POLÍTICA
A volta da polarização | VEJA
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11 meses atrásem
Thomas Traumann
A cada aparição pública, o governador Tarcísio de Freitas ressalta que não é candidato a presidente no ano que vem. Mas, nas últimas semanas, ele tem agido como um candidato, dado entrevistas como um candidato e ocupado espaço político como se quisesse ser o herdeiro do bolsonarismo.
Tarcísio tem publicamente ressaltado sua fidelidade a Jair Bolsonaro, ficando ao seu lado nos dias em que ele virou réu por tramar um golpe de Estado, se prontificando a organizar uma manifestação a favor do ex-presidente e apoiando a tese da anistia aos vândalos do 8 de Janeiro — ações que afastam a imagem de Tarcísio como um ‘bolsonarista light’. Neste mês, ele ainda aumentou o volume das críticas ao governo Lula e reforçou a sua imagem pró-mercado. Simultaneamente, a discussão sobre quem seria o candidato a governador caso Tarcísio dispute a presidência se tornou o único tema da política paulista.
A transformação do governador começou na sua participação na fracassada manifestação bolsonarista no Rio de Janeiro, no dia 16. Falando para 26 mil pessoas, segundo o cálculo do PoderData, Tarcísio foi mais radical do que de costume. No discurso, ele disse:
“Qual a razão de afastar Jair Bolsonaro das urnas? É medo de perder a eleição, e eles sabem que vão perder?”.
“Ninguém aguenta mais arroz caro, gasolina cara, o ovo caro. Prometeram picanha e não tem nem ovo. E, se está tudo caro, volta Bolsonaro”.
“O que eles (os vândalos do 8 de Janeiro) fizeram? Usaram batom? Num país onde todo dia vemos traficante na rua, os caras que assaltaram a Petrobras voltaram à cena política. Está certo isso?”
“É correto que a gente garanta anistia para daqueles inocentes que nada fizeram. E nós vamos lutar, nós vamos garantir isso. Vamos garantir que esse projeto seja pautado, seja aprovado e quero ver quem vai ter coragem de se opor (no Congresso). E pode ter certeza que nós vamos conseguir os votos”.
Ato contínuo, Tarcísio se encarregou de organizar uma nova manifestação em São Paulo, marcada para 6 de abril, que certamente será maior que a edição carioca.
Na segunda-feira 24, véspera do início do julgamento do STF para tornar Bolsonaro réu, o governador renunciou à entrevista no podcast Inteligência Ltda para dividir o palco com Bolsonaro. Nas poucas vezes que Bolsonaro o deixou falar, jurou fidelidade ao ex-presidente:
“Bolsonaro é o cara que me abriu a porta”.
“As pessoas interpretam errado a (minha) proximidade. Meu apoio ao presidente Bolsonaro neste momento é independente de qualquer interesse (de ser escolhido como herdeiro do bolsonarismo). Eles (o governo) sabem que o Bolsonaro é um ator muito forte. É um cara que se for para a eleição hoje vai ganhar a eleição. Não tenho dúvida disso. Hoje, muita gente que ‘fez o L’ está desencantada, está decepcionada. Todo mundo está vendo o rumo que o país está tomando. A gente vai estar junto do Bolsonaro até debaixo d’água”.
“Meu papel é ajudar o presidente até o fim e ajudar o grupo aqui em São Paulo. Não tem passagem de bastão coisa nenhuma. Meu candidato a presidente da República é Jair Bolsonaro e eu sou candidato à reeleição em São Paulo
No mesmo programa ele garantiu que o seu partido, o Republicanos, vai pressionar para votar a anistia a favor dos vândalos do 8 de Janeiro. Na semana passada, o presidente do partido havia dito que o tema não era prioritário.
Depois de Bolsonaro se tornar réu, na quarta-feira 26, Tarcísio foi o primeiro político a se pronunciar:
“Jair Bolsonaro é a principal liderança política do Brasil, e assim seguirá. Sabemos que esse não é o primeiro e não será o último desafio a ser enfrentado, mas sabemos também que a verdade prevalecerá e sua inocência será comprovada”.
No dia seguinte, o governador foi mais longe e se colocou como testemunha das convicções democráticas do ex-presidente:
“Eu convivi de forma muito próxima ao presidente no período em que eu fui ministro. Nunca vi ele insinuar absolutamente nada (de golpe de Estado). Tenho plena confiança naquilo que ele fez, naquilo que ele é”.
Na sexta-feira 28, em evento para empresários paulistas, Tarcísio fez brilhar os olhos da plateia com um discurso mais liberal que o de Paulo Guedes:
“Se você me perguntasse se seria possível cortar 5% do PIB de despesa do Estado em um ano, eu diria que é impossível, e o Javier Millei fez. Consequência disso: a inflação está caindo e o fluxo de capital aumentou. Ele ainda tem um problema com o câmbio, mas está indo bem, começando a tirar a cabeça do buraco e a querer crescer. A inflação foi lá para baixo”.
“Lula toma decisões que são erradas e que vão custar caro para o Brasil. Abrir mão de uma base relevante de pagantes (com a isenção do imposto para quem ganha menos de R$ 5 mil) e apostar em tributar o capital e o estoque de capital (a taxação dos dividendos), ele destrói a poupança e impede investimentos. E é aí o contrato com fracasso. O governo está tomando decisões erradas e vão fazer com que a gente flerte lá na frente com superinflação e com superendividamento”.
O círculo político de Tarcísio acompanhou a mudança de tom. Analista político conhecido pela cautela, o secretário de governo e presidente do PSD, Gilberto Kassab, tem desde janeiro aumentado suas críticas ao governo Lula e agora se coloca como opção a governador caso Tarcísio dispute a presidência.
No dia 21, em entrevista a VEJA, Kassab disse:
“Sou um aliado disciplinado. Se convocado para ser candidato (a governador de São Paulo), serei”. Na segunda-feira 24, em entrevista à CNN, Kassab repetiu: “O candidato em São Paulo é o Tarcísio, e o meu candidato será o dele. Caso ele decida disputar a Presidência e avalie que o meu nome é o mais adequado, eu aceito a missão”.
Na mesma segunda, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, foi intencionalmente vago ao ser perguntado sobre a possibilidade de renunciar à prefeitura e ser candidato a governador:
“A minha intenção é ficar quatro anos como prefeito. Mas coisas acabam mudando. Quando eu ia imaginar que, como vice de Bruno Covas, eu ia perder o Bruno em 16 de maio [de 2021] e viraria prefeito? As coisas vão acontecendo”
Na sexta-feira, o Estadão publicou entrevista com o vice-governador de São Paulo, Felicio Ramuth, aliado de Kassab, que reconheceu:
“A entrada do Tarcísio (na disputa presidencial) é um cenário que cada dia mais se consolida. O cenário político acaba nos empurrando para caminhos que nem esperávamos ou para os quais não estávamos nos preparando. Isso pode acontecer”.
Como esta eventual candidatura depende de uma única pessoa, o imprevisível Jair Bolsonaro, é possível que ao final Tarcísio de fato não vire candidato. Mas pela primeira vez ele está mostrando que quer ser candidato.
***
O governo Lula dobrou à esquerda a partir do fim de novembro, quando bancou a isenção do imposto de renda como a principal bandeira para a reeleição. Tarcísio de Freitas está embicando firme para a direita nas últimas semanas ao se colar a um Jair Bolsonaro prestes a ser o primeiro ex-presidente condenado por tramar um golpe de Estado.
As duas estratégias reforçam o que eu e o cientista político Felipe Nunes descrevemos no livro Biografia do Abismo: a polarização política brasileira ultrapassou a linha da divergência política e transbordou para o cotidiano. As opiniões políticas passaram por um processo de engessamento e se transformaram em parte da identidade de cada eleitor, num radicalismo que cientistas políticos americanos batizaram de ‘calcificação’
Assim como nos EUA, a disputa política no Brasil calcificou o mecanismo de escolha, em que os interesses perderam força para as paixões. Mais do que uma escolha racional entre dois projetos diferentes de país, Lula e Bolsonaro representam duas visões opostas de mundo. As bolhas lulistas e bolsonaristas concentram mais de 90% do eleitorado e neste cenário de apenas duas opções, eleitores dos dois lados vivem em Brasis paralelos:
“O fato de as bolhas terem tamanhos similares faz com que os eleitores dos dois lados tenham a certeza de serem competitivos para vencer a próxima disputa. Isso significa que não há incentivos para desertarem do grupo onde estão confortáveis e com o qual compartilham opiniões. É um processo de vida em bolha que favorece a ilusão de que ‘todo mundo’ pensa como eles e aprova suas atitudes, sejam a recusa em reconhecer o resultado da eleição, as ofensas públicas a grupos minoritários ou a intolerância a quem pensa diferente”.
Neste momento, Lula e Tarcísio pregam para convertidos. Lula precisa reengajar o eleitor desapontado com o governo, especialmente no núcleo duro da sua base, onde estão os mais pobres, os nordestinos, as mulheres, os católicos e os eleitores que se declararam pretos. Por isso, abandonar o discurso da responsabilidade fiscal para falar de isenção de imposto para quem ganha menos, taxação dos ricos, crédito para trabalhadores e preocupação com preços de alimentos faz todo o sentido eleitoral.
Como disse o ex-marqueteiro do PT João Santana em uma entrevista recente a O Globo, “Não tenho a menor dúvida que (o governo deve dar uma guinada) à esquerda. Tanto para vencer no ano que vem quanto para resgatar a biografia do Lula. Fiz a campanha do Fernando Haddad em 2012 para a prefeitura de São Paulo, acho ele uma figura extremamente cordata, mas houve uma acomodação muito grande dele com o setor financeiro e os defensores de políticas fiscalistas. O que é o Brasil de hoje? De um lado, uma esquerda moderada clientelista; de outro, uma direita selvagem e antidemocrática. O equilíbrio não é a busca por um centro amorfo, se for por aí Lula não tem condições de vencer em 2026. Isso não é papo de esquerda defasada, não. Em alguns momentos é, sim, necessário partir para alguns enfrentamentos”.
Do outro lado, Tarcísio pode arrancar aplausos na elite, mas quem tem votos é Bolsonaro. Não existe saída para a oposição que não passe pela benção do ex-presidente e está evidente que o governador de São Paulo sabe disso. Por isso, o as demonstrações de solidariedade a Bolsonaro e aos criminosos do 8 de Janeiro podem desagradar os democratas, mas sem estes pedágios Tarcísio não conseguirá viabilizar sua candidatura. O marqueteiro do governador, Pablo Nobel, expôs o seguinte a O Globo: “Mesmo que seja até 31 de março do ano que vem (data obrigatória para se desincompatibilizar caso queira ser candidato a presidente), Tarcísio vai esperar uma decisão do Bolsonaro para dar os próximos passos. Estaremos sentados até meia-noite aguardando o que ele vai dizer. Não existe ser candidato ao Planalto contra a vontade do ex-presidente”.
Somente no ano que vem, quando suas bolhas estiverem mobilizadas e engajadas na eleição, é que Lula e Tarcísio começarão a olhar para os 10% de eleitores fora de suas órbitas.
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“Estou muito envergonhado! Isto é uma indignidade inexplicável!” (Ciro Gomes, ex-ministro da Fazenda, usando as redes sociais para reclamar da troca de Carlos Lupi por Wolney Queiroz, seu desafeto no PDT, no comando do Ministério da Previdência Social)
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A articulação para mudar quem define o teto de jur…
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10 meses atrásem
5 de maio de 2025Nicholas Shores
O Ministério da Fazenda e os principais bancos do país trabalham em uma articulação para transferir a definição do teto de juros das linhas de consignado para o Conselho Monetário Nacional (CMN).
A ideia é que o poder de decisão sobre o custo desse tipo de crédito fique com um órgão vocacionado para a análise da conjuntura econômica.
Compõem o CMN os titulares dos ministérios da Fazenda e do Planejamento e Orçamento e da presidência do Banco Central – que, atualmente, são Fernando Haddad, Simone Tebet e Gabriel Galípolo.
A oportunidade enxergada pelos defensores da mudança é a MP 1.292 de 2025, do chamado consignado CLT. O Congresso deve instalar a comissão mista que vai analisar a proposta na próxima quarta-feira.
Uma possibilidade seria aprovar uma emenda ao texto para transferir a função ao CMN.
Hoje, o poder de definir o teto de juros das diferentes linhas de empréstimo consignado está espalhado por alguns ministérios.
Cabe ao Conselho Nacional da Previdência Social (CNPS), presidido pelo ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, fixar o juro máximo cobrado no consignado para pensionistas e aposentados do INSS.
A ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, é quem decide o teto para os empréstimos consignados contraídos por servidores públicos federais.
Na modalidade do consignado para beneficiários do BPC-Loas, a decisão cabe ao ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias.
Já no consignado de adiantamento do saque-aniversário do FGTS, é o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que tem a palavra final sobre o juro máximo.
Atualmente, o teto de juros no consignado para aposentados do INSS é de 1,85% ao mês. No consignado de servidores públicos federais, o limite está fixado em 1,80% ao mês.
Segundo os defensores da transferência da decisão para o CMN, o teto “achatado” de juros faz com que, a partir de uma modelagem de risco de crédito, os bancos priorizem conceder empréstimos nessas linhas para quem ganha mais e tem menos idade – restringindo o acesso a crédito para uma parcela considerável do público-alvo desses consignados.
Ainda de acordo com essa lógica, com os contratos de juros futuros de dois anos beirando os 15% e a regra do Banco Central que proíbe que qualquer empréstimo consignado tenha rentabilidade negativa, a tendência é que o universo de tomadores elegíveis para os quais os bancos estejam dispostos a emprestar fique cada vez menor.


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