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POLÍTICA

Câmara e Senado definem seus presidentes após ampl…

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Marcela Mattos

O senador Davi Alcolumbre (União Brasil-­AP) não possui algumas características tradicionais de um líder nato. É tímido, não gosta de entrevistas, cultiva hábitos políticos provincianos, tem um estilo bonachão e convicções políticas que normalmente se amoldam às circunstâncias. É, por outro lado, dono de uma reconhecida habilidade de articulação: consegue conciliar interesses muitas vezes distintos em torno de um mesmo projeto e raramente diz não a um pedido. Essas qualidades fizeram dele o candidato preferido dos colegas para conduzir o Senado nos próximos dois anos. Aliás, segundo muitos parlamentares, esse na verdade será o terceiro mandato consecutivo do senador. Alcolumbre presidiu o Congresso de 2019 a 2021, quando foi substituído por Rodrigo Pacheco (PSD-MG), seu amigo e aliado fiel. Reza a lenda que, impedido de se reeleger, ele lançou mão de toda a sua influência e prestígio para alçar Pacheco ao cargo, o que é verdade, e continuou exercendo informalmente a presidência, o que, evidentemente, é um exagero.

RECADO - Motta e Lira: a paz termina se houver freio na liberação de verbas (Gabriela Biló/Folhapress/.)

A volta de Alcolumbre mostra que, ao contrário de outros tempos, as eleições no Congresso, marcadas para o sábado 1º, não devem reservar nenhuma surpresa. Com o apoio formal de dez partidos, do PT de Lula ao PL de Jair Bolsonaro, Alcolumbre deve vencer com uma ampla margem de votos. Na Câmara, a situação é a mesma. O atual presidente, Arthur Lira (PP-AL), conduziu pessoalmente a sucessão para empossar um substituto de sua estreita confiança. Hugo Motta (Republicanos-PB), o escolhido, tem 35 anos, é descendente de uma oligarquia do interior da Paraíba, entrou na política em 2010 e, com seu jeito afável e conciliador, construiu uma teia de amizades importantes. Junto com Lira, ele foi um ativo membro da chamada tropa de choque do então poderoso presidente da Câmara Eduardo Cunha, responsável pelo impeachment de Dilma Rousseff.

SEM CHANCES - Van Hattem: candidatura na Câmara apenas para marcar posição
SEM CHANCES – Van Hattem: candidatura na Câmara apenas para marcar posição (Pedro França/Agência Senado)

Assim como Alcolumbre, Motta transita com desenvoltura pelos diversos espectros políticos. Isso faz com que deputados do PL acreditem que ele vai dar sequência ao projeto que concede anistia aos vândalos do 8 de Janeiro, enquanto petistas afirmam ter recebido a garantia de que a proposta permanecerá na gaveta. O candidato jamais opinou sobre o assunto publicamente — e, com essa estratégia, estima que terá o apoio de mais de 400 colegas. Um de seus adversários, o deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) lançou sua candidatura prometendo o perdão aos bolsonaristas e o impeachment do presidente Lula, num movimento feito mais para marcar posição, visto que o resultado da disputa já é tido como definido.

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As eleições para o comando da Câmara e do Senado já protagonizaram momentos marcantes da crônica política. Numa disputa acirrada, a sessão que consagrou o então azarão Davi Alcolumbre, em 2019, teve gritaria, um número de votos maior do que o número de votantes, confusão e denúncias de fraude. Em outro momento, Eduardo Cunha abandonou seu estilo sisudo e organizou um chá das 5 com as esposas de deputados, tratadas como potenciais cabos eleitorais.

PARA UM LADO... - Pacheco e Lira com Lula: verbas e acenos à esquerda
PARA UM LADO… - Pacheco e Lira com Lula: verbas e acenos à esquerda (Ricardo Stuckert/PR)

A novidade dessa eleição, se nenhum imprevisto acontecer, é a engenharia política que coloca do mesmo lado do ringue governistas e oposicionistas. Eleito sob o aval do governo Bolsonaro e reeleito com as bênçãos do presidente Lula em 2023, Rodrigo Pacheco se dedicou a cuidar dos ritos institucionais da presidência e delegou a Alcolumbre certas tarefas políticas — daí a lenda de que ele era o presidente de fato. Famoso pelo apetite por cargos e verbas, o senador amapaense emplacou dois ministros logo no início do mandato petista, participa de reuniões de articulação e negocia a destinação de emendas parlamentares em nome de seu partido. Em troca, prometeu frear as pautas-­bomba da oposição. A empreitada atual de Alcolumbre é ampliar ainda mais seu arco de influência na Esplanada e emplacar o amigo Pacheco no Ministério da Justiça. O esforço se dá em meio a uma investigação da Polícia Federal na qual uma de suas assessoras foi citada em conversa entre empresários como alguém que poderia ajudar a destravar a liberação do dinheiro de um convênio. O caso está sendo analisado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas, até onde se sabe, o senador não é investigado.

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Pragmático, Alcolumbre também fez acenos à oposição. Como presidente da Comissão de Constituição e Justiça, deu aval a projetos endossados pelos aliados de Jair Bolsonaro, como o que limita as decisões individuais de ministros do STF, e tem uma lista de pedidos na mesa que vão da redução da maioridade penal a um salvo-conduto que permita a reabilitação do ex-presidente. Assim como Hugo Motta, ele jamais se manifestou publicamente sobre essas propostas. Os futuros presidentes enviaram sinais para os dois lados. Com o governo, se comprometeram a conter qualquer iniciativa que possa prejudicar o avanço da agenda econômica. Há outro ponto de convergência que une Alcolumbre, Motta, Lira e Pacheco: as emendas parlamentares. O Planalto já foi advertido de que todos os compromissos assumidos podem sucumbir se houver qualquer freio na liberação das verbas. O clima, por enquanto, é de paz.

...E PARA O OUTRO - Pacheco e Lira com Bolsonaro: verbas e acenos à direita
…E PARA O OUTRO - Pacheco e Lira com Bolsonaro: verbas e acenos à direita (Marcos Corrêa/PR)

Na reta final da campanha, Hugo Motta fez uma rodada de viagens e se reuniu com os governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro em cerimônias que receberam as lideranças dos principais partidos, do PT e do PL. “Nunca é demais lembrar que nós moramos num país continental que tem realidades diferentes e que o Parlamento tem que ter a maturidade de poder entender essas realidades e ver como podemos colaborar para cada estado poder crescer e se desenvolver, porque isso é ter uma ideia de país”, discursou o deputado. Ele estava ao lado do governador Tarcísio de Freitas, que também pertence aos quadros do Republicanos e é potencial candidato à Presidência da República em 2026. Alcolumbre, por sua vez, submergiu e evitou aparições públicas. Segundo um de seus aliados, ele, já seguro da vitória, preferiu se manter longe dos holofotes. O União Brasil, o partido do senador, aliás, também já tem seu pré-candidato à Presidência da República — Ronaldo Caiado, um ferrenho opositor ao governo Lula. Haja habilidade para conciliar interesses tão antagônicos.

Publicado em VEJA de 31 de janeiro de 2025, edição nº 2929



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OPINIÃO

Opinião: A ciranda troca de partidos e a busca por cargos públicos

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Foto de capa [arquivo pessoal]
Os parlamentares que mudam de partido – como macacos puladores de galho – ou se candidatam a outros cargos no Legislativo e no Executivo apenas para preservar privilégios demonstram desrespeito à República e deveriam sentir vergonha de tal conduta. Essa prática evidencia a ausência de compromisso ideológico e a busca incessante por posições de poder, transmitindo à sociedade a imagem de oportunistas movidos por conveniências pessoais. A política deveria ser encarada como missão cívica, exercício de cidadania e serviço transitório à nação. Encerrado o mandato, o retorno às profissões de origem seria saudável para a oxigenação da vida pública.  
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Infelizmente, o sistema político brasileiro está povoado por aqueles que veem na política não um espaço de serviço público, mas um negócio lucrativo. Como já destacou o jornal El País, ser político no Brasil é um grande negócio, dadas as vantagens conferidas e auferidas — e a constante movimentação de troca de partidos confirma essa percepção.  
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A cada eleição, o jogo se repete: alianças improváveis, trocas de legenda na janela partidária e negociações de bastidores que pouco têm a ver com as necessidades reais da população. Em vez de missão cívica, vemos aventureiros transformando a política em palco de interesses pessoais e cabide de empregos. A busca incessante pela reeleição e por cargos demonstra que, para muitos, a política deixou de ser a casa do povo e tornou-se um negócio.  
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Convém lembrar aos que se consideram úteis  e insubstituíveis à política que o cemitério guarda uma legião de ex-políticos esquecidos, cuja ausência jamais fez falta ao país.  
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As próximas eleições são a oportunidade para os eleitores moralizarem o Legislativo, elegendo apenas candidatos novos, sem os vícios da velha política, que tenham conduta ilibada e boa formação cultural. Por outro lado, diga não à reeleição política, aos trocadores de partidos, aos que interromperam o mandato para exercer cargos nos governos, e àqueles que já sofreram condenação na Justiça ou punição no Conselho de Ética do Legislativo. 
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Júlio César Cardoso
Servidor federal aposentado
Balneário Camboriú-SC

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“Estou muito envergonhado! Isto é uma indignidade inexplicável!” (Ciro Gomes, ex-ministro da Fazenda, usando as redes sociais para reclamar da troca de Carlos Lupi por Wolney Queiroz, seu desafeto no PDT, no comando do Ministério da Previdência Social) 


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