NOSSAS REDES

ACRE

Patriarcado pesa mais que a raça para alguns homens negros – 04/11/2024 – Charles M. Blow

PUBLICADO

em

Ao longo de mais de um ano, enquanto conversava com homens negros e organizadores de votação, percebi um descontentamento com o Partido Democrata por parte de alguns homens negros, mas não tinha certeza do que fazer com isso ou até que ponto esse sentimento se estendia.

Além do meu trabalho de reportagem, pesquisas sugerem uma erosão do apoio democrata entre homens negros, embora eu permanecesse um tanto cético.

Mas quando uma campanha na eleição dos Estados Unidos desdobra uma estratégia de reta final para alcançar e manter um grupo específico de eleitores, como a de Kamala Harris claramente fez com os homens negros, significa que algo levantou uma preocupação muito real.

Mesmo com 70% de apoio dos homens negros a Kamala, segundo pesquisa do New York Times/Siena College, o apoio a democratas diminuiu em relação a ciclos passados, o que é preocupante em uma corrida acirrada.

Barack Obama saiu para enviar uma mensagem severa. Kamala lançou uma “agenda de oportunidades para homens negros” e concedeu entrevistas a figuras da mídia negra masculina, indicando preocupação de sua equipe com o eleitorado masculino negro nos últimos dias de campanha.

Obama atribuiu parte da possível queda de apoio a Kamala, em comparação com o apoio a ele durante suas corridas presidenciais, à ideia de que alguns homens negros “simplesmente não estão aceitando a ideia de ter uma mulher como presidente”.

Esse tipo de misoginia —ou misogynoir, a forma particular de misoginia enfrentada por mulheres negras— sem dúvida faz parte do problema, mas não é tudo.

O patriarcado é complexo e exerce forte influência em várias áreas, afetando homens negros de maneiras sutis. Diferentes manifestações patriarcais impactam esses eleitores em termos de política e percepção.

Há defensores do movimento negro que são contra o aborto porque querem mais bebês negros. Eles veem essa população crescendo mais lentamente do que outros grupos minoritários.

Embora pesquisas mostrem que quase três quartos dos negros apoiam o aborto legal, um relatório de junho do Pew Research Center descobriu que metade dos homens e mulheres negros dizem acreditar que o governo promove a interrupção da gravidez e o controle de natalidade para suprimir essa população. Quase dois terços dos jovens homens negros tinham ouvido falar dessa teoria.

Há os puristas de gênero negros e homofóbicos que concordam com o ponto de vista republicano de que os democratas “não sabem a diferença entre um homem e uma mulher”.

Parte da população negra se opõe à imigração, preocupada que recursos governamentais sejam direcionados a migrantes recém-chegados em vez de comunidades locais. Entre eles, trabalhadores que não se ofenderam com a afirmação de Donald Trump sobre imigrantes ocupando “empregos de negros”, pois veem a chegada de mais pessoas do exterior como uma ameaça ao mercado de trabalho.

E então considere os homens negros que são contra a intervenção estrangeira, grupo que se poderia chamar de “Primeiro a América Negra”, que não conseguem conciliar o gasto de bilhões de dólares em impostos no Oriente Médio e na Ucrânia enquanto as comunidades negras nos Estados Unidos lutam com o subinvestimento de longa data.

Quando se trata da guerra entre Israel e o Hamas, há aqueles que veem a experiênc ia negra americana como conectada a todas as formas de opressão global, que consideram o crescente número de mortes na Faixa de Gaza inadmissível. Não é que eles acreditem que Trump teria uma melhor política para o Oriente Médio; é que eles estão magoados com o que veem como uma traição pela administração de Joe Biden e Kamala Harris.

Mas como os homens negros não apoiariam uma mulher negra? Ou, de forma mais perturbadora, mesmo com reservas sobre Kamala, como poderiam apoiar Trump? Logo ele que anos atrás teve que assinar um acordo com o Departamento de Justiça para que sua empresa não discriminasse possíveis inquilinos minoritários e que tem um histórico de declarações e ações racistas, desde sua promoção do movimento birtherismo [teoria da conspiração que questiona a nacionalidade de Obama] até seu banimento de muçulmanos.

Por muito tempo, o antirracismo e políticas de segurança social compassivas eram a cola que mantinha quase todos os eleitores negros juntos com os democratas, mas o patriarcado fala aos homens de uma maneira particular, e mais homens negros podem simplesmente estar se afastando nessa direção.

Para alguns homens negros, as palavras e ações de Trump podem não ser a barreira que um dia poderiam ter sido ou que liberais como eu pensam que deveriam ser.

A desilusão com o processo político afasta homens negros jovens da participação cívica, resultando em autossilenciamento e potencial autodestruição. A abstenção é vista como resistência a um sistema ilusório, mas a frustração com a política é uma questão histórica para a população negra.

Como James Baldwin escreveu em seu ensaio “Jornada a Atlanta”: “Essa indiferença fatalista é algo que enlouquece o otimista liberal americano.”

Isso também me enlouquece, mas há uma mudança entre uma parte dos homens negros que temo que ninguém tenha sido capaz de deter.

Há um sentimento de que o liberalismo em geral, e o Partido Democrata em particular, se afastou do partidos dos capacetes de segurança para o partido dos espaços seguros, que foi feminizado, e que a bravata de Trump e o sexismo desenfreado, por mais tóxicos que sejam, são pelo menos formas de masculinidade.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Leia Mais: Folha

Advertisement
Comentários

Warning: Undefined variable $user_ID in /home/u824415267/domains/acre.com.br/public_html/wp-content/themes/zox-news/comments.php on line 48

You must be logged in to post a comment Login

Comente aqui

ACRE

Ufac lança Plano de Acessibilidade da Infraestrutura Física (2026-2029) — Universidade Federal do Acre

PUBLICADO

em

Ufac lança seu Plano de Acessibilidade da Infraestrutura Física-interna.jpg

A Ufac lançou seu Plano de Acessibilidade da Infraestrutura Física (2026-2029). A solenidade ocorreu na sexta-feira, 17, no auditório Pedro Martinello, no Centro de Convenções, campus-sede. A iniciativa integra o projeto “Ufac em Ação: Acessibilidade, Inclusão e Segurança” e busca orientar as ações destinadas à construção de uma universidade mais acessível, inclusiva e segura.

A reitora Guida Aquino destacou que a instituição já realizou melhorias de acessibilidade, mas ainda precisa avançar e buscar recursos para executar as ações previstas no plano. “Nós temos que buscar agora investimento para que possamos acolher nossos estudantes; a universidade não existe sem aluno.” Segundo ela, essas iniciativas devem atender também os servidores que necessitam de condições adequadas de acessibilidade.

O coordenador do projeto e prefeito do campus-sede, Artheson Cruz, explicou que o crescimento da infraestrutura física da Ufac ocorreu em diferentes períodos, com edificações construídas de acordo com normas distintas. Essa situação, para ele, resultou na existência de espaços acessíveis que não estão completamente conectados entre si.

“Você entra em um prédio que tem acessibilidade e, quando sai daquele local, já se depara com uma situação de ausência da acessibilidade”, disse e ressaltou que o aumento do número de pessoas com deficiência que ingressam na universidade exige a adequação dos espaços para garantir dignidade, autonomia, permanência e conclusão dos cursos.

O plano estabelece diretrizes para superar progressivamente os desafios de acessibilidade no campus-sede, no campus Floresta e nos núcleos da Ufac no Estado. Para a elaboração do documento, foram realizados levantamento técnico da infraestrutura e escuta qualificada com pessoas surdas, com deficiência visual e autistas.

A representante do Núcleo de Acessibilidade e Inclusão, Rayfa Almeida, destacou que a efetivação das medidas é fundamental para garantir o acesso e a permanência das pessoas com deficiência na universidade. “Esperamos que seja concretizado realmente, que seja efetivo para as pessoas com deficiência conseguirem finalizar seus cursos.”

 



Leia Mais: UFAC

Continue lendo

ACRE

Parfor da Ufac em Santa Rosa do Purus lança livro de contos — Universidade Federal do Acre

PUBLICADO

em

Parfor da Ufac em Santa Rosa do Purus lança livro de contos-interna.jpg

Estuantes do Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor), da Ufac em Santa Rosa do Purus (AC), no âmbito da disciplina Oficina Pedagógica: Leitura e Escrita na Escola, lançaram o livro “Tecendo Leituras: Contos e Caminhos para o Letramento Literário”. O evento ocorreu no sábado, 18, no município, reunindo professores, gestores, autoridades locais, familiares dos alunos e a representante do Parfor na ocasião, professora Grace Gotelip.

A obra foi organizada pela professora Emilly Ganum Areal e sua reprodução foi viabilizada com o apoio da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), por meio da Diretoria de Apoio à Interiorização e Programas Especiais (Dainpes). Segundo ela e os envolvidos no processo criativo, a iniciativa representa um marco para o Parfor da Ufac por resultar diretamente de uma disciplina do curso de graduação e reunir, pela primeira vez, textos literários de autores de Santa Rosa do Purus.

Além disso, agradeceram à Ufac, por meio da Prograd e da Dainpes, pelo apoio na concretização do projeto, o qual, para eles, deixa um legado no munícipio, incentiva a produção literária regional e reafirma o compromisso da universidade com a interiorização do ensino superior e com o desenvolvimento social através da educação.

 



Leia Mais: UFAC

Continue lendo

ACRE

Curso de Ciências Contáveis realiza evento sobre IA e deepfakes — Universidade Federal do Acre

PUBLICADO

em

Curso de Ciências Contáveis realiza evento sobre IA e deepfakes--interna.jpg

O curso e o Centro Acadêmico de Ciências Contábeis, da Ufac, promoveram o evento de extensão Inteligência Artificial (IA), Regulação de Deepfakes e Formação Cidadã, em 9 e 10 de julho, no bloco do Centro de Ciências Jurídicas e Sociais Aplicadas. Nesse período, estudantes, professores e interessados no assunto realizaram troca de experiências, além de debates sobre temas atuais para cidadania e o exercício profissional.

A programação contou com palestra de Virgilio Viana, a qual proporcionou aos participantes reflexões sobre os desafios e as oportunidades decorrentes das transformações tecnológicas na sociedade contemporânea. Também ocorreram três oficinas: O Perfil Profissional para a Gestão Pública, ministrada por Esteferson Rocha; Cartão de Crédito: Aliado ou Vilão?, ministrada por Gilvanete Pereira; e Inteligência Emocional, ministrada por Jordeane Oliveira

Os professores Marconde Silva e Oleides Oliveira organizaram o evento, que, segundo eles, reafirmou o compromisso do curso de Ciências Contábeis com a promoção de ações de extensão que integram ensino, pesquisa e extensão, fortalecendo o diálogo entre a universidade e a sociedade.

 



Leia Mais: UFAC

Continue lendo

MAIS LIDAS