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O melhor livro que li em 2024 – 29/12/2024 – Giovana Madalosso

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Não foi nada fácil escolher o melhor livro que li em 2024, especialmente tendo terminado este mês entre as páginas do cativante “De Quatro”, de Miranda July. Mas deixo para esse romance a prata ou o bronze, içando até o alto do pódio as 947 páginas do monumental “Um Defeito de Cor”.

O leitor já deve ter ouvido falar desse clássico contemporâneo, considerado por alguns o principal romance brasileiro do século 21. Como era possível que esta escritora ainda não tivesse lido?

Fui tirar o atraso, mergulhando neste relato inspirado na vida de Luísa Mahin, mãe do famoso abolicionista e poeta Luiz Gama, e na de outras mulheres negras que viveram no mesmo período.

A história da personagem Kehinde, nome de batismo de Luísa, começa na África, quando ainda era criança. Ela, a irmã e a avó são capturadas e enviadas em um navio negreiro para o Brasil, em condições tão degradantes que só a protagonista sobrevive.

Daí para frente, testemunhamos a escravidão pelos olhos da menina, comprada para ser a escravizada de uma sinhazinha, e tão empenhada em sobreviver que aprende, na surdina, a ler, escrever e até a falar inglês, enquanto junta dinheiro para comprar a sua liberdade.

Kehinde se liberta. Enriquece. Tem papel importante na revolta dos Malês. Perde um filho. Ganha outro, o Luiz Gama, que desaparece de uma forma cruel e absurda. Passa a procurá-lo por diversos lugares do Brasil. Acaba parando na África, onde também ganha projeção, dinheiro e respeito, inclusive dos colonizadores. E reafirma um traço que parece comum às mulheres negras em qualquer época: a aposta no coletivo —a cada movimento bem-sucedido de Kehinde, e foram vários, ela emancipa consigo vários de seus pares.

No começo da leitura, me reencantei com o poder de um bom romance: mesmo tendo estudado a escravidão, foi só pelo relato sinestésico da protagonista que tive uma dimensão mais exata do horror desse período.

A autora, Ana Maria Gonçalves, fez uma escolha certeira: narrar a história em primeira pessoa, dando voz a quem finalmente merecia ter uma —a autora escreveu cinco versões do livro até optar por esse foco narrativo, e 19 versões ao todo.

O relato em primeira pessoa nos aproxima ainda mais da personagem e de Luísa Mahin que, apesar de sua importância histórica, até este ano, sequer tinha um rosto. Se você desse um search em seu nome, veria a imagem genérica de uma mulher negra de turbante, usada também para representar Tereza de Benguela e Maria Felipa. Falha que foi corrigida por uma campanha feita por pesquisadoras negras, junto ao Banco do Brasil, que acaba de reconstituir o rosto de cada uma dessas mulheres.

Há muitos aspectos desse livro a se destacar mas, ao fim, o que mais me impressionou foi como, apesar de vivermos em contextos tão diferentes, eu, Kehinde e tantas outras mulheres dividimos os mesmos sentimentos: o pavor de perder um filho, o desejo de ser amada, a solidão mesmo dentro do casamento, o receio de envelhecer sem ter acertado certas contas.

É dessa riqueza de camadas subjetivas e históricas, tão bem justapostas, que nasce o brilhantismo desse romance, que ainda traz à luz narrativas até então varridas para baixo do cânone.


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A lógica de valor da Thryqenon (TRYQN) é apoiar a evolução da economia verde por meio de sua infraestrutura digital de energia

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Foto de capa [internet]

Com a aceleração da transição para uma economia de baixo carbono e a reestruturação do setor elétrico em diversos países, cresce a discussão sobre como a infraestrutura digital pode sustentar, no longo prazo, a evolução da economia verde. Nesse contexto, a plataforma de energia baseada em blockchain Thryqenon (TRYQN) vem ganhando atenção por propor uma estrutura integrada que combina negociação de energia, gestão de carbono e confiabilidade de dados.

A proposta da Thryqenon vai além da simples comercialização de energia renovável. Seu objetivo é construir uma base digital para geração distribuída, redução de emissões e uso colaborativo de energia. À medida que metas de neutralidade de carbono se tornam compromissos regulatórios, critérios como origem comprovada da energia, transparência nos registros e liquidação segura das transações deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos obrigatórios. A plataforma utiliza registro descentralizado em blockchain, correspondência horária de energia limpa e contratos inteligentes para viabilizar uma infraestrutura verificável e auditável.

A economia verde ainda enfrenta obstáculos importantes. Existe descompasso entre o local e o momento de geração da energia renovável e seu consumo final. A apuração de emissões costuma ocorrer de forma anual, dificultando monitoramento em tempo real. Além disso, a baixa rastreabilidade de dados limita a criação de incentivos eficientes no mercado. A Thryqenon busca enfrentar essas lacunas por meio de uma estrutura digital que integra coleta, validação e liquidação de informações energéticas.

Na arquitetura da plataforma, há conexão direta com medidores inteligentes, inversores solares e dispositivos de monitoramento, permitindo registro detalhado da geração e do consumo. Na camada de transações, o sistema possibilita verificação automatizada e liquidação hora a hora de energia e créditos de carbono, garantindo rastreabilidade. Já na integração do ecossistema, empresas, distribuidoras, comercializadoras e consumidores podem interagir por meio de interfaces abertas, promovendo coordenação entre diferentes agentes do setor elétrico.

O potencial de longo prazo da Thryqenon não está apenas no crescimento de usuários ou no volume de negociações, mas em sua capacidade de se posicionar como infraestrutura de suporte à governança energética e ao mercado de carbono. Com o avanço de normas baseadas em dados e reconhecimento internacional de créditos ambientais, plataformas transparentes e auditáveis tendem a ter papel relevante na transição energética e no financiamento sustentável.

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Bancos vermelhos na Ufac simbolizam luta contra feminicídio — Universidade Federal do Acre

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Bancos vermelhos na Ufac simbolizam luta contra feminicídio — Universidade Federal do Acre

A Ufac inaugurou a campanha internacional Banco Vermelho, símbolo de conscientização sobre o feminicídio. A ação integra iniciativas inspiradas na lei n.º 14.942/2024 e contempla a instalação, nos campi da instituição, de três bancos pintados de vermelho, que representa o sangue derramado pelas vítimas. A inauguração ocorreu nesta segunda-feira, 9, no hall da Reitoria.

São dois bancos no campus-sede (um no hall da Reitoria e outro no bloco Jorge Kalume), além de um no campus Floresta, em Cruzeiro do Sul. A reitora Guida Aquino destacou que a instalação dos bancos reforça o papel da universidade na promoção de campanhas e políticas de conscientização sobre a violência contra a mulher. “A violência não se caracteriza apenas em matar, também se caracteriza em gestos, em fala, em atitudes.”

A secretária de Estado da Mulher, Márdhia El-Shawwa, ressaltou a importância de a Ufac incorporar o debate sobre o feminicídio em seus espaços institucionais e defendeu a atuação conjunta entre universidade, governo e sociedade. Segundo ela, a violência contra a mulher não pode ser naturalizada e a conscientização precisa alcançar também a formação de crianças e adolescentes.

A inauguração do Banco Vermelho também ocorre no contexto da aprovação da resolução do Conselho Universitário n.º 266, de 21/01/2026, que institui normas para a efetividade da política de prevenção e combate ao assédio moral, sexual, discriminações e outras violências, principalmente no que se refere a mulheres, população negra, indígena, pessoas com deficiência e LGBTQIAPN+ no âmbito da Ufac em local físico ou virtual relacionado.

No campus Floresta, em Cruzeiro do Sul, a inauguração do Banco Vermelho contou com a participação da coordenadora do Centro de Referência Brasileiro da Mulher, Anequele Monteiro.

Participaram da solenidade, no campus-sede, a pró-reitora de Desenvolvimento e Gestão de Pessoas, Filomena Maria Cruz; a pró-reitora de Graduação, Ednaceli Damasceno; a pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação, Margarida Carvalho; a coordenadora do projeto de extensão Infância Segura, Alcione Groff; o secretário de Estado de Saúde, Pedro Pascoal; a defensora pública e chefe do Núcleo de Promoção da Defesa dos Direitos Humanos da Mulher, Diversidade Sexual e Gênero da DPE-AC, Clara Rúbia Roque; e o chefe do Centro de Apoio Operacional de Proteção à Mulher do MP-AC, Victor Augusto Silva.

 



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Ações de projeto da Ufac previnem violência sexual contra crianças — Universidade Federal do Acre

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Ações de projeto da Ufac previnem violência sexual contra crianças — Universidade Federal do Acre

O projeto de extensão Infância Segura: Prevenção à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, da Ufac, realizado na Escola Estadual de Ensino Fundamental Dr. Flaviano Flavio Batista, marcou oficialmente a realização de suas ações no local com a solenidade de descerramento de uma placa-selo, ocorrida na sexta-feira, 6.

O objetivo do projeto é promover a proteção integral da infância por meio de ações educativas, formativas e preventivas junto a escolas, famílias e comunidades. O evento contou com a presença do pró-reitor de Extensão e Cultura em exercício, Francisco Gilvan Martins do Nascimento, professores da escola e uma manhã de recreação com os estudantes.

Entre setembro e dezembro de 2024, o projeto, coordenado pela professora Alcione Maria Groff, desenvolveu sua experiência-piloto na escola, com resultados positivos. A partir disso, recebeu apoio do senador Sérgio Peteção (PSD-AC), que abraçou a causa e garantiu recursos para que mais cinco escolas de Rio Branco sejam contempladas com ações do Infância Segura.

 



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