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Moscou, iluminada, espera por 2025 – 28/12/2024 – Mônica Bergamo
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Mônica Bergamo, Serguei Monin
A maioria dos brasileiros que sabem que uma pessoa vive em Moscou, ou que visitou a cidade, pergunta antes de mais nada como anda a vida por lá, imaginando que, por causa da guerra, ela é sombria.
As ruas estão desertas? As lojas e os restaurantes estão fechados? Há falta de luz, água? As prateleiras dos supermercados estão vazias? Dá para comprar macarrão, carne? Como os russos de Moscou estão vivendo? Como eles se viram sem cartão de crédito?
As respostas: as ruas estão lotadas. As lojas e os restaurantes estão abertos e cheios.
A bandeira de cartão MIR, criada pelo Banco Central da Rússia em 2015, no contexto das sanções ocidentais contra o país por causa da anexação da Crimeia, um ano antes, substituiu as bandeiras estrangeiras. O sistema de pagamentos UnionPay, da China, cresceu. Estrangeiros podem trocar dólares por rublos, a moeda do país, em dezenas de bancos.
A coluna foi a Moscou em novembro para entrevistar Dimitri Peskov, o porta-voz de Vladimir Putin há duas décadas. E percorreu a metrópole.
A sensação de segurança, apesar da guerra, é semelhante à que se experimenta nas grandes capitais europeias. É possível caminhar sem receio inclusive depois que escurece. Os índices de criminalidade são baixos se comparados aos das cidades brasileiras.
Era inverno, e por volta das 16h30 já começava a anoitecer. Dois meses antes das festas de fim de ano, no entanto, a cidade estava intensamente iluminada.
O Natal não é comemorado no dia 25 de dezembro em Moscou por causa da herança comunista, que aboliu festas e feriados religiosos (quando foram reestabelecidos, o nascimento de Jesus passou a ser celebrado no dia 7 de janeiro, seguindo o calendário juliano adotado pela Igreja Ortodoxa, predominante no país).
As tradições natalinas, sob os bolcheviques, porém, foram incorporadas ao Ano Novo. As famílias se reúnem e trocam presentes. Árvores com bolas douradas e outros enfeites são instaladas por toda a cidade, bem como luminosos com os números “2025”, anunciando o novo período que se aproxima.
Naquele domingo, 24 de novembro, o Selfie, um restaurante de cozinha autoral que recebeu uma estrela do guia Michelin em 2022, funcionava normalmente, e estava cheio. Ceviche fresco, ravioli de caranguejo, linguado com pêssegos fritos, manteiga de tangerina são algumas das comidas disponíveis em seu cardápio.
Ele fica em um centro comercial, no mesmo piso de lojas de eletroeletrônicos, casas de vinho e supermercados com prateleiras abastecidas em que se pode encontrar de Coca-Cola a vinhos franceses, passando por batatas Pringles. Um piso abaixo fica uma churrascaria que também estava lotada neste dia, com mesas ruidosas, algumas delas celebrando aniversários.
Mil dias depois do início da guerra contra a Ucrânia, que o governo Putin chama de “operação militar especial”, não há racionamento em Moscou. O crescimento da economia no país hoje gira em torno de 3%.
A cidade é tratada pelo governo como uma fortaleza inexpugnável, que não pode ser abalada de forma alguma pela guerra.
Essa blindagem já foi desafiada. Neste mês, um atentado com um patinete-bomba matou um general russo em uma avenida a 7 km do Kremlin. O ataque foi reivindicado pelo Serviço Secreto da Ucrânia (SBU). Em episódio anterior, em maio de 2023, um drone atingiu o Palácio do Senado, no Kremlin.
Depois disso, o GPS passou a sofrer interrupções no centro da cidade, o que traz um dos poucos inconvenientes da guerra para os moscovitas: ao chamar um carro por aplicativos como o Yandex Go, o passageiro provavelmente vai ter problemas para encontrá-lo no endereço indicado. Isso ocorre porque, com a instabilidade do sistema que permite a localização com precisão, o motorista acaba estacionando sempre um pouco antes ou um pouco depois do endereço correto. Seguir aplicativos de mapas também ficou mais complicado.
Apesar da quase normalidade, não necessariamente os moscovitas consideram a guerra natural e aceitável. Uma pesquisa feita pelo instituto independente Levada, classificado pelo governo Putin como “agente estrangeiro” por receber recursos de fora do país, mostrou em outubro que 52% dos russos acompanham muito de perto as notícias sobre a guerra. O apoio a ela, de 52% em março de 2022, ainda é alto, mas caiu para 45% neste ano.
Como os brasileiros que não são indiferentes à violência ou israelenses de Tel Aviv que se posicionam contra o conflito de Gaza, no entanto, os moscovitas tocam adiante o seu cotidiano.
Uma outra diferença: com 13 milhões de habitantes, Moscou sempre recebeu milhares de turistas. Depois da guerra, o perfil dos visitantes mudou. Houve queda drástica, de 96,1%, no fluxo de estrangeiros da União Europeia e dos EUA em relação a 2019, por causa da pandemia de Covid-19. Com o conflito na Ucrânia, a suspensão dos voos diretos das capitais europeias para Moscou, as sanções econômicas e a deterioração da relação entre os países aprofundaram o problema.
Mas em 2023 o turismo russo começou a se recuperar —em particular por causa do aumento no fluxo de visitantes da China, de países do Oriente Médio e da Ásia Central. Foram emitidos cerca de 340,7 mil vistos estrangeiros para a Rússia, ou 2,4 vezes mais do que em 2022. China e Turcomenistão lideraram os pedidos.
A mudança exigiu adaptações do comércio. “Nunca contamos muito com os turistas, porque eles vinham, mas compravam pouco. No geral nossa clientela são os russos e os que trabalham nas embaixadas, ou estrangeiros que têm negócios aqui. Mas agora surgiram turistas árabes em grande quantidade, e eles querem comprar pequenas xícaras de café”, diz Andrei Tikhamerov, dono de uma loja de produtos de cerâmica na Feira de Ismailovo, que tem também um mercado de pulgas.
As vendedoras da francesa Clarins no shopping Gum, na Praça Vermelha, também dizem que os árabes começaram a aparecer em maior quantidade, “e eles buscam os perfumes de que gostam”, e os estoques precisam ser abastecidos.
Depois das sanções econômicas decretadas pelos países ocidentais, marcas de alto luxo francesas como a Dior e a Tiffany’s mantiveram as lojas instaladas em Moscou, com seus letreiros e luzes acesas. Mas suspenderam as vendas. Nas portas, colaram cartazes com o aviso: estão “temporariamente fechadas por problemas técnicos”. Nele, informam o número de WhatsApp por meio do qual podem ser acessadas caso algum cliente se interesse por seus produtos.
Marcas italianas como Dolce & Gabbana e Giorgio Armani funcionavam normalmente —nesta, até com promoção de Black Friday, com descontos de 20% na primeira e 30% na segunda compra.
A vendedora Emilie Daskalipoulos percorreu os quatro andares da Dolce & Gabbana com a coluna, explicando que aquela é “a maior loja da marca fora da Itália”. Quando começou a guerra, diz ela, “houve limitação na importação dos modelos mais caros”. Mas a coleção principal sempre se manteve.
Com o tempo, “nossos diretores chegaram a um acordo, e não há mais problemas agora. Inclusive nesta temporada recebemos uma coleção muito grande da linha Fashion, considerada das mais caras da Dolce”. Um casaco de inverno custava R$ 30 mil, um vestido, de renda, R$ 20 mil. Na francesa Saint Laurent, na mesma quadra, um casaco de peles custava R$ 66 mil.
As vendas seguem, a vida segue.
O comerciante Andrei Tikhamerov afirma que “as pessoas já se acostumaram com o conflito”. Ele mesmo sentiu poucas mudanças em sua rotina. “Não notei grandes diferenças”, afirma. “Os carros, por exemplo, ficaram mais caros. Meu carro já não está muito bom, e compreendo que não consigo adquirir um novo. É preciso consertar o antigo, dirigir com o que se tem. Os carros chineses [que agora são vendidos em maior quantidade na Rússia] são caros. E eu tenho a impressão de que não são de muito boa qualidade. Estou monitorando em fóruns [de consumidores], e não me parecem grande coisa”, relata.
Apesar das poucas alterações em seu dia a dia, Tikhamerov lamenta o conflito com a Ucrânia. “Quando uma guerra começa, é difícil dizer quem tem razão. Todos são culpados, via de regra. Na minha visão, não só a Rússia e a Ucrânia são culpadas, mas também os países ao redor, que empurraram para esse conflito. Que, na verdade, o geraram”, diz ele. “E isso é muito triste, porque temos parentes e familiares lá [na Ucrânia]. Mesmo antes da operação militar especial, muitos pararam de falar com a gente, porque lá [na Ucrânia] havia propaganda de que nós somos os seus inimigos. Foi dado um certo estímulo para que eles passassem a pensar assim. Mas o que, afinal, nos difere? [Eu dizia] ‘Vocês vivem aí, nós vivemos aqui, qual é a diferença?’. Tenho um primo de lá que reage com ódio aos russos.”
O comerciante afirma que “isso começou antes da dissolução da União Soviética”, em 1991. Relembra que parentes o visitavam em Moscou e diziam: “Vocês tomam a nossa manteiga”.
“Eu respondia ‘vamos ao mercado, vejam, a manteiga que consumimos é finlandesa, ou é feita na Rússia. Nunca vi manteiga ucraniana aqui’. Mas eles já viam essa propaganda de que nós somos os culpados, de que tomamos as coisas deles, isso e aquilo. E essa propaganda continuou, continuou. Até, no fim das contas, chegarmos a essa tragédia.”
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Professora publica livro sobre sítios naturais sagrados do povo Nukini — Universidade Federal do Acre
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4 de março de 2026A professora Renata Duarte de O. Freitas, do curso de Direito do campus Floresta da Ufac, lança o livro “Aldeia Isã Vakevu, do Povo Originário Nukini: Um Sítio Natural Sagrado no Coração do Juruá” (Lumen Juris, 240 p.). O evento ocorre neste sábado, 7, às 19h, no teatro dos Nauas, em Cruzeiro do Sul. Resultado de investigação científica, a obra integra a cosmologia indígena aos marcos regulatórios da justiça ambiental.
A pesquisa é fundamentada na trajetória de resistência do povo Nukini. O livro presta homenagem à memória de Arlete Muniz (Ynesto Kumã), matriarca, parteira e liderança espiritual que preservou os conhecimentos milenares do Povo da Onça frente aos processos de aculturação e violência histórica.
O texto destaca a continuidade desse patrimônio imaterial, transmitido de geração para geração ao seu neto, o líder espiritual Txane Pistyani Nukini (Leonardo Muniz). Atualmente, esse legado sustenta a governança espiritual no Kupixawa Huhu Inesto, onde a aplicação das medicinas da floresta e a proteção territorial dialogam com a escrita acadêmica para materializar a visão de mundo Nukini perante a sociedade global.
Renata Duarte de O. Freitas introduz no cenário jurídico eixos teóricos que propõem um novo paradigma para a conservação ambiental: sítios naturais sagrados, que são locais de identidade cultural e espiritual; direito achado na aldeia, cuja proposta é que o ordenamento jurídico reconheça que a lei também emana da sacralidade desses locais; e direitos bioculturais, que demonstram que a biodiversidade da Serra do Divisor é preservada porque está ligada ao respeito pelos sítios naturais sagrados.
Ao analisar a sobreposição de uma parte do território Nukini com o Parque Nacional da Serra do Divisor, a obra oferece uma solução científica: o reconhecimento de que áreas protegidas pelo Estado devem ser geridas em conjunto com os povos originários, respeitando seus territórios sagrados.
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Em caravana, ministro da Educação, Camilo Santana, visita a Ufac — Universidade Federal do Acre
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25 de fevereiro de 2026A Ufac recebeu, nesta quarta-feira, 25, na Reitoria, campus-sede, a visita do ministro da Educação, Camilo Santana, no âmbito da caravana Aqui Tem MEC, iniciativa do Ministério da Educação voltada ao acompanhamento de ações e investimentos nas instituições federais de ensino.
Durante a agenda, o ministro destacou que a caravana tem percorrido instituições federais em diferentes Estados para conhecer a realidade de cada campus, dialogar com gestores e a comunidade acadêmica, além de acompanhar as demandas da educação pública federal.
Ao tratar dos investimentos relacionados à Ufac, a reitora Guida Aquino destacou a obra do campus Fronteira, em Brasileia, que conta com R$ 40 milhões em recursos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A estrutura terá seis cursos, com salas de aula, laboratórios, restaurante universitário e biblioteca.
Abordando a visita, Guida ressaltou a importância da universidade para o Estado e a missão da educação pública. “A Ufac é a única universidade pública federal de ensino superior do Acre e, por isso, tem papel estratégico na formação e no desenvolvimento regional. A educação é que transforma vidas, transforma o país.”

Outro tema tratado durante a agenda foi a implantação do Hospital Universitário no Acre. Camilo Santana afirmou que o Estado é o único que ainda não conta com essa estrutura e informou que o governo federal dispõe de R$ 50 milhões, por meio do Novo PAC, para viabilizar adequações e a implantação da unidade.
Ele explicou que a prioridade continua sendo a concretização de uma parceria para doação de um hospital, mas afirmou que, se isso não ocorrer, o MEC buscará outra alternativa para garantir a instalação do serviço no Estado. “O importante é que nenhum Estado desse país deixe de ter um hospital universitário”, enfatizou.

Guida reforçou a importância do projeto e disse que o Hospital Universitário já poderia ser celebrado no Acre. Ao defender a iniciativa, contou que a unidade contribuiria para qualificar o atendimento, reduzir filas de tratamento fora de domicílio e atender melhor pacientes do interior, inclusive em casos ligados às doenças tropicais da Amazônia. Em tom crítico, declarou: “O cavalo selado, ele só passa uma vez”, ao se referir à oportunidade de implantação do hospital.
Após coletiva de imprensa, o ministro participou de reunião fechada com pró-reitores, gestores, políticos e parlamentares da bancada federal acreana, entre eles o senador Sérgio Petecão (PSD) e as deputadas Meire Serafim (União) e Socorro Neri (PP).
A comitiva do MEC foi formada pela secretária de Educação Básica, Kátia Schweickardt; pelo secretário de Educação Profissional e Tecnológica, Marcelo Bregagnoli; pelo secretário de Educação Superior, Marcus Vinicius David; e pelo presidente da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, Arthur Chioro.
Laboratório de Paleontologia
Depois de participar de reunião, Camilo Santana visitou o Laboratório de Paleontologia da Ufac. O professor Edson Guilherme, coordenador do espaço, apresentou o acervo científico ao ministro e destacou a importância da estrutura para o avanço das pesquisas no Acre. O laboratório foi reformulado, ampliado e recentemente reinaugurado.

Aberto para visitação de segunda a sexta-feira, em horário de expediente, exceto feriados, o local reúne fósseis originais e réplicas de animais que viveram no período do Mioceno, quando o oeste amazônico era dominado por grandes sistemas de rios e lagos. A entrada é gratuita e a visitação é aberta a estudantes e à comunidade em geral.
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A Pró‑Reitoria de Graduação (Prograd) da Universidade Federal do Acre (Ufac) é o órgão responsável pelo planejamento, coordenação e supervisão das atividades acadêmicas relacionadas ao ensino de graduação. Sua atuação está centrada em fortalecer a formação universitária, promovendo políticas e diretrizes que assegurem a qualidade, a integração pedagógica e o desenvolvimento dos cursos de bacharelado, licenciatura e demais formações presenciais e a distância. A Prograd articula ações com as unidades acadêmicas, órgãos colegiados e a comunidade universitária, garantindo que os currículos e práticas pedagógicas estejam alinhados aos objetivos institucionais.
Entre as principais atribuições da Prograd estão a coordenação da política de ensino, a supervisão de programas de bolsas voltadas à graduação, a análise e encaminhamento de propostas normativas e a participação em iniciativas que promovem a reflexão e o diálogo sobre o ensino superior.
A Prograd é organizada em três diretorias, cada uma com funções específicas e complementares:
Diretoria de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino — responsável por ações estratégicas voltadas ao desenvolvimento de metodologias, à regulação e ao apoio pedagógico dos cursos de graduação.
Diretoria de Apoio à Formação Acadêmica — dedicada a acompanhar e apoiar as atividades acadêmicas dos estudantes, incluindo estágios, mobilidade estudantil e acompanhamento da formação acadêmica.
Diretoria de Apoio à Interiorização e Programas Especiais — voltada à gestão de programas especiais, políticas de interiorização e ações que ampliam o acesso e a permanência dos alunos em diferentes regiões.
A Prograd participa, ainda, de iniciativas que promovem a reflexão e o diálogo sobre o ensino superior, integrando docentes, estudantes e gestores em fóruns, encontros e ações que visam à atualização contínua dos processos formativos e ao atendimento das demandas sociais contemporâneas.
Com compromisso institucional, a Pró‑Reitoria de Graduação contribui para que a UFAC cumpra seu papel educativo, formando profissionais críticos e comprometidos com as realidades local e regional, garantindo um ambiente acadêmico de excelência e responsabilidade social.
Ednacelí Abreu Damasceno
Pró-Reitora de Graduação
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