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As bibliotecas de Gaza ressurgirão das cinzas | Conflito Israel-Palestina

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Eu tinha cinco anos quando entrei pela primeira vez na Biblioteca Maghazi. Meus pais tinham acabado de me matricular no jardim de infância próximo, especificamente porque ele mandava seus alunos à biblioteca para visitas regulares. Eles acreditavam no poder transformador dos livros e queriam que eu tivesse acesso a um grande acervo o mais cedo possível.

A Biblioteca Maghazi não era apenas um edifício; era um portal para um mundo sem fronteiras. Lembro-me de ter sentido uma sensação avassaladora de admiração ao cruzar a porta de madeira. Era como se eu tivesse entrado em um reino diferente, onde cada canto sussurrava segredos e prometia aventuras.

Embora de tamanho modesto, a biblioteca parecia infinita aos meus olhos jovens. As paredes eram forradas com prateleiras de madeira escura, cheias de livros de todos os formatos e tamanhos. No centro da sala havia um aconchegante sofá amarelo e verde, rodeado por um tapete simples onde nós, as crianças, nos reuníamos.

Ainda me lembro vividamente de nossa professora nos pedindo para sentarmos ao seu redor no tapete e abrirmos um livro ilustrado. Fiquei encantado com suas ilustrações e letras, embora ainda não soubesse ler.

As visitas à Biblioteca Maghazi incutiram em mim o amor pelos livros que influenciaram profundamente a minha vida. Os livros tornaram-se mais do que uma fonte de entretenimento ou aprendizagem; eles alimentaram minha alma e mente, moldando minha identidade e personalidade.

Este amor transformou-se em dor à medida que bibliotecas em toda a Faixa de Gaza foram destruídas, uma após a outra, ao longo dos últimos 400 dias. Segundo as Nações Unidas, 13 bibliotecas públicas foram danificadas ou destruídas em Gaza. Nenhuma instituição conseguiu estimar a destruição das outras bibliotecas – aquelas que fazem parte de centros culturais ou instituições educativas ou são entidades privadas – que também foram destruídas.

Uma foto da Biblioteca Pública Municipal da Cidade de Gaza após ser bombardeada em novembro de 2023 (Anadolu)

Entre elas está a biblioteca da Universidade Al-Aqsa – uma das maiores da Faixa de Gaza. Vendo o imagens de livros queimando na biblioteca foi de partir o coração. Parecia que o fogo queimava meu próprio coração. A biblioteca da minha própria universidade, a Universidade Islâmica de Gaza, onde passei inúmeras horas lendo e estudando, também não existe mais.

O Biblioteca Edward Said – a primeira biblioteca de língua inglesa em Gaza, criada no rescaldo da guerra israelita em Gaza em 2014, que também destruiu bibliotecas – também desapareceu. Essa biblioteca foi criada por particulares, que doaram seus próprios livros e trabalhado contra todas as probabilidades para importar novos, já que Israel frequentemente bloqueava as entregas formais de livros para a Faixa. Os seus esforços reflectem o amor palestino pelos livros e o desejo de partilhar conhecimento e educar as comunidades.

Os ataques às bibliotecas de Gaza visam não apenas os edifícios em si, mas a própria essência daquilo que Gaza representa. Fazem parte do esforço para apagar a nossa história e impedir que as gerações futuras sejam educadas e conscientes da sua própria identidade e direitos. A dizimação das bibliotecas de Gaza também visa destruir o forte espírito de aprendizagem entre os palestinianos.

O amor pela educação e pelo conhecimento está profundamente enraizado na cultura palestiniana. A leitura e a aprendizagem são valorizadas ao longo das gerações, não apenas como meios de adquirir sabedoria, mas como símbolos de resiliência e ligação à história.

Os livros sempre foram vistos como objetos de alto valor. Embora o custo e as restrições de Israel limitassem muitas vezes o acesso aos livros, o respeito por eles era universal, ultrapassando as fronteiras socioeconómicas. Mesmo as famílias com recursos limitados priorizaram a educação e a contação de histórias, transmitindo aos seus filhos um profundo apreço pela literatura.

Mais de 400 dias de privação severa, fome e sofrimento conseguiram matar parte deste respeito pelos livros.

Dói-me dizer que os livros são agora utilizados por muitos palestinianos como combustível para fogueiras para cozinhar ou para se manterem aquecidos, dado que a madeira e o gás se tornaram proibitivamente caros. Esta é a nossa triste realidade: a sobrevivência custa o património cultural e intelectual.

Mas nem toda esperança está perdida. Ainda há esforços para preservar e salvaguardar o pouco que resta do património cultural de Gaza.

A Biblioteca Maghazi – o paraíso dos livros da minha infância – ainda existe. O edifício permanece intacto e com esforços locais, seus livros foram preservados.

Uma foto de mulheres e homens jovens sentados em um sofá em uma biblioteca
Uma foto do autor com colegas durante uma recente visita à biblioteca Maghazi no campo de refugiados Maghazi, Gaza (Cortesia de Shahd Alnaami)

Recentemente tive a oportunidade de visitá-lo. Foi uma experiência emocionalmente avassaladora, pois eu não a visitava há muitos anos. Quando entrei na biblioteca, senti como se estivesse voltando à minha infância. Imaginei o “pequeno Shahd” correndo entre as prateleiras, cheio de curiosidade e vontade de descobrir tudo.

Quase pude ouvir os ecos das risadas dos meus colegas do jardim de infância e sentir o calor dos momentos que passamos juntos ali. A memória da biblioteca não está apenas nas suas paredes, mas em todos os que a visitaram, em cada mão que folheou um livro e em cada olhar que mergulhou nas palavras de uma história. A Biblioteca Maghazi, para mim, não é apenas uma biblioteca; faz parte da minha identidade, daquela menina que aprendeu que a imaginação pode ser um refúgio e que a leitura pode ser uma resistência.

A ocupação tem como alvo as nossas mentes e os nossos corpos, mas não percebe que as ideias não podem morrer. O valor dos livros e das bibliotecas, o conhecimento que transportam e as identidades que ajudam a moldar são indestrutíveis. Por mais que tentem apagar a nossa história, não conseguem silenciar as ideias, a cultura e a verdade que vivem dentro de nós.

No meio da devastação, tenho esperança de que, quando o genocídio terminar, as bibliotecas de Gaza renasçam das cinzas. Estes santuários de conhecimento e cultura podem ser reconstruídos e voltar a funcionar como faróis de resiliência.

As opiniões expressas neste artigo são do próprio autor e não refletem necessariamente a posição editorial da Al Jazeera.



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II Semana Acadêmica de Sistemas de Informação — Universidade Federal do Acre

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Estão abertas as inscrições para o evento que vai reunir estudantes e profissionais para conectar ideias, debater o futuro da computação e fortalecer nossa rede acadêmica.

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Programa insere novos servidores no exercício de suas funções — Universidade Federal do Acre

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Programa insere novos servidores no exercício de suas funções — Universidade Federal do Acre

A Diretoria de Desempenho e Desenvolvimento, da Pró-Reitoria de Desenvolvimento e Gestão de Pessoas, realizou a abertura do programa Integra Ufac, voltado aos novos servidores técnico-administrativos. Durante o evento, foi feita a apresentação das pró-reitorias, com explanações sobre as atribuições e o funcionamento de cada setor da gestão universitária. O lançamento ocorreu nessa quarta-feira, 11, na sala de reuniões da Pró-Reitoria de Graduação, campus-sede. 

A finalidade do programa é integrar e preparar os novos servidores técnico-administrativos para o exercício de suas funções, reforçando sua atuação na estrutura organizacional da universidade. A iniciativa está alinhada à portaria n.º 475, do Ministério da Educação, que determina a realização de formação introdutória para os ingressantes nas instituições federais de ensino.

“Receber novos servidores é um dos momentos mais importantes de estar à frente da Ufac”, disse a reitora Guida Aquino. “Esse programa é fundamental para apresentar como a universidade funciona e qual o papel de cada setor.”

A pró-reitora de Desenvolvimento e Gestão de Pessoas, Filomena Maria Oliveira da Cruz, enfatizou o compromisso coletivo com o fortalecimento institucional. “O sucesso individual de cada servidor reflete diretamente no sucesso da instituição.”

(Camila Barbosa, estagiária Ascom/Ufac)

 



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Atlética do Curso de Engenharia Civil — Universidade Federal do Acre

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atletica_devastadora.jpg

NOME DA ATLÉTICA

A. A. A. DE ENGENHARIA CIVIL – DEVASTADORA
Data de fundação: 04 de novembro de 2014

MEMBROS  DA GESTÃO ATUAL

Anderson Campos Lins
Presidente

Beatriz Rocha Evangelista
Vice-Presidente

Kamila Luany Araújo Caldera
Secretária

Nicolas Maia Assad Félix
Vice-Secretário

Déborah Chaves
Tesoureira

Jayane Vitória Furtado da Silva
Vice-Tesoureira

Mateus Souza dos Santos
Diretor de Patrimônio

Kawane Ferreira de Menezes
Vice-Diretora de Patrimônio

Ney Max Gomes Dantas
Diretor de Marketing

Ana Clésia Almeida Borges
Diretora de Marketing

Layana da Silva Dantas
Vice-Diretora de Marketing

Lucas Assis de Souza
Vice-Diretor de Marketing

Sara Emily Mesquita de Oliveira
Diretora de Esportes

Davi Silva Abejdid
Vice-Diretor de Esportes

Dâmares Peres Carneiro
Estagiária da Diretoria de Esportes

Marco Antonio dos Santos Silva
Diretor de Eventos

Cauã Pontes Mendonça
Vice-Diretor de Eventos

Kaemily de Freitas Ferreira
Diretora de Cheerleaders

Cristiele Rafaella Moura Figueiredo
Vice-Diretora Chreerleaders

Bruno Hadad Melo Dinelly
Diretor de Bateria

Maria Clara Mendonça Staff
Vice-Diretora de Bateria

CONTATO

Instagram: @devastadoraufac / @cheers.devasta
Twitter: @DevastadoraUfac
E-mail: devastaufac@gmail.com

 



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