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Quem escolhe o vinho que você bebe? – 11/10/2024 – Isabelle Moreira Lima

Já parou para pensar que quando você escolhe um vinho alguém já escolheu antes para você? Quando você vai a um restaurante ou a uma loja, alguém montou a carta e selecionou o que está na prateleira. Provavelmente, um sommelier. Mas, antes dele, outra pessoa também fez uma escolha, direto do produtor. Estou falando do winehunter.

Sempre achei esse termo engraçado, um caçador de vinhos, como se a bebida fosse um animal selvagem, que precisasse ser capturado. Mas para Wilton e Martin Conde, pai e filho e sócios da importadora Domínio Cassis, talvez o termo faça sentido.

Se você está em São Paulo e tem frequentado restaurantes, alguma coisa que você tomou deve ter passado pelas mãos deles, que têm vinhos nas cartas do Arturito, Cais, DOM, Maní, Martin Fierro, entre muitos outros. No catálogo da Domínio Cassis estão rótulos de 48 pequenos produtores familiares da América do Sul, mas também da Espanha, Portugal, França, Itália e Alemanha.

O jeito de “caçar” dos Conde é curioso. Quando falam de winehunters, logo imagino viajantes passando longas temporadas pelo mundo, em maratonas de degustação. No caso dos dois, a coisa é mais pela internet mesmo: as vinícolas são encontradas na base da indicação, da intuição e, claro, do conhecimento de causa. “A gente não vem de uma família milionária, não tem investidor, somos só nós que fazemos tudo, então não conseguimos viajar”, conta Martin, que revela já ter importado às cegas, sem provar nada.

Esse método pouco ortodoxo os levou a vinhos que viraram queridinhos dos menus degustação, como os tintos Huaso de Sauzal, varietais chilenos de cariñena, chilena ou garnacha; os laranjas Bianka und Daniel Schmitt, um riesling alemão; e o Metamorphika, feito com a uva autóctone espanhola sumoll blanc. Foi assim também que chegaram ao best-seller Cara Sucia, que chega hoje em cinco versões ao Brasil.

Se parece loucura, ela começou há 17 anos, quando ainda trabalhavam com sistemas de segurança (Wilton) e telemarketing (Martin) e, por insistência de um primo produtor, trouxeram do Uruguai 600 garrafas sem saber a quem vender. Sem contatos ou redes sociais para cortar caminho, bateram de porta em porta, mas logo viram que não era tão fácil assim vender tannat, a uva tânica e adstringente que é marca do país. Ou abriam o leque, ou faliriam.

Optaram pela primeira alternativa e miraram no Chile, porque o vizinho de Wilton conhecia um produtor do país, William Fèvre, cuja linha Espino está no catálogo até hoje.

Mas foi em 2011 que encontraram sua vocação, ao conhecer o produtor orgânico La Calandria, também do Chile. Os vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais passaram a ser uma marca de seu catálogo, bem como as uvas autóctones e as regiões pouco conhecidas das vinícolas. Esse recorte, mais o jeito curioso de trabalhar, a proximidade com os clientes e, claro, um tino fantástico para garimpar rótulos tem feito dos Conde talvez os maiores ditadores de tendências das cartas de vinho atuais em São Paulo.

Vai uma taça? Entre os vinhos garimpados pelos Conde, o laranja Estación Yumbel Tinaja Moscatel de Alejandría 2022 (R$ 157 na Vino Mundi) é rústico e um sucesso para a harmonização. O Aquí Estamos Todos Locos Bequignol (R$ 144 na Curavino) é um tinto leve e fresco para uma noite de calor. Mais fino, o tinto argentino Proyecto Las Compuertas Criolla Chica (R$ 189 na Toque de Vinho) vale ser aberto numa comemoração.


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