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Opinião: Passatempo de Chico Mendes, jogo de dominó persiste no Acre

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Eu achava que sabia jogar dominó, até que viajei ao Acre.

Para mim, o segredo era simples: encadear as peças com pontas iguais, até ser o primeiro a bater. Mas, no Acre, descobri um passatempo complexo, com jeito de truco e aspectos de um jogo de estratégia, que é praticado com assiduidade pelos moradores.

Jogar dominó era um dos hábitos do líder seringueiro Chico Mendes, morto 30 anos atrás. Era isso que ele fazia minutos antes de ser assassinado, na cozinha de sua casa, em Xapuri.

Até hoje, o jogo ainda é hábito entre seringueiros da região –bem como, descobri depois, entre moradores de partes da região Norte.

Jogar dominó é hábito comum entre os moradores do Acre – Fotos: Estelita Hass Carazzai.

Nesse dominó acriano, ganha o jogo quem conseguir marcar 200 pontos. Os pontos, você consegue somando quantas ‘bolinhas’ há nas peças das pontas: se a soma der um múltiplo de cinco, você marca a quantidade correspondente em pontos. Pode fazer 5, 10, 15, 20 ou até 35 pontos por jogada.

O segredo não é só ser bom em matemática, mas também conseguir prever as jogadas do adversário. Quem realmente manja do jogo já decorou as 28 pedras, e consegue saber, com base na mesa e na mão, quais as chances de bater ou de impedir a jogada do adversário.

No Google, descobri que essa modalidade se chama “dominó ponta de cinco”.

Em Xapuri, o dominó costuma ser jogado em mesas na varanda das casas. A maior parte dos seringueiros joga em dupla, ou “parceirado” –como se fosse truco, com direito a sinais secretos e euforia na hora de jogar a peça final.

Os pontos são marcados com sementes de mulungu, ou o que estiver à mão: cada uma representa cinco pontos. E, vez ou outra, tem até campeonato.

Chico Mendes, pelo relato dos companheiros da época, era um excelente jogador. O dominó que ele jogava minutos antes de ser morto, nos fundos de sua casa, ainda está na mesma mesa da cozinha, preservada como museu em Xapuri.

Cozinha preservada da antiga casa de Chico Mendes.

Estelita Hass Carazzai. Folha SP.

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