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No Quénia, nem mesmo os cartunistas estão seguros | Opiniões
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A caricatura política no Quénia nunca esteve isenta de riscos. Os cartunistas enfrentaram demissão e censura planejadas pelo Estado, ações judiciais movidas por políticos irados e insatisfeitos com sua representação e até mesmo ameaças ocasionais por telefone. No entanto, até esta semana, nunca tinham tido de suportar detenções arbitrárias.
Mesmo durante os piores dias dos 24 anos da ditadura de Daniel arap Moi, o “Erro Nyayo” que devastou o país de 1978 a 2002, os cartunistas não foram directamente alvo do Estado. Os editores de jornais viram as suas prensas destruídas e os editores e escritores – incluindo satíricos como Wahome Mutahi – foram detidos durante longos períodos sem julgamento. Os cartunistas foram, no entanto, poupados dos piores excessos do regime.
Isso mudou com o sequestro de Gideon Kibet, mais conhecido como Kibet Bull, um jovem cartunista que se tornou uma sensação na internet por seu uso ousado de silhuetas para ridicularizar a administração do presidente William Ruto, que tem assumido cada vez mais um rumo autoritário depois que sua legitimidade foi perdida. posto em dúvida pelos protestos de rua liderados por jovens em todo o país.
O regime respondeu com uma repressão brutal que matou dezenas de pessoas e com uma campanha de raptos de activistas proeminentes que continua até hoje. De acordo com a Comissão Nacional dos Direitos Humanos do Quénia, nos últimos sete meses, pelo menos 82 pessoas foram levados e quase um terço deles permanece desaparecido. Kibet e o seu irmão, Ronnie Kiplagat, desapareceram na capital, Nairobi, na véspera de Natal, depois de se terem encontrado com o legislador da oposição Okiya Omtatah.
O facto de a polícia estar por detrás do desaparecimento da dupla é parcialmente confirmado por relatos de que agentes já tinham invadido a sua casa em Nakuru, a cerca de 150 quilómetros da capital, numa tentativa vã de o prender. Além disso, a polícia foi implicada em sequestros anteriores, incluindo o sequestro de um jornalista veterano, Macharia Gaithoque foi retirado da delegacia de polícia onde se refugiou.
Ao atacar Kibet, o regime de Ruto demonstrou a sua fragilidade. De acordo com uma teoria, o cartoon depende do sistema político. Enquanto nos regimes totalitários o artista é forçado a elogiar o sistema e denunciar os seus inimigos e nos regimes democráticos o cartunista é um cão de guarda, mantendo os detentores do poder honestos e responsáveis, nos regimes autoritários alguma dissidência é permitida, e quando os regimes se tornam frágeis, os cartunistas expõem impiedosamente a sua rígida tolice.
Durante seis décadas, o Quénia tem sido uma aspirante a democracia, com o povo a ter constantemente de reagir contra as tendências autoritárias dos seus governantes. Ruto, que foi eleito com apenas um terço dos votos em 2022, tem estado especialmente inseguro quanto à sua posição, tentando inicialmente criar um lugar para si no cenário internacional para cobrir a sua falta de legitimidade interna. Os protestos do meio do ano, que o forçaram a retirar medidas fiscais impopulares, a remodelar o seu gabinete e a lançar um movimento juvenil centrado na sua deposição, também alimentaram as suas tendências autoritárias, que tinham sido alimentadas por ninguém menos que o próprio Moi.
Através dos seus desenhos animados, Kibet Bull tem exposto impiedosamente a tolice rígida de Ruto, atraindo a atenção e a ira do regime, bem como conquistando a admiração de milhões de quenianos, tanto online como offline. Ele agora se junta a dezenas de jovens que foram desaparecidos pelo regime de Ruto, alguns dos quais relataram terem sido torturados e outros que foram mortos. O facto de os raptos serem obra de agentes do Estado não é motivo de sérias dúvidas e atraiu a condenação de uma grande parte da sociedade queniana, bem como de grupos de direitos humanos.
Nos últimos dias, Ruto prometeu pôr fim aos raptos, o que muitos quenianos interpretaram como uma admissão de cumplicidade. Na sua mensagem de Ano Novo ao país, reconheceu “casos de acções excessivas e extrajudiciais por parte de membros dos serviços de segurança”, mas parecia sugerir que o verdadeiro problema não era o mau comportamento da polícia, mas sim os cidadãos que avançavam “radicais, individualistas e interpretações egocêntricas de direitos e liberdades”.
Ruto, que no passado demonstrou desdém pelo ensino de história nas escolas quenianas, argumentando que os quenianos precisavam de se concentrar em disciplinas mais “comercializáveis”, na verdade ficaria bem servido se lesse sobre o passado recente do Quénia. Ao longo das últimas sete décadas, os governantes do Quénia – desde os colonialistas britânicos até aos seus antecessores como presidente, incluindo o colega indiciado por crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional, Uhuru Kenyatta – aprenderam todos a mesma lição dolorosa: a falta de legitimidade é letais para os seus regimes e a sua brutalidade não os salvará.
Ruto é de longe o mais fraco de todos e sabe disso. Ainda a meio do seu mandato, já está a planear alterar as regras sobre a transferência de poder para ter mais controlo do processo, apesar de faltarem mais de dois anos e meio para as próximas eleições. Enquanto se debate, ele passou por diversas remodelações governamentais importantes e até planejou o impeachment, a destituição e a substituição de seu vice. Depois de ter conduzido com sucesso uma campanha populista para a presidência contra as “dinastias” – as famílias políticas que dominaram a política do Quénia desde a independência – ele viu-se reduzido a engolir as suas palavras e a cortejar o seu apoio.
Mas é esta mesma fraqueza, insegurança, medo e desespero que torna Ruto tão perigoso. É isto que o faz visar os jovens cujo único crime é exigir a vida melhor que lhes prometeu. É isto que faz o seu regime tremer diante do ridículo e ver os desenhos animados online como uma ameaça existencial. E é isto que faz dele uma ameaça para a nação e para a sua ordem constitucional – uma ameaça para a qual todos os quenianos devem estar atentos.
As opiniões expressas neste artigo são do próprio autor e não refletem necessariamente a posição editorial da Al Jazeera.
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Professora publica livro sobre sítios naturais sagrados do povo Nukini — Universidade Federal do Acre
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4 de março de 2026A professora Renata Duarte de O. Freitas, do curso de Direito do campus Floresta da Ufac, lança o livro “Aldeia Isã Vakevu, do Povo Originário Nukini: Um Sítio Natural Sagrado no Coração do Juruá” (Lumen Juris, 240 p.). O evento ocorre neste sábado, 7, às 19h, no teatro dos Nauas, em Cruzeiro do Sul. Resultado de investigação científica, a obra integra a cosmologia indígena aos marcos regulatórios da justiça ambiental.
A pesquisa é fundamentada na trajetória de resistência do povo Nukini. O livro presta homenagem à memória de Arlete Muniz (Ynesto Kumã), matriarca, parteira e liderança espiritual que preservou os conhecimentos milenares do Povo da Onça frente aos processos de aculturação e violência histórica.
O texto destaca a continuidade desse patrimônio imaterial, transmitido de geração para geração ao seu neto, o líder espiritual Txane Pistyani Nukini (Leonardo Muniz). Atualmente, esse legado sustenta a governança espiritual no Kupixawa Huhu Inesto, onde a aplicação das medicinas da floresta e a proteção territorial dialogam com a escrita acadêmica para materializar a visão de mundo Nukini perante a sociedade global.
Renata Duarte de O. Freitas introduz no cenário jurídico eixos teóricos que propõem um novo paradigma para a conservação ambiental: sítios naturais sagrados, que são locais de identidade cultural e espiritual; direito achado na aldeia, cuja proposta é que o ordenamento jurídico reconheça que a lei também emana da sacralidade desses locais; e direitos bioculturais, que demonstram que a biodiversidade da Serra do Divisor é preservada porque está ligada ao respeito pelos sítios naturais sagrados.
Ao analisar a sobreposição de uma parte do território Nukini com o Parque Nacional da Serra do Divisor, a obra oferece uma solução científica: o reconhecimento de que áreas protegidas pelo Estado devem ser geridas em conjunto com os povos originários, respeitando seus territórios sagrados.
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Em caravana, ministro da Educação, Camilo Santana, visita a Ufac — Universidade Federal do Acre
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25 de fevereiro de 2026A Ufac recebeu, nesta quarta-feira, 25, na Reitoria, campus-sede, a visita do ministro da Educação, Camilo Santana, no âmbito da caravana Aqui Tem MEC, iniciativa do Ministério da Educação voltada ao acompanhamento de ações e investimentos nas instituições federais de ensino.
Durante a agenda, o ministro destacou que a caravana tem percorrido instituições federais em diferentes Estados para conhecer a realidade de cada campus, dialogar com gestores e a comunidade acadêmica, além de acompanhar as demandas da educação pública federal.
Ao tratar dos investimentos relacionados à Ufac, a reitora Guida Aquino destacou a obra do campus Fronteira, em Brasileia, que conta com R$ 40 milhões em recursos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A estrutura terá seis cursos, com salas de aula, laboratórios, restaurante universitário e biblioteca.
Abordando a visita, Guida ressaltou a importância da universidade para o Estado e a missão da educação pública. “A Ufac é a única universidade pública federal de ensino superior do Acre e, por isso, tem papel estratégico na formação e no desenvolvimento regional. A educação é que transforma vidas, transforma o país.”

Outro tema tratado durante a agenda foi a implantação do Hospital Universitário no Acre. Camilo Santana afirmou que o Estado é o único que ainda não conta com essa estrutura e informou que o governo federal dispõe de R$ 50 milhões, por meio do Novo PAC, para viabilizar adequações e a implantação da unidade.
Ele explicou que a prioridade continua sendo a concretização de uma parceria para doação de um hospital, mas afirmou que, se isso não ocorrer, o MEC buscará outra alternativa para garantir a instalação do serviço no Estado. “O importante é que nenhum Estado desse país deixe de ter um hospital universitário”, enfatizou.

Guida reforçou a importância do projeto e disse que o Hospital Universitário já poderia ser celebrado no Acre. Ao defender a iniciativa, contou que a unidade contribuiria para qualificar o atendimento, reduzir filas de tratamento fora de domicílio e atender melhor pacientes do interior, inclusive em casos ligados às doenças tropicais da Amazônia. Em tom crítico, declarou: “O cavalo selado, ele só passa uma vez”, ao se referir à oportunidade de implantação do hospital.
Após coletiva de imprensa, o ministro participou de reunião fechada com pró-reitores, gestores, políticos e parlamentares da bancada federal acreana, entre eles o senador Sérgio Petecão (PSD) e as deputadas Meire Serafim (União) e Socorro Neri (PP).
A comitiva do MEC foi formada pela secretária de Educação Básica, Kátia Schweickardt; pelo secretário de Educação Profissional e Tecnológica, Marcelo Bregagnoli; pelo secretário de Educação Superior, Marcus Vinicius David; e pelo presidente da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, Arthur Chioro.
Laboratório de Paleontologia
Depois de participar de reunião, Camilo Santana visitou o Laboratório de Paleontologia da Ufac. O professor Edson Guilherme, coordenador do espaço, apresentou o acervo científico ao ministro e destacou a importância da estrutura para o avanço das pesquisas no Acre. O laboratório foi reformulado, ampliado e recentemente reinaugurado.

Aberto para visitação de segunda a sexta-feira, em horário de expediente, exceto feriados, o local reúne fósseis originais e réplicas de animais que viveram no período do Mioceno, quando o oeste amazônico era dominado por grandes sistemas de rios e lagos. A entrada é gratuita e a visitação é aberta a estudantes e à comunidade em geral.
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A Pró‑Reitoria de Graduação (Prograd) da Universidade Federal do Acre (Ufac) é o órgão responsável pelo planejamento, coordenação e supervisão das atividades acadêmicas relacionadas ao ensino de graduação. Sua atuação está centrada em fortalecer a formação universitária, promovendo políticas e diretrizes que assegurem a qualidade, a integração pedagógica e o desenvolvimento dos cursos de bacharelado, licenciatura e demais formações presenciais e a distância. A Prograd articula ações com as unidades acadêmicas, órgãos colegiados e a comunidade universitária, garantindo que os currículos e práticas pedagógicas estejam alinhados aos objetivos institucionais.
Entre as principais atribuições da Prograd estão a coordenação da política de ensino, a supervisão de programas de bolsas voltadas à graduação, a análise e encaminhamento de propostas normativas e a participação em iniciativas que promovem a reflexão e o diálogo sobre o ensino superior.
A Prograd é organizada em três diretorias, cada uma com funções específicas e complementares:
Diretoria de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino — responsável por ações estratégicas voltadas ao desenvolvimento de metodologias, à regulação e ao apoio pedagógico dos cursos de graduação.
Diretoria de Apoio à Formação Acadêmica — dedicada a acompanhar e apoiar as atividades acadêmicas dos estudantes, incluindo estágios, mobilidade estudantil e acompanhamento da formação acadêmica.
Diretoria de Apoio à Interiorização e Programas Especiais — voltada à gestão de programas especiais, políticas de interiorização e ações que ampliam o acesso e a permanência dos alunos em diferentes regiões.
A Prograd participa, ainda, de iniciativas que promovem a reflexão e o diálogo sobre o ensino superior, integrando docentes, estudantes e gestores em fóruns, encontros e ações que visam à atualização contínua dos processos formativos e ao atendimento das demandas sociais contemporâneas.
Com compromisso institucional, a Pró‑Reitoria de Graduação contribui para que a UFAC cumpra seu papel educativo, formando profissionais críticos e comprometidos com as realidades local e regional, garantindo um ambiente acadêmico de excelência e responsabilidade social.
Ednacelí Abreu Damasceno
Pró-Reitora de Graduação
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