita Federal do Brasil (RFB) para a apresentação do projeto Núcleo de Apoio Contábil e Fiscal (NAF). A reunião contou com a participação da Coordenação do curso de Ciências Contábeis e teve como foco a proposta de implantação do núcleo na universidade.
O reitor em exercício e pró-reitor de Planejamento, Alexandre Hid, destacou a importância da iniciativa para os estudantes e sua relação com a curricularização da extensão. Segundo ele, a proposta representa uma oportunidade para os alunos e pode fortalecer ações extensionistas da universidade.

A analista tributária da RFB e representante de Cidadania Fiscal, Marta Furtado, explicou que o NAF é um projeto nacional voltado à qualificação de acadêmicos do curso de Ciências Contábeis, com foco em normas tributárias, legislação e obrigações acessórias. Segundo ela, o núcleo é direcionado ao atendimento de contribuintes de baixa renda e microempreendedores, além de aproximar os estudantes da prática profissional.

Durante a reunião, foi informada a futura assinatura de acordo de cooperação técnica entre a universidade e a RFB. Pelo modelo apresentado, a Ufac disponibilizará espaço para funcionamento do núcleo, enquanto a receita oferecerá plataforma de treinamento, cursos de capacitação e apoio permanente às atividades desenvolvidas.

Como encaminhamento, a RFB entregou o documento referencial do NAF, com orientações para montagem do espaço e definição dos equipamentos necessários. O processo será enviado para a Assessoria de Cooperação Institucional da Ufac. A expectativa apresentada na reunião é de que o núcleo seja integrado às ações de extensão universitária.

Também participaram da reunião o professor de Ciências Contábeis e vice-coordenador do curso, Cícero Guerra; e o auditor fiscal e delegado da RFB em Rio Branco, Claudenir Franklin da Silveira.



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