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As três cartas de Haddad

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As três cartas de Haddad

Thomas Traumann

Corre a lenda que, ao tomar posse no Ministério da Fazenda, o novo ministro encontra uma caixa sobre a mesa de jacarandá da sua sala, no 5º andar do prédio do bloco P da Esplanada dos Ministérios. Há um bilhete que diz que a caixa só deve ser aberta em momentos de crise.

Quando a crise chega, o ministro descobre três cartas dentro da caixa. A primeira diz: “culpe o antecessor”. Ato contínuo, o ministro sai dizendo que tudo está dando errado por erros e defeitos das administrações passadas. A tática do “quando cheguei já estava quebrado” sempre dá aos ministros alguns meses de paz.

Ministro há 27 meses, Fernando Haddad tem abusado desta primeira carta. Nas últimas semanas, todas as suas entrevistas são malabarismos comparativos com a herança deixada pelo seu antecessor Paulo Guedes. É um vitimismo sem fim, no qual Haddad passa a imagem de quem está mais preocupado em dizer “eu não fiz, mas os outros também não fizeram”, do que em apresentar uma agenda para os próximos 25 meses de mandato, como na sua azeda entrevista na semana passada para a GloboNews.

Haddad também já abriu a segunda carta. Ela diz: “diga que o mundo vai acabar”. Em novembro, quando Lula decidiu que só aceitaria o pacote fiscal se ele viesse com o anúncio da reforma do Imposto de Renda, Haddad e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, se reuniram com Lula e alertaram que a repercussão seria tenebrosa. De fato, o real se desvalorizou 9% em duas semanas, houve uma saída recorde de reservas e os juros futuros explodiram — tudo também influenciado pelas expectativas do início do governo Trump. Só que ao contrário da França pré-revolucionária, depois do dilúvio, veio a calmaria. A cotação do dólar está hoje abaixo do fim de novembro, o mercado precificou a reforma do Imposto de Renda e o efeito Trump por enquanto está sendo pior para os EUA do que o resto do mundo.

Para Lula, Haddad exagerou nos temores de um caos e isso tirou do ministro o papel de principal conselheiro. Depois de dois anos como o único ministro com uma agenda com começo, meio e fim, Haddad se tornou um coadjuvante de um governo cuja prioridade zero é reeleger Lula. A agenda econômica agora se confunde com a pauta da campanha, e Haddad não tem mais a última palavra:

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  • A medida de liberação do FGTS foi resultado de pressão do Ministério do Trabalho, passando por cima do Ministério da Fazenda;
  • • A decisão de zerar os impostos de importação de alguns alimentos ocorreu com voto contrário da Fazenda, com Haddad preferindo ficar em São Paulo a participar de uma decisão que considerava inodora;
  • • Mesmo a reforma do Imposto de Renda, montada por técnicos da Receita Federal, só foi lançada depois de embalada pela Secretaria de Comunicação como uma peça publicitária.

Ao enfraquecer Haddad, Lula prejudica o próprio governo. Assim como Carlos Fávaro é a ponte do governo com o agro que odeia o PT, Haddad tem a missão de ser o embaixador do governo junto ao mercado financeiro. Só que essa ponte só funciona se Haddad for um ministro forte. Na quarta-feira (19), pesquisa Genial/Quaest com executivos do mercado financeiro mostrou que 85% acham que a força do ministro diminuiu.

Haddad não é o primeiro ministro da Fazenda a ficar afastado do presidente. Como conta Fernando Henrique Cardoso nos seus diários, Pedro Malan se distanciou do Planalto quando o Brasil passou pelo racionamento de energia, em 2001; Guido Mantega não foi consultado por Dilma Rousseff na concessão do desconto de conta de luz, em 2012; Henrique Meirelles perdeu a chance de aprovar a reforma da previdência com a intervenção federal de Michel Temer no Estado do Rio de Janeiro, em 2018; e no último ano do governo Bolsonaro, Paulo Guedes foi atropelado pela avalanche de medidas populistas.

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Como é um político, Haddad sofre mais. Desprotegido pelo presidente, ele hoje é o ‘taxad’ para os mais ricos, o ‘austerecida’ para a esquerda e o “ministro que quer mexer no pix’ para os mais pobres. De sucessor natural de Lula, Haddad passou a ser só mais uma opção.

Com Lula no modo eleitoral, Haddad tem poucas alternativas. Seus temas favoritos nestes últimos dois anos (Ajuste fiscal, reformas microeconômicas e transição ecológica) deixaram de interessar o presidente. A única parte da agenda da Haddad que segue de pé é a “justiça tributária”, mas apenas porque o presidente acredita que pode lhe render votos em 2026. Ou Haddad se reinventa como o ministro da Fazenda ou abre a terceira carta. E nela estará escrito “escreva três cartas para o seu sucessor”.



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Matheus Leitão

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“Estou muito envergonhado! Isto é uma indignidade inexplicável!” (Ciro Gomes, ex-ministro da Fazenda, usando as redes sociais para reclamar da troca de Carlos Lupi por Wolney Queiroz, seu desafeto no PDT, no comando do Ministério da Previdência Social) 


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Felipe Barbosa

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A articulação para mudar quem define o teto de jur…

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A articulação para mudar quem define o teto de jur...

Nicholas Shores

O Ministério da Fazenda e os principais bancos do país trabalham em uma articulação para transferir a definição do teto de juros das linhas de consignado para o Conselho Monetário Nacional (CMN). 

A ideia é que o poder de decisão sobre o custo desse tipo de crédito fique com um órgão vocacionado para a análise da conjuntura econômica. 

Compõem o CMN os titulares dos ministérios da Fazenda e do Planejamento e Orçamento e da presidência do Banco Central – que, atualmente, são Fernando Haddad, Simone Tebet e Gabriel Galípolo.

A oportunidade enxergada pelos defensores da mudança é a MP 1.292 de 2025, do chamado consignado CLT. O Congresso deve instalar a comissão mista que vai analisar a proposta na próxima quarta-feira. 

Uma possibilidade seria aprovar uma emenda ao texto para transferir a função ao CMN.

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Hoje, o poder de definir o teto de juros das diferentes linhas de empréstimo consignado está espalhado por alguns ministérios. 

Cabe ao Conselho Nacional da Previdência Social (CNPS), presidido pelo ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, fixar o juro máximo cobrado no consignado para pensionistas e aposentados do INSS.

A ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, é quem decide o teto para os empréstimos consignados contraídos por servidores públicos federais.

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Na modalidade do consignado para beneficiários do BPC-Loas, a decisão cabe ao ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias.

Já no consignado de adiantamento do saque-aniversário do FGTS, é o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que tem a palavra final sobre o juro máximo.

Atualmente, o teto de juros no consignado para aposentados do INSS é de 1,85% ao mês. No consignado de servidores públicos federais, o limite está fixado em 1,80% ao mês.

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Segundo os defensores da transferência da decisão para o CMN, o teto “achatado” de juros faz com que, a partir de uma modelagem de risco de crédito, os bancos priorizem conceder empréstimos nessas linhas para quem ganha mais e tem menos idade – restringindo o acesso a crédito para uma parcela considerável do público-alvo desses consignados.

Ainda de acordo com essa lógica, com os contratos de juros futuros de dois anos beirando os 15% e a regra do Banco Central que proíbe que qualquer empréstimo consignado tenha rentabilidade negativa, a tendência é que o universo de tomadores elegíveis para os quais os bancos estejam dispostos a emprestar fique cada vez menor.



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