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À mulher do artista, as batatas gratinadas – 16/03/2025 – Giovana Madalosso

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À mulher do artista, as batatas gratinadas - 16/03/2025 - Giovana Madalosso

Nessa semana postei um vídeo que, apesar de já conhecido por muitos, gerou debate. Nele, Gabriel García Márquez conta sobre o perrengue financeiro que enfrentou para escrever “Cem Anos de Solidão”.

Ele não estava sozinho. Tinha mulher e filhos. Venderam o carro para pagar as contas. Não foi o bastante: logo estavam devendo novamente aluguel. O proprietário da casa telefonou. A mulher de Gabriel, Mercedes, deixou-o na linha e sussurrou para o marido: falta quanto pra você acabar esse livro? E ele: seis meses. Mercedes negociou mais seis meses de inadimplência com o proprietário, prometendo que pagariam em seguida.

É o próprio García Márquez quem conta essa história, acrescentando que depois ainda precisaram penhorar o aquecedor, o secador de cabelos e a batedeira. O esforço valeu a pena, quem leu “Cem Anos de Solidão” sabe disso.

O que gerou discussão foi o comportamento de Mercedes. Neste mesmo vídeo, García Márquez conta que durante 18 meses não saiu do quarto em que escrevia. Além do aperto financeiro, foi a mulher quem cozinhou, lavou, cuidou dos filhos e provavelmente bateu na porta da vizinha para pedir a batedeira emprestada.

Mercedes estava errada de se sacrificar dessa maneira, como alguns sugeriram? Acho que não, inclusive admiro essa mulher que, além de ser companheira, soube investir para depois (espero) ganhar em direitos autorais.

A questão, para mim, é a reciprocidade. García Márquez teria feito o mesmo por sua mulher, numa situação inversa? Duvido, não por questionar o caráter do autor, sobre o qual nem tenho conhecimento, mas por uma óbvia e previsível questão cultural.

Sabemos de inúmeras mulheres que se sacrificaram por seus maridos artistas e de pouquíssimos que fizeram o mesmo por suas cônjuges. Muitas vezes, essas mulheres também tinham talento para a arte e deixaram de pilotar canetas ou pincéis —ou fizeram isso por menos horas– para que eles pudessem fazer.

Teria Jorge Amado feito por Zélia Gattai o mesmo que ela fez por ele? Teria Diego Rivera aceitado o lugar de coadjuvante, como aceitou ao seu lado, por toda a vida, Frida Kahlo?

Não posso afirmar nada pelos outros, mas posso afirmar por mim. Quando eu tinha 30 e poucos anos, vivia com um músico. Tínhamos sonhos parecidos: eu queria lançar um livro, ele queria lançar um álbum. Combinamos que ajudaríamos um ao outro.

Eu fui a primeira a me empenhar. Durante um bom tempo, encarei um emprego que não queria para pagar as contas da casa, acumulei as tarefas domésticas, dei o dinheiro que tinha na poupança para a mixagem do tal álbum, até que foi lançado.

Enfim chegou a minha vez! Quando fui passar o manche da casa e os boletos para ele, recebi um “as coisas mudaram e agora não vai dar pra te ajudar”.

Como a maioria das outras mulheres, acabei fazendo por conta: escrevendo publicidade com uma mão e literatura com a outra, fritando ovos com a direita e cortando frases com a esquerda, até finalmente lançar meu primeiro livro.

Não sei se teria logrado nessa tarefa se tivesse continuado com ele, se tivesse vários filhos. Sempre penso nos talentos que morreram soterrados debaixo de um avental de cozinha. Em uma sociedade menos desigual, estaríamos lendo outros “Cem Anos de Solidão”?


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Herbário do PZ recebe acervo de algas da Dr.ª Rosélia Marques Lopes — Universidade Federal do Acre

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Herbário do PZ recebe acervo de algas da Dr.ª Rosélia Marques Lopes — Universidade Federal do Acre

O Herbário do Parque Zoobotânico (PZ) da Ufac realizou cerimônia para formalizar o recebimento da coleção ficológica da Dr.ª Rosélia Marques Lopes, que consiste em 701 lotes de amostras de algas preservadas em meio líquido. O acervo é fruto de um trabalho de coleta iniciado em 1981, cobrindo ecossistemas de águas paradas (lênticos) e correntes (lóticos) da região. O evento ocorreu em 9 de abril, no PZ, campus-sede.

A doação da coleção, que representa um mapeamento pioneiro da flora aquática do Acre, foi um acordo entre a ex-curadora do Herbário, professora Almecina Balbino, e Rosélia, visando deixar o legado de estudos da biodiversidade em solo acreano. Os dados da coleção estão sendo informatizados e em breve estarão disponíveis para consulta na plataforma do Jardim Botânico, sistema Jabot e na Rede Nacional de Herbários.

Professora titular aposentada da Ufac, Rosélia se tornou referência no Estado em limnologia e taxonomia de fitoplâncton. Ela possui graduação pela Ufac em 1980, mestrado e doutorado pela Universidade de São Paulo.

Também estiveram presentes na solenidade a curadora do Herbário, Júlia Gomes da Silva; o diretor do PZ, Harley Araújo da Silva; o diretor do CCBN, José Ribamar Lima de Souza; e o ex-curador Evandro José Linhares Ferreira.

 



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VÍDEO: Veja o que disse Ministra em julgamento do ex-governador Gladson Cameli

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No julgamento desta quarta-feira, dia 15/04/2026, a Corte Especial do STJ, por unanimidade, determinou o imediato desentranhamento dos Relatórios de Inteligência Financeira de n°s 50157.2.8600.10853, 50285.2.8600.10853 e 50613.2.8600.10853, a fim de que fosse viabilizada a continuidade do julgamento de mérito da ação penal. A própria Ministra Relatora Nancy Andrighi foi quem suscitou referida questão de ordem, visando regularizar e atualizar o processo. 

O jornalista Luis Carlos Moreira Jorge descreveu o contexto com as seguintes palavras:

SITUAÇÃO REAL
Para situar o que está havendo no STJ: o STF não determinou nulidade, suspensão de julgamento e retirada de pauta do processo do governador Gladson. O STF apenas pediu para desentranhar provas que foram consideradas ilegais pela segunda turma da Corte maior. E que não foram usadas nem na denúncia da PGR. O Gladson não foi julgado ontem em razão da extensão da pauta do STJ. O julgamento acontecerá no dia 6 de maio na Corte Especial do STJ, onde pode ser absolvido ou condenado. Este é o quadro real.

A posição descrita acima reflete corretamente o quadro jurídico do momento.

Veja o vídeo:

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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

A Ufac participou do lançamento do projeto Tecendo Teias na Aprendizagem, realizado na reserva extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira (AC). O evento ocorreu em 28 de março e reuniu representantes do poder público, comunidade acadêmica e moradores da reserva.

Com uma área de aproximadamente 750 mil hectares e cerca de 500 famílias, a Resex é território de preservação ambiental e de produção de saberes tradicionais. O projeto visa fortalecer a educação e promover a troca de conhecimentos entre universidade e comunidade.

O presidente da reserva, Nenzinho, destacou que a iniciativa contribui para valorizar a educação não apenas no ensino formal, mas também na qualidade da aprendizagem construída a partir das vivências no território. Segundo ele, a proposta reforça o papel da universidade na escuta e no reconhecimento dos saberes locais.

O coordenador do projeto, Rodrigo Perea, sintetizou a relação entre universidade e comunidade. “A floresta ensina, a comunidade ensina, os professores aprendem e a Ufac aprende junto.” 

Também estiveram presentes no lançamento os professores da Ufac, Alexsande Franco, Anderson Mesquita e Tânia Mara; o senador Sérgio Petecão (PSD-AC); o prefeito de Sena Madureira, Gerlen Diniz (PP); e o agente do ICMBio, Aécio Santos.
(Fhagner Silva, estagiário Ascom/Ufac)



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