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Remédios para perda de peso mudarão relação com comida – 19/10/2024 – Equilíbrio

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James Gallagher

Estamos na era dos remédios para perda de peso.

As decisões sobre esses medicamentos poderão moldar o futuro da nossa saúde e sociedade.

A ciência já está derrubando a crença que se tinha de que obesidade é simplesmente uma falha moral dos mais fracos.

Os medicamentos para perda de peso estão hoje no centro do debate nacional em vários países, como o Reino Unido. Esta semana, o novo governo britânico sugeriu que eles poderiam ser uma ferramenta para ajudar pessoas obesas a largarem benefícios sociais e voltarem a trabalhar.

Esse anúncio —e a reação que causou— revelou opiniões públicas sobre a obesidade e o que deve ser feito para combatê-la.

Para mim, essas são algumas perguntas que eu considero importante.

A obesidade é algo provocado pelas próprias pessoas? Elas poderiam evitar a obesidade fazendo melhores escolhas de vida? Ou é uma falha social, com milhões de vítimas, e que precisaria de leis para controlar os tipos de alimentos que comemos?

Os medicamentos eficazes para perda de peso são a opção mais sensata para uma crise de obesidade? Ou estão sendo usados como uma saída conveniente para evitar se discutir a grande questão: por que tantas pessoas estão acima do peso?

Escolha pessoal ou estado paternalista? Realismo ou idealismo? Poucas condições médicas conseguem acender um debate tão acalorado.

Não posso resolver todas essas questões para você —tudo depende de suas opiniões pessoais sobre obesidade e do tipo de país em que você quer viver. Mas, ao pensar sobre elas, há algumas coisas a se considerar.

A obesidade é muito visível (ao contrário de outras condições médicas, como pressão alta) e há muito tempo vem acompanhada de um estigma de culpa e vergonha. A gula é um dos sete pecados capitais do cristianismo.

Mas vamos parar para pensar na semaglutida, que é vendida sob a marca Wegovy para perda de peso. Ela imita um hormônio que é liberado quando comemos e engana o cérebro —fazendo-o pensar que estamos satisfeitos e diminuindo nosso apetite para que comamos menos.

O que isso significa é que, ao mudar apenas um hormônio, “de repente você muda todo o seu relacionamento com a comida”, diz o professor Giles Yeo, que estuda obesidade na universidade de Cambridge.

E isso tem muitas implicações na maneira como pensamos a obesidade.

Isso também significa que para muitas pessoas acima do peso existe uma “deficiência hormonal”, argumenta Yeo, que as deixa biologicamente mais famintas e propensas a ganhar mais peso do que alguém que é naturalmente magro.

Isso provavelmente era uma vantagem biolófica há 100 anos ou mais, quando a comida era menos abundante —levando as pessoas a consumir mais calorias quando elas estão disponíveis, porque poderia haver escassez de comida no futuro.

Nossos genes não mudaram profundamente em um século, mas o mundo em que vivemos tornou mais fácil ganhar peso com o surgimento de alimentos baratos e ricos em calorias, tamanhos de porções crescentes e cidades onde é mais fácil dirigir do que caminhar ou andar de bicicleta.

Essas mudanças se aceleraram na segunda metade do século 20, dando origem ao que os cientistas chamam de “ambiente obesogênico” —ou seja, que incentiva as pessoas a comer de forma pouco saudável e não fazer exercícios suficientes.

No Reino Unido, um em cada quatro adultos é obeso.

No Brasil, um estudo de 2022 indica que o percentual de pessoas obesas ou com sobrepeso no Brasil deverá chegar a 88,1% em 2060, resultando em um impacto econômico de US$ 218,2 bilhões.

O Wegovy pode ajudar as pessoas a perder cerca de 15% do peso corporal inicial antes que os benefícios se estabilizem.

Apesar de ser constantemente rotulado como um “remédio para emagrecer”, isso pode levar alguém que pesa 120 kg a pesar 107 kg. Isso melhora a saúde em várias outras áreas, como risco de ataque cardíaco, apneia do sono e diabetes do tipo 2.

Mas Margaret McCartney, médica geral em Glasgow, adverte: “Se continuarmos colocando as pessoas em um ambiente obesogênico, só aumentaremos a necessidade desses medicamentos para sempre”.

No momento, o sistema de saúde do Reino Unido está planejando prescrever os medicamentos apenas por dois anos devido ao custo. As pesquisas mostram que quando se para de usar o remédio, o apetite volta e o peso sobe novamente.

“Minha grande preocupação é que estamos olhando para a solução errada para impedir que as pessoas fiquem acima do peso”, diz McCartney.

Sabemos que o ambiente obesogênico começa cedo. Uma em cada cinco crianças já está acima do peso ou obesa quando começa a escola.

E sabemos que isso atinge comunidades mais pobres (nas quais 36% dos adultos na Inglaterra são obesos) mais forte do que as mais ricas (onde o número é de 20%), em parte devido à falta de disponibilidade de alimentos baratos e saudáveis.

Mas existe uma tensão no debate sobre melhorar a saúde pública e a importância das liberdades civis. Você pode dirigir, mas precisa usar cinto de segurança; pode fumar, mas com impostos mais altos e restrições de idade e local.

No caso da obesidade, há mais coisas a se considerar.

Você acha que também deveríamos enfrentar o ambiente obesogênico ou apenas tratar as pessoas quando a obesidade começa a prejudicar sua saúde? O governo deveria ser mais duro com a indústria alimentícia, decidindo sobre o que podemos comprar e comer?

Deveríamos ser encorajados a seguir o exemplo do Japão (um país rico com baixa obesidade) e ter refeições menores baseadas em arroz, vegetais e peixe? Ou deveríamos estabelecer limites de calorias em comidas congeladas e barras de chocolate?

E quanto aos impostos sobre açúcar ou junk food (comidas não-saudáveis, como hambúrgueres e pizza)? E quanto a proibições sobre onde alimentos muito calóricos podem ser vendidos ou anunciados?

Yeo diz que se quisermos ver mudanças, então “teremos que aceitar restrições em algum ponto, teremos que perder algumas liberdades”. Mas ele não acha que a sociedade debateu isso ainda, a ponto de poder decidir.

Na Inglaterra, houve planos oficiais de governo contra a obesidade —14 deles ao longo de três décadas. Mas os resultados foram tímidos.

Os planos incluíram campanhas que estimulam o consumo de frutas e vegetais cinco vezes por dia, a rotulagem de alimentos para destacar o conteúdo calórico, restrições à publicidade de alimentos não-saudáveis para crianças e acordos voluntários com fabricantes para mudar alguns alimentos.

Embora haja sinais preliminares de que a obesidade infantil na Inglaterra pode estar começando a cair, nenhuma dessas medidas alterou suficientemente a dieta da população para virar o jogo contra a obesidade.

Há uma corrente de pensamento que diz que os remédios para perda de peso podem até ser o evento que vai despertar a mudança nas dietas.

“As empresas alimentícias lucram, é isso que elas querem. O único raio de esperança que eu tenho é que os medicamentos para perda de peso ajudem muitas pessoas a resistir a comprar fast foods (lanches não-saudáveis). Será que isso pode ser o começo da mudança no ambiente alimentar?” pergunta o professor Naveed Sattar, da universidade de Glasgow.

À medida que os medicamentos para perda de peso se tornam muito mais disponíveis, decidir como eles serão usados e como isso se encaixa em nossa abordagem mais ampla à obesidade precisará ser abordado em breve.

No momento, estamos apenas começando. Há uma oferta limitada desses medicamentos e, devido ao seu alto custo, eles estão disponíveis no sistema público de saúde britânico para relativamente poucas pessoas e por um curto período.

Espera-se que isso mude drasticamente na próxima década. Novos medicamentos, como a tirzepatida, estão vindo, e as empresas farmacêuticas perderão suas proteções legais (as patentes), o que significa que outras empresas poderão fabricar suas próprias versões mais baratas.

Quando começaram a ser comercializados, os medicamentos para baixar a pressão arterial ou as estatinas para reduzir o colesterol também eram caros e dados a poucos. Hoje, cerca de oito milhões de pessoas no Reino Unido estão tomando esses medicamentos.

Stephen O’Rahilly, diretor da Unidade de Doenças Metabólicas do Conselho de Pesquisas Médicas (MRC, na sigla em inglês), diz que a pressão arterial foi controlada com o uso de uma combinação de medicamentos e mudanças sociais: “Fizemos exames de pressão arterial, aconselhamos sobre usar menos sódio [sal] nos alimentos e desenvolvemos medicamentos para pressão arterial baratos, seguros e eficazes.”

Segundo ele, é isso que precisa acontecer com a obesidade.

Ainda não está claro quantos de nós acabarão tomando medicamentos para perda de peso. Serão apenas os que são muito obesos e correm risco médico? Ou se tornará preventivo para impedir que as pessoas se tornem obesas?

Por quanto tempo as pessoas devem tomar medicamentos para perda de peso? Deve ser para o resto da vida? Quão amplamente eles devem ser usados em crianças? Faz diferença se as pessoas que usam os medicamentos ainda estiverem comendo junk food, mas em porções menores?

Com que rapidez os medicamentos para perda de peso devem ser usados quando ainda não sabemos os efeitos colaterais do uso a longo prazo? É correto que pessoas saudáveis tomem esses remédios apenas por motivos estéticos? A ausência deles na rede pública pode aumentar a disparidade de obesidade e saúde entre ricos e pobres?

São muitas perguntas —mas, até agora, há poucas respostas claras.

“Não sei onde isso vai parar —estamos em uma viagem incerta”, diz Naveed Sattar.

Reportagem publicada originalmente aqui.



Leia Mais: Folha

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Rede de trabalho franco-brasileira atua em propriedades amazônicas — Universidade Federal do Acre

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Rede de trabalho franco-brasileira atua em propriedades amazônicas — Universidade Federal do Acre

A Ufac integra uma rede de trabalho técnico-científico formada por pesquisadores do Brasil e da França, desenvolvendo trabalhos nas áreas de pecuária sustentável e produção integrada. Também compõem a rede profissionais das Universidades Federais do Paraná e de Viçosa, além do Instituto Agrícola de Dijon (França).

A rede foi construída a partir do projeto “Agropecuária Tropical e Subtropical e Desenvolvimento Regional: Cooperação entre Brasil e França”, aprovado em chamada nacional da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e do Comitê Francês de Avaliação da Cooperação Universitária com o Brasil. Esse programa iniciou na década de 1970 e, pela primeira vez, uma instituição do Acre teve um projeto aprovado.

Atualmente, alunas do doutorado em Agronomia da Ufac, Natalia Torres e Niqueli Sales, realizam parte do curso no Instituto Agrícola de Dijon, na modalidade doutorado sanduíche. Elas fazem estudos sobre sistemas que integram produção de bovinos, agricultura e a ecofisiologia de espécies forrageiras arbustivas/arbóreas.

Além disso, a equipe do projeto realiza entrevistas com criadores de gado (leite e corte), a fim de produzir informações para proposição de melhorias e multiplicação das experiências de sucesso. Há, ainda, um projeto em parceria com a equipe da Cooperativa Reca para fortalecer a pecuária integrada e sustentável. 

Outra ação da rede é a proposta do sistema silvipastoril de alta densidade de plantas, com objetivo de auxiliar agricultores que possuem embargos ambientais na atividade de recomposição de reservas.  No momento, a equipe discute um consórcio de plantas que atende à legislação ambiental. Da Ufac, fazem parte da rede os professores Almecina Balbino Ferreira, Vanderley Borges dos Santos, Eduardo Mitke Brandão Reis e Eduardo Pacca Luna Mattar, que trabalham nos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária e Engenharia Florestal.

 



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Professora publica livro sobre sítios naturais sagrados do povo Nukini — Universidade Federal do Acre

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Professora publica livro sobre sítios naturais sagrados do povo Nukini — Universidade Federal do Acre

A professora Renata Duarte de O. Freitas, do curso de Direito do campus Floresta da Ufac, lança o livro “Aldeia Isã Vakevu, do Povo Originário Nukini: Um Sítio Natural Sagrado no Coração do Juruá” (Lumen Juris, 240 p.). O evento ocorre neste sábado, 7, às 19h, no teatro dos Nauas, em Cruzeiro do Sul. Resultado de investigação científica, a obra integra a cosmologia indígena aos marcos regulatórios da justiça ambiental.

A pesquisa é fundamentada na trajetória de resistência do povo Nukini. O livro presta homenagem à memória de Arlete Muniz (Ynesto Kumã), matriarca, parteira e liderança espiritual que preservou os conhecimentos milenares do Povo da Onça frente aos processos de aculturação e violência histórica.

O texto destaca a continuidade desse patrimônio imaterial, transmitido de geração para geração ao seu neto, o líder espiritual Txane Pistyani Nukini (Leonardo Muniz). Atualmente, esse legado sustenta a governança espiritual no Kupixawa Huhu Inesto, onde a aplicação das medicinas da floresta e a proteção territorial dialogam com a escrita acadêmica para materializar a visão de mundo Nukini perante a sociedade global.

Renata Duarte de O. Freitas introduz no cenário jurídico eixos teóricos que propõem um novo paradigma para a conservação ambiental: sítios naturais sagrados, que são locais de identidade cultural e espiritual; direito achado na aldeia, cuja proposta é que o ordenamento jurídico reconheça que a lei também emana da sacralidade desses locais; e direitos bioculturais, que demonstram que a biodiversidade da Serra do Divisor é preservada porque está ligada ao respeito pelos sítios naturais sagrados.

Ao analisar a sobreposição de uma parte do território Nukini com o Parque Nacional da Serra do Divisor, a obra oferece uma solução científica: o reconhecimento de que áreas protegidas pelo Estado devem ser geridas em conjunto com os povos originários, respeitando seus territórios sagrados.

 



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Em caravana, ministro da Educação, Camilo Santana, visita a Ufac — Universidade Federal do Acre

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Em caravana, ministro da Educação, Camilo Santana, visita a Ufac — Universidade Federal do Acre

A Ufac recebeu, nesta quarta-feira, 25, na Reitoria, campus-sede, a visita do ministro da Educação, Camilo Santana, no âmbito da caravana Aqui Tem MEC, iniciativa do Ministério da Educação voltada ao acompanhamento de ações e investimentos nas instituições federais de ensino.

Durante a agenda, o ministro destacou que a caravana tem percorrido instituições federais em diferentes Estados para conhecer a realidade de cada campus, dialogar com gestores e a comunidade acadêmica, além de acompanhar as demandas da educação pública federal.

Ao tratar dos investimentos relacionados à Ufac, a reitora Guida Aquino destacou a obra do campus Fronteira, em Brasileia, que conta com R$ 40 milhões em recursos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A estrutura terá seis cursos, com salas de aula, laboratórios, restaurante universitário e biblioteca.

Abordando a visita, Guida ressaltou a importância da universidade para o Estado e a missão da educação pública. “A Ufac é a única universidade pública federal de ensino superior do Acre e, por isso, tem papel estratégico na formação e no desenvolvimento regional. A educação é que transforma vidas, transforma o país.”

Outro tema tratado durante a agenda foi a implantação do Hospital Universitário no Acre. Camilo Santana afirmou que o Estado é o único que ainda não conta com essa estrutura e informou que o governo federal dispõe de R$ 50 milhões, por meio do Novo PAC, para viabilizar adequações e a implantação da unidade.

Ele explicou que a prioridade continua sendo a concretização de uma parceria para doação de um hospital, mas afirmou que, se isso não ocorrer, o MEC buscará outra alternativa para garantir a instalação do serviço no Estado. “O importante é que nenhum Estado desse país deixe de ter um hospital universitário”, enfatizou.

Guida reforçou a importância do projeto e disse que o Hospital Universitário já poderia ser celebrado no Acre. Ao defender a iniciativa, contou que a unidade contribuiria para qualificar o atendimento, reduzir filas de tratamento fora de domicílio e atender melhor pacientes do interior, inclusive em casos ligados às doenças tropicais da Amazônia. Em tom crítico, declarou: “O cavalo selado, ele só passa uma vez”, ao se referir à oportunidade de implantação do hospital.

Após coletiva de imprensa, o ministro participou de reunião fechada com pró-reitores, gestores, políticos e parlamentares da bancada federal acreana, entre eles o senador Sérgio Petecão (PSD) e as deputadas Meire Serafim (União) e Socorro Neri (PP).

A comitiva do MEC foi formada pela secretária de Educação Básica, Kátia Schweickardt; pelo secretário de Educação Profissional e Tecnológica, Marcelo Bregagnoli; pelo secretário de Educação Superior, Marcus Vinicius David; e pelo presidente da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, Arthur Chioro.

Laboratório de Paleontologia

Depois de participar de reunião, Camilo Santana visitou o Laboratório de Paleontologia da Ufac. O professor Edson Guilherme, coordenador do espaço, apresentou o acervo científico ao ministro e destacou a importância da estrutura para o avanço das pesquisas no Acre. O laboratório foi reformulado, ampliado e recentemente reinaugurado.

Aberto para visitação de segunda a sexta-feira, em horário de expediente, exceto feriados, o local reúne fósseis originais e réplicas de animais que viveram no período do Mioceno, quando o oeste amazônico era dominado por grandes sistemas de rios e lagos. A entrada é gratuita e a visitação é aberta a estudantes e à comunidade em geral.

 



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