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Reduto de Hugo Motta na PB acumula obras encrencadas – 25/01/2025 – Poder

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Fabio Victor

Em 2011, durante seu primeiro mandato como deputado federal, Hugo Motta, então com 22 anos, destinou uma emenda de R$ 2 milhões ao Orçamento da União de 2012 para a construção do Teatro Municipal de Patos, no sertão paraibano.

O prefeito da cidade, reduto eleitoral de Hugo, era o pai dele, Nabor Wanderley, que foi sucedido pela sua avó materna, Francisca Motta. Na época, os três pertenciam ao PMDB —hoje são do Republicanos. Os R$ 2 milhões representavam 67% do orçamento total do projeto (R$ 3 milhões).

Catorze anos depois, Hugo Motta acumulou experiência e poder. Aos 35 anos, está prestes a ser eleito o mais jovem presidente da história da Câmara dos Deputados. Patos é de novo governada por seu pai (pela quarta vez), e sua avó é deputada estadual.

O Teatro Municipal não está pronto. A construção foi por diversas vezes paralisada e abandonada —por falta de pagamento da prefeitura às empresas, mandatos interrompidos, irregularidades nas obras, entre outros problemas.

A obra começou entre 2013 e 2014, na gestão de Francisca. A avó de Hugo não terminou o mandato: foi afastada pela Justiça em 2016, a poucos meses de concluí-lo, depois de uma operação em que Ministério Público Federal, Polícia Federal e Controladoria-Geral da União investigaram esquemas de corrupção em cidades da região.

Ilanna Mota, mãe de Hugo e filha de Francisca, que era chefe de gabinete da prefeitura, foi presa na ocasião, e solta após cinco dias. As imputações do Ministério Público Federal (MPF) contra as duas por esse caso terminariam consideradas improcedentes ou extintas pela Justiça.

O MPF instaurou inquérito para apurar as causas da paralisação das obras –e depois o arquivou. O Tribunal de Contas da Paraíba constatou irregularidades nas obras e encaminhou o caso para o Tribunal de Contas da União (TCU).

Na segunda semana de janeiro, quando a reportagem esteve em Patos, não havia sinal de obras. O teatro estava cercado por tapumes. Numa das laterais, uma vizinha colocou farelo de milho para alimentar pombos e cabeças de galinha para cachorros de rua.

Além de ser explorada pelos poucos integrantes da oposição na cidade como exemplo de má gestão e descaso com o dinheiro público, a novela gera chacota e revolta.

“Teve uma época em que no Teatro Municipal só tinham dois funcionários, um pedreiro e um servente, e os dois eram intrigados [brigados entre si]. Daí você vê como era a construção desse equipamento. Nós, ativistas culturais, e a população em geral já perdemos a esperança de que um dia esse teatro fique pronto”, afirma o pesquisador Damião Lucena, autor de livros sobre a história de Patos e que mantém em sua casa um centro cultural com a memória da cidade.

Seguindo um roteiro comum em Patos, o Governo da Paraíba assumiu a conta para tentar salvar o projeto, firmando novos convênios com a prefeitura, num total de R$ 12 milhões. O governador João Azevedo (PSB), aliado do prefeito, realizou cerimônias em 2021 e 2022 para anunciar a retomada. A conclusão agora está prometida para este ano.

O caso do Teatro Municipal é um entre muitos em que verbas federais obtidas por Hugo Motta para Patos direta ou indiretamente (com articulação política em ministérios e outros órgãos) são destinadas a obras encrencadas há anos sem sair do papel.

Dois grandes projetos esportivos se inserem nessa categoria. Entre 2013 e 2014, a Prefeitura de Patos firmou convênios com o Ministério do Esporte para a construção da Vila Olímpica e do CIE (Centro de Iniciação ao Esporte) —o primeiro no valor de R$ 2,9 milhões e o segundo orçado em R$ 3,5 milhões, dos quais foram liberados R$ 866 mil.

O plano era que ambos fossem inaugurados até as Olimpíadas do Rio em 2016. Doze anos depois, nenhum dos dois está pronto —longe disso.

Hugo Motta articulou com diferentes ministros do Esporte pela liberação das verbas. Em 2018, uma emenda do deputado garantiu mais R$ 1 milhão para os projetos —dois anos antes, nova emenda dele assegurou R$ 1,2 milhão para o mesmo fim (“infraestrutura para esporte educacional, recreativo e de lazer”), mas no Estado da Paraíba como um todo.

As verbas saíram, mas não foram bem empregadas. A Vila Olímpica só foi iniciada em 2015 (gestão Francisca Motta), mas abandonada depois de problemas estruturais. O CIE mal foi iniciado, e a prefeitura precisou devolver parte dos recursos à União, por descumprimento de metas.

“Quando a empresa começou a executar os serviços de conclusão [da Vila Olímpica], notaram-se algumas falhas (…) na parte estrutural”, relatou o secretário de Administração de Patos, Francivaldo Dias, em 2023.

“Infelizmente, passou-se um longo período abandonada, sem dar continuidade aos serviços, que só estão sendo retomados agora”, disse então o secretário. De novo, o Governo da Paraíba apareceu em socorro, com novos convênios, de R$ 3,8 milhões.

Ambos os equipamentos seguem inconclusos e não estavam em obras quando a reportagem foi aos locais —a Vila tem carcaças de concreto e um teto de zinco sobre o que deveria ser uma quadra; o CIE apresenta uma estrutura de ferro inacabada.

Os exemplos se sucedem. Em 2017, Hugo Motta garantiu uma emenda de R$ 1 milhão para a construção do Centro de Controle de Zoonoses de Patos. “‘É uma reivindicação antiga da população patoense, que quer cuidado e proteção aos animais”, disse na época o deputado.

A obra nem foi iniciada. Após ação do Ministério Público Estadual, a Justiça exige que o centro seja construído, enquanto a Prefeitura de Patos diz agora que ele não é necessário: alegou no processo que há “baixa demanda” para a construção, “que não justificaria o dispêndio de recursos públicos”.

Também há, naturalmente, obras concluídas com verbas federais. Uma das mais dispendiosas foi a drenagem e revitalização do Canal do Frango, que corta bairros periférico de Patos, ao custo de R$ 27 milhões só na primeira etapa, mas cujo resultado é controverso. Segundo moradores, melhorou um pouco a situação do entorno, mas a região segue sofrendo com alagamentos quando chove.

Em setembro, com autorização da Justiça, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão em Patos numa investigação sobre desvios numa obra de R$ 5 milhões com emenda de Motta (avenidas conhecidas como Alças Sudeste e Sudoeste). Na ocasião, o deputado disse que não era nem investigado nem suspeito no caso.

Procurados pela reportagem, Nabor Wanderley, Hugo Motta e Francisca Motta não quiseram dar entrevista. Aos dois primeiros também foram enviadas questões por escrito, sem resposta.

Embora esteja no segundo mandato seguido de seu segundo período como prefeito (o primeiro foi de 2005 a 2012), Nabor disse, numa entrevista em 2024, que não pode se responsabilizar por obras iniciadas em outras gestões —mesmo que parte delas tenha começado na de Francisca, sua ex-sogra e aliada de primeira hora, que o lançou na política.

Lembrou ainda que a cidade viveu instabilidade política com o afastamento de outro prefeito, seu primo e adversário Dinaldo Wanderley Filho. Eleito em 2016, ele sucedeu Francisca, mas foi afastado pela Justiça em 2018 após ser denunciado por corrupção.

Terreiro do Forró

Enquanto pululam obras inconclusas e encrencadas, verbas federais continuam a chegar aos milhões em Patos. No ano passado, Hugo Motta conseguiu aprovar uma emenda de R$ 17,3 milhões na Comissão de Turismo da Câmara para o novo Terreiro do Forró –epicentro do São João de Patos, um dos maiores da Paraíba–, cuja maior atração será o “quadrilhódromo do sol”, anunciado como “o maior anfiteatro ao ar livre do Nordeste”.

“Já estamos com os recursos empenhados, graças ao trabalho do deputado Hugo Motta, para que a gente possa realizar essa obra”, disse o pai-prefeito, repetindo a fórmula de sempre associar ao filho as verbas federais que chegam para Patos.

Desde 2020, o Congresso passou a ter maior controle sobre as emendas parlamentares, o que provocou uma crise entre os Poderes. De lá para cá, as emendas movimentaram ao menos R$ 149 bilhões –mais de quatro vezes o valor desembolsado em indicações parlamentares no ciclo anterior, de 2015 a 2019, de R$ 32,8 bilhões.

Hugo Motta, como um líder do centrão com poder crescente na Câmara, é parte importante dessa engrenagem.

Levantamento da Folha em setembro passado mostrou que, apenas entre 2020 e 2022, ele indicou a Patos ao menos R$ 45 milhões em recursos de emendas do relator –modalidade declarada inconstitucional pelo STF pela falta de transparência– e cerca de R$ 5 milhões em “emendas Pix” desde 2021, verba que cai diretamente nos cofres do município, mesmo sem finalidade definida.

Ao todo, desde 2020, Patos teve R$ 116 milhões em emendas empenhadas (não apenas de Hugo Motta) e firmou convênios federais no valor de R$ 61 milhões.

Colaborou Mateus Vargas, de Brasília



Leia Mais: Folha

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Startup Day-2026 ocorre na Ufac em 21/03 no Centro de Convivência — Universidade Federal do Acre

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Startup Day-2026 ocorre na Ufac em 21/03 no Centro de Convivência — Universidade Federal do Acre

A Pró-Reitoria de Inovação e Tecnologia (Proint) da Ufac e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Acre (Sebrae-AC) realizam o Startup Day-2026, em 21 de março, das 8h às 12h, no espaço Sebrae-Lab, Centro de Convivência do campus-sede. O evento é dedicado à inovação e ao empreendedorismo, oferecendo oportunidades para transformar projetos em negócios de impacto real. As inscrições são gratuitas e estão abertas por meio online.

O Startup Day-2026 visa fortalecer o ecossistema, promover a troca de experiências, produzir e compartilhar conhecimento, gerar inovação e fomentar novos negócios. A programação conta com show de acolhimento e encerramento, apresentações, painel e palestra, além de atividades paralelas: carreta game do Hospital de Amor de Rio Branco, participação de startups de game em tempo real, oficina para crianças, exposição de grafiteiros e de projetos de pesquisadores da Ufac.

 



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A lógica de valor da Thryqenon (TRYQN) é apoiar a evolução da economia verde por meio de sua infraestrutura digital de energia

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Com a aceleração da transição para uma economia de baixo carbono e a reestruturação do setor elétrico em diversos países, cresce a discussão sobre como a infraestrutura digital pode sustentar, no longo prazo, a evolução da economia verde. Nesse contexto, a plataforma de energia baseada em blockchain Thryqenon (TRYQN) vem ganhando atenção por propor uma estrutura integrada que combina negociação de energia, gestão de carbono e confiabilidade de dados.

A proposta da Thryqenon vai além da simples comercialização de energia renovável. Seu objetivo é construir uma base digital para geração distribuída, redução de emissões e uso colaborativo de energia. À medida que metas de neutralidade de carbono se tornam compromissos regulatórios, critérios como origem comprovada da energia, transparência nos registros e liquidação segura das transações deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos obrigatórios. A plataforma utiliza registro descentralizado em blockchain, correspondência horária de energia limpa e contratos inteligentes para viabilizar uma infraestrutura verificável e auditável.

A economia verde ainda enfrenta obstáculos importantes. Existe descompasso entre o local e o momento de geração da energia renovável e seu consumo final. A apuração de emissões costuma ocorrer de forma anual, dificultando monitoramento em tempo real. Além disso, a baixa rastreabilidade de dados limita a criação de incentivos eficientes no mercado. A Thryqenon busca enfrentar essas lacunas por meio de uma estrutura digital que integra coleta, validação e liquidação de informações energéticas.

Na arquitetura da plataforma, há conexão direta com medidores inteligentes, inversores solares e dispositivos de monitoramento, permitindo registro detalhado da geração e do consumo. Na camada de transações, o sistema possibilita verificação automatizada e liquidação hora a hora de energia e créditos de carbono, garantindo rastreabilidade. Já na integração do ecossistema, empresas, distribuidoras, comercializadoras e consumidores podem interagir por meio de interfaces abertas, promovendo coordenação entre diferentes agentes do setor elétrico.

O potencial de longo prazo da Thryqenon não está apenas no crescimento de usuários ou no volume de negociações, mas em sua capacidade de se posicionar como infraestrutura de suporte à governança energética e ao mercado de carbono. Com o avanço de normas baseadas em dados e reconhecimento internacional de créditos ambientais, plataformas transparentes e auditáveis tendem a ter papel relevante na transição energética e no financiamento sustentável.

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Bancos vermelhos na Ufac simbolizam luta contra feminicídio — Universidade Federal do Acre

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Bancos vermelhos na Ufac simbolizam luta contra feminicídio — Universidade Federal do Acre

A Ufac inaugurou a campanha internacional Banco Vermelho, símbolo de conscientização sobre o feminicídio. A ação integra iniciativas inspiradas na lei n.º 14.942/2024 e contempla a instalação, nos campi da instituição, de três bancos pintados de vermelho, que representa o sangue derramado pelas vítimas. A inauguração ocorreu nesta segunda-feira, 9, no hall da Reitoria.

São dois bancos no campus-sede (um no hall da Reitoria e outro no bloco Jorge Kalume), além de um no campus Floresta, em Cruzeiro do Sul. A reitora Guida Aquino destacou que a instalação dos bancos reforça o papel da universidade na promoção de campanhas e políticas de conscientização sobre a violência contra a mulher. “A violência não se caracteriza apenas em matar, também se caracteriza em gestos, em fala, em atitudes.”

A secretária de Estado da Mulher, Márdhia El-Shawwa, ressaltou a importância de a Ufac incorporar o debate sobre o feminicídio em seus espaços institucionais e defendeu a atuação conjunta entre universidade, governo e sociedade. Segundo ela, a violência contra a mulher não pode ser naturalizada e a conscientização precisa alcançar também a formação de crianças e adolescentes.

A inauguração do Banco Vermelho também ocorre no contexto da aprovação da resolução do Conselho Universitário n.º 266, de 21/01/2026, que institui normas para a efetividade da política de prevenção e combate ao assédio moral, sexual, discriminações e outras violências, principalmente no que se refere a mulheres, população negra, indígena, pessoas com deficiência e LGBTQIAPN+ no âmbito da Ufac em local físico ou virtual relacionado.

No campus Floresta, em Cruzeiro do Sul, a inauguração do Banco Vermelho contou com a participação da coordenadora do Centro de Referência Brasileiro da Mulher, Anequele Monteiro.

Participaram da solenidade, no campus-sede, a pró-reitora de Desenvolvimento e Gestão de Pessoas, Filomena Maria Cruz; a pró-reitora de Graduação, Ednaceli Damasceno; a pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação, Margarida Carvalho; a coordenadora do projeto de extensão Infância Segura, Alcione Groff; o secretário de Estado de Saúde, Pedro Pascoal; a defensora pública e chefe do Núcleo de Promoção da Defesa dos Direitos Humanos da Mulher, Diversidade Sexual e Gênero da DPE-AC, Clara Rúbia Roque; e o chefe do Centro de Apoio Operacional de Proteção à Mulher do MP-AC, Victor Augusto Silva.

 



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