POLÍTICA
Projeto da anistia impõe primeira grande prova de…

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4 meses atrásem

Marcela Mattos
Quando seu nome nem era tratado publicamente como uma possibilidade de candidato à presidência da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) era visto por caciques de partidos de centro como alguém com o perfil ideal para exercer o cargo num cenário político tão conflagrado quanto o atual. Jeitoso, equilibrado e de uma rara paciência, como definem seus aliados, o deputado sempre preferiu trocar os holofotes pelas conversas a portas fechadas. Na miúda, ele arregimentou apoios da direita à esquerda, firmou acordos com o presidente Lula e com o ex-presidente Jair Bolsonaro e, de azarão, tornou-se um dos homens mais importantes da República após conquistar o voto de 86% dos deputados. Os pactos firmados para garantir a sua eleição nunca foram revelados. Jamais se soube, por exemplo, o que Motta prometeu em múltiplas mesas de negociação sobre o projeto que concede anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023, quando os prédios do Congresso, do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Palácio do Planalto foram invadidos e depredados por apoiadores de Bolsonaro que, segundo a Polícia Federal, queriam acelerar um golpe de Estado e manter o capitão no poder.
Esse enigma, que domina a pauta política no início de 2025, ainda não foi desvendado. Petistas garantem ter obtido de Motta o compromisso de que o salvo-conduto aos vândalos não encontrará guarida em sua gestão. Os bolsonaristas, por sua vez, demonstram otimismo ao dizer que o presidente da Câmara lhes afiançou não haver vetos a nenhum tema. Já ministros do STF, que travam uma batalha contra o perdão aos golpistas, afirmam manter contato diário com Motta, de quem teriam ouvido a promessa de que nada acontecerá sem ser combinado previamente com o tribunal.
As partes interessadas, como se vê, têm versões no mínimo contraditórias entre si. Alguém está enganado e será contrariado. Resta saber quando e em que grau. Pressionado, Motta terá de dar algum indício de como pretende desatar esse nó nos próximos dias — não porque ele tenha pressa, mas porque se viu obrigado a começar a arbitrar a disputa. Na última segunda-feira, 14, a oposição alcançou a sua primeira vitória ao protocolar um requerimento com pedido de urgência ao projeto de anistia, assinado por 262 deputados, cinco a mais do que o mínimo necessário. Se aprovado, esse requerimento fará com que o projeto seja analisado direto no plenário, sem passar pelas comissões.
Cabe ao presidente da Câmara decidir quando vai pautar o dito requerimento. A oposição quer pressa, sob o argumento de que a maioria deixou claro que chancela a iniciativa. “Nós demos o conforto que ele precisava. Ele pode virar para o STF e falar: ‘a Casa construiu maioria, não tenho alternativa’”, diz o deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL. Já o governo trabalha para interditar a tramitação, lembrando que há mais de 1 000 pedidos de urgência à espera de análise e que a cartada bolsonarista tem de ir para o final da fila. Procurado por VEJA, Motta não quis comentar o caso. O deputado esticou o feriado da Páscoa longe do Congresso e precisa ainda tocar pautas relevantes, urgentes e de interesse do país, que estão à espera de análise. Entre elas, a revisão dos supersalários e o desafio de encontrar uma compensação para a isenção de imposto de renda de quem ganha até 5 000 reais por mês.

Em uma publicação feita nas redes sociais um dia após a apresentação do requerimento pró-anistia, Motta voltou a dizer que o tema será submetido à análise dos líderes partidários. Foi mais uma de suas inúmeras manifestações protocolares. “Em uma democracia, ninguém tem o direito de decidir nada sozinho. É preciso também ter responsabilidade com o cargo que ocupamos, pensando no que cada pauta significa para as instituições e para toda a população brasileira”, afirmou, equilibrando-se em muitas palavras.
O número mínimo de assinaturas de apoio ao requerimento de urgência foi alcançado após um empenho direto de Jair Bolsonaro. Réu no STF e investigado como o líder máximo de uma tropa que tentou dar um golpe no país, o ex-presidente visitou o Congresso diversas vezes, conversou diretamente com os caciques de partidos e encabeçou manifestações de rua para mobilizar aliados e pressionar os parlamentares a aderir à anistia. Desde que deixou a Presidência, foram cinco atos no Rio de Janeiro e em São Paulo. No último deles, no início do mês, o pastor Silas Malafaia chegou a bradar que Motta estava “envergonhando o honrado povo da Paraíba”. Correligionário do presidente da Câmara, o governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas, também disparou telefonemas pedindo apoio à urgência. Ele conseguiu amealhar cinco preciosos votos a favor do requerimento pró-anistia.

Acossado pelo STF, Bolsonaro havia programado um giro pelo Nordeste que começaria no Rio Grande do Norte na última sexta-feira, 11. Ao chegar a uma cidade a 100 quilômetros de Natal, porém, ele passou mal e teve de ser transferido de helicóptero às pressas. O ex-presidente foi diagnosticado com uma obstrução intestinal e passou por cirurgia que durou doze horas, uma das mais complexas desde que levou uma facada durante a campanha presidencial de 2018. Ainda não há previsão de quando ele deixará o hospital, mas é certo que o contratempo médico não deterá a cruzada pela anistia. Antes tratada como uma utopia, a conquista das assinaturas favoráveis à urgência do projeto foi recebida como uma senhora derrota do governo Lula. Quatro dias antes de os aliados do capitão atingirem seu objetivo, a ministra Gleisi Hoffmann, responsável pela articulação política, afirmou ter confiança na palavra de Hugo Motta de que o tema não irá a voto, mas surpreendeu ao dizer que uma redução da pena a alguns dos manifestantes do 8 de Janeiro é “plenamente defensável do ponto de vista de muitos parlamentares”.
No dia seguinte, Gleisi retocou a declaração e disse que eventuais revisões das penas caberiam exclusivamente ao STF. O posicionamento da ministra gerou irritação nos bastidores da Corte, já que os próprios magistrados entraram em campo para, sem sucesso, tentar demover congressistas a endossarem a urgência da pauta. Dos 262 apoios, mais da metade veio de partidos do Centrão que têm cargos no governo. Agora, o Planalto promete fazer um pente-fino nas nomeações das legendas. Quem tiver cargos terá de lutar para frear o avanço do texto ou perderá seu rincão na máquina pública. O PP, que controla o Ministério do Esporte e a Caixa, foi o que mais entregou votos proporcionalmente — mais de 70% da bancada chancelou o pedido. Numa demonstração do tamanho da preocupação com as possíveis retaliações do governo, enquanto a Câmara confirmava as assinaturas pela urgência da anistia, o ministro André Fufuca, do PP, inaugurava ao lado do correligionário Arthur Lira um ginásio esportivo em Coruripe, no litoral de Alagoas.

Da esquerda, o deputado Paulo Foletto (PSB-ES) foi o único que chegou a dar sua rubrica para acelerar a votação da anistia. Depois, recuou. A VEJA, o parlamentar negou ter sofrido pressão do governo e disse que mudou de posição porque acreditou que o texto em discussão se tratava apenas de uma redução da pena para a “massa de manobra” do 8 de Janeiro. “Teve gente que até falou assim: ‘ô, que vontade de assinar também’. Eu mesmo tenho muitos eleitores que não entendem a profundidade da questão e pedem para assinar”, afirmou o deputado. “Eu sou favorável a uma dosimetria. Dá uma pena alternativa, manda limpar escola. Mas não dá para botar dezessete anos de prisão nesse povo que foi levado pela paixão”, acrescentou.
A confusão do deputado, se de fato existiu, não é de todo despropositada. Em meio a todo esse imbróglio, ainda não se sabe qual o conteúdo do projeto que pode aliviar a situação dos condenados pelos ataques na Praça dos Três Poderes. O texto principal foi apresentado em novembro de 2022, antes mesmo dos atos antidemocráticos, e tem como objetivo perdoar quaisquer manifestantes, caminhoneiros e empresários que participaram de protestos após o segundo turno das eleições.

Na Câmara, outros sete projetos que tratam da anistia foram juntados ao original, com adaptações especificamente para o 8 de Janeiro e visando minimizar os atos a uma depredação do patrimônio, restando uma pena mínima. Bolsonaro e seus articuladores já deixaram claro que querem derrubar todas as condenações aplicadas por tentativa de golpe de Estado. Ou seja: lutam por uma anistia ampla, geral e irrestrita. O esforço não é à toa. Embora afirmem que a medida não alcançaria o ex-presidente, isso pode acontecer, dependendo do teor do texto final.
Com o ministro Alexandre de Moraes à frente, e a ajuda providencial de Gilmar Mendes, o STF tem atuado junto a líderes partidários em busca de uma solução para evitar que uma anistia a Bolsonaro ganhe corpo no futuro. Integrantes do tribunal já deixaram claro que o perdão, se aprovado pelo Legislativo, será considerado inconstitucional. Ou seja: de um jeito ou de outro, não prosperará. A saída encontrada pelos magistrados para baixar a temperatura é outra: garantir o abatimento de pena a certos golpistas, especialmente àqueles que consideram massa de manobra.
Em decisões recentes, Moraes trocou penas privativas de liberdade por prisão domiciliar, por exemplo. Foi o que o ministro fez na última terça-feira, 16, com o pastor Jorge Luiz dos Santos. Condenado a dezesseis anos e seis meses de prisão e com problemas cardíacos graves, ele foi autorizado a deixar o presídio da Papuda, em Brasília, mediante o cumprimento de uma série de restrições, como o uso de tornozeleira eletrônica. Antes, Moraes já havia autorizado a trocar o regime fechado pela prisão domiciliar outros processados, como a cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, que pichou a estátua da Justiça com um batom e se tornou símbolo de campanha bolsonarista contra supostos abusos nas condenações. Segundo integrantes do STF, esse tipo de solução mantém o discurso de que o Judiciário tratará os golpistas com rédeas curtas, mas também ajuda a esvaziar a ladainha do ex-presidente de que cidadãos comuns, idosos e mães de família estariam sendo perseguidos pelo Judiciário. O STF também pretende utilizar os próximos julgamentos para, nas palavras de um ministro, “separar o joio do trigo” e demonstrar que não há espaço para apaziguamento a mentores e executores da tentativa de golpe de Estado.

Na próxima semana, a Corte deve concluir a análise do caso de Débora e declarar que a cabeleireira não é tão inocente como pintam os bolsonaristas, mas, pode, sim, cumprir o restante da pena longe da cadeia. Ao mesmo tempo, o Supremo pretende direcionar os holofotes para réus com atuação direta no plano de demolição da democracia, como o general Mario Fernandes e o ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal Silvinei Vasques, que deverão se tornar réus por golpe de Estado e tentativa de abolição do Estado democrático de direito. Sobre o general, recai a acusação de ser o autor do principal capítulo da trama golpista: o assassinato do presidente Lula, do vice Geraldo Alckmin e do ministro Moraes. Já Silvinei é investigado por supostamente ter tentado impedir eleitores de bolsões tidos como petistas de votar no segundo turno. Enquanto lida com a pressão e faz ajustes gradativos na régua usada para punir a “massa de manobra” do 8 de Janeiro, o Supremo acompanha com lupa os movimentos de Hugo Motta. “Mantemos a confiança no presidente da Câmara e acreditamos que ele não vai fazer nada contra o Supremo nem a despeito do Supremo”, disse a VEJA, sob reserva, um integrante do tribunal.
Esse mesmo ministro reforçou que, se a anistia avançar, será considerada inconstitucional. Portanto, não valeria a Motta comprar essa briga. Argumento parecido é usado por integrantes do governo Lula, que lembram o deputado de que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, já afirmou que o projeto não entrará na pauta da Casa. Até aqui, Motta, o equilibrista, conseguiu manter o diálogo com todos os interessados, sem deixar claro o que fará. Mais cedo ou mais tarde, no entanto, ele contrariará interesses, naquela que será sua estreia, de fato, na poderosa e desgastante cadeira de presidente da Câmara.
Publicado em VEJA de 17 de abril de 2025, edição nº 2940
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A articulação para mudar quem define o teto de jur…

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4 meses atrásem
5 de maio de 2025
Nicholas Shores
O Ministério da Fazenda e os principais bancos do país trabalham em uma articulação para transferir a definição do teto de juros das linhas de consignado para o Conselho Monetário Nacional (CMN).
A ideia é que o poder de decisão sobre o custo desse tipo de crédito fique com um órgão vocacionado para a análise da conjuntura econômica.
Compõem o CMN os titulares dos ministérios da Fazenda e do Planejamento e Orçamento e da presidência do Banco Central – que, atualmente, são Fernando Haddad, Simone Tebet e Gabriel Galípolo.
A oportunidade enxergada pelos defensores da mudança é a MP 1.292 de 2025, do chamado consignado CLT. O Congresso deve instalar a comissão mista que vai analisar a proposta na próxima quarta-feira.
Uma possibilidade seria aprovar uma emenda ao texto para transferir a função ao CMN.
Hoje, o poder de definir o teto de juros das diferentes linhas de empréstimo consignado está espalhado por alguns ministérios.
Cabe ao Conselho Nacional da Previdência Social (CNPS), presidido pelo ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, fixar o juro máximo cobrado no consignado para pensionistas e aposentados do INSS.
A ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, é quem decide o teto para os empréstimos consignados contraídos por servidores públicos federais.
Na modalidade do consignado para beneficiários do BPC-Loas, a decisão cabe ao ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias.
Já no consignado de adiantamento do saque-aniversário do FGTS, é o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que tem a palavra final sobre o juro máximo.
Atualmente, o teto de juros no consignado para aposentados do INSS é de 1,85% ao mês. No consignado de servidores públicos federais, o limite está fixado em 1,80% ao mês.
Segundo os defensores da transferência da decisão para o CMN, o teto “achatado” de juros faz com que, a partir de uma modelagem de risco de crédito, os bancos priorizem conceder empréstimos nessas linhas para quem ganha mais e tem menos idade – restringindo o acesso a crédito para uma parcela considerável do público-alvo desses consignados.
Ainda de acordo com essa lógica, com os contratos de juros futuros de dois anos beirando os 15% e a regra do Banco Central que proíbe que qualquer empréstimo consignado tenha rentabilidade negativa, a tendência é que o universo de tomadores elegíveis para os quais os bancos estejam dispostos a emprestar fique cada vez menor.
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