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‘Tu não deixas nada na Antártida’, diz cientista – 12/01/2025 – Ciência
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1 ano atrásem
Phillippe Watanabe
Nada fica para trás na Antártida. Até uma única luva levada em uma lufada provoca uma correria. A preocupação também vale para que as pessoas não percam a cabeça, com o cansaço já batendo após tanto tempo de trabalho e expedição dentro de uma embarcação.
Venisse Schossler, 48, geógrafa, climatologista e pesquisadora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), está em sua segunda expedição à Antártida, a bordo do navio que leva os pesquisadores no que pode se tornar a maior circum-navegação nesse continente gelado.
Na primeira, há poucos anos e após cerca de uma década de estudo da Antártida, ela enfrentou o gelo sobre um trator, em uma expedição de 12 horas para levar o projeto Criosfera 2 —coleta de dados climáticos— ao seu ponto de instalação. Alcançado o local, mais 30 dias acampados garantiram a instalação do maquinário.
Mas um acampamento espaçoso, com barraca-cozinha, barraca-banheiro etc. Totalmente diferente da pequena barraca-dormitório-banheiro onde ela celebrou o Natal recente junto a outras sete pessoas, em um espaço onde só caberiam quatro.
Se no aperto os homens presentes usavam uma garrafa, ela não pôde fazer o mesmo. Teve que enfrentar a tempestade e, pela situação extrema, deixou algo para trás.
No Diário da Antártida desta semana, Schossler conta como leva consigo o orgulho de ser a única mulher na coordenação da expedição, assim como também é a única mulher do grupo que pesquisa testemunhos de gelo e da mesma forma era a única presente na instalação do Criosfera 2.
Não podemos deixar absolutamente nada. Tu não deixas nada na Antártida, a não ser pegadas.
Para coletar o testemunho [de gelo], botamos uma luva plástica bem fininha por cima da luva que esquenta a mão. Eu não lembro quem foi, mas bateu um vento e a luva voou. Essa criatura correu tanto para pegar essa luva. Com aquelas botas enormes, que afundavam. Mas ele conseguiu pegar. Não deixamos a luva lá.
É uma convenção. Tu entraste na Antártida, se tu deixas alguma coisa lá, é muito irresponsabilidade. Principalmente coisas plásticas, papel, essas coisas. Tu não podes deixar nada, nada, nada. Não tem ninguém vigiando, mas todo cientista que vai, vai consciente. Pela nossa equipe, posso falar com tranquilidade. Não estamos em nenhum momento pensando em prejudicar aquele ambiente intocado e perfeito que é a Antártida.
Quanto mais intocado, melhor para nós, na questão de resultado, que trabalhamos lá. Para o ambiente então nem se fala.
Por exemplo, trabalhamos com microplástico [a partir do estudo de testemunhos de gelo]. Como é que vamos deixar uma luva de plástico que voou se estamos estudando justamente contaminação por microplástico? Então, quando o gurizinho saiu correndo, fiquei morrendo de pena, mas eu disse: vai, corre.
Fiz parte da equipe que instalou o módulo Criosfera 2. A gente foi começo de dezembro de 2022 e voltou no fim de janeiro de 2023. Era uma equipe de quatro pessoas. Uma experiência incrível. A gente levou o Criosfera 2 de trator. Doze horas de trator. O nosso módulo científico é um contêiner, tipo esses de food truck. Foi uma operação logística extremamente difícil.
[Na expedição atual] A gente passa praticamente todo o tempo no oceano. Isso é uma coisa que eu nunca tinha feito. Para mim, está sendo uma experiência incrível. É cansativo e ficamos muitos dias aqui dentro esperando chegar ao ponto para fazer o trabalho de campo. Mas, em compensação, também é uma experiência de observação da natureza. Conseguimos ver baleia, foca, pinguim, todos os tipos de pássaros antárticos. Tu estas na janela da cabine, passa um iceberg pequenininho e um monte de pinguim em cima. É muito legal.
Em compensação, lá onde a gente foi [na expedição do Criosfera 2] não tem nada. No interior da Antártida é gelo, gelo e gelo. Não tem uma espécie de animal. Mas, no Skytrain, onde colocamos o módulo, tínhamos vista para as montanhas Ellsworth e posso dizer da beleza monumental delas, que são as maiores da Antártida. É um negócio que não tem explicação. Trinta dias acordando, abrindo a barraca e olhando para aquilo.
E cientificamente é completamente diferente [as duas expedições]. A outra era totalmente técnica; monta equipamento, testa. Lá foram 30 dias consecutivos de trabalho, trabalhando das 8h da manhã às 10h da noite —que não é noite, é dia. Aqui é um negócio braçal e rápido. Vai para o campo trabalha e terminou.
Lá, tínhamos barraca-cozinha, barraca-banheiro, barraca-dormitório. O banheiro não é a coisa mais maravilhosa do mundo. E tem as curiosidades. A gente recolhe tudo. Tu não podes misturar a urina com fezes. Tem de fazer o xixi no lugar, segurar e ir no outro fazer o número dois. Porque, quando tu vais retirar depois, fica muito mais difícil se tu misturas os dois. A urina fica toda dentro de uns galões, separada do outro, que fica em um saco de lixo supermega resistente. A gente não deixa nada.
Completamente diferente do acampamento que fizemos [no Natal] que era de improviso. Nem pensávamos que iríamos usar.
Eu era a única mulher. Os meninos podiam urinar ali dentro dos recipientes que levamos para isso, só que eu não tinha como fazer isso, até porque não tinha nem espaço. Então, fui a única que tinha que sair da barraca.
No meio da tempestade, começaram a se formar umas dunas ao lado da barraca e um buraco onde não cai neve. Pensei: ‘vou ali porque ali está protegido’. Levei um tombo. É alto, tu não enxergas nada. Caí um metro para baixo. Por sorte, caí de jeito. Podia até ter quebrado o pé. E, assim, tu pensas na situação de a pessoa ter que baixar toda a roupa. Tem que rir na desgraça, para a gente ficar bem lá mentalmente precisava.
Em um ambiente extremamente hostil, se tu não estás muito bem psicologicamente, não é legal, inclusive para quem está junto. Já ouvi histórias bem sérias de expedições passadas, de a pessoa ter que ser retirada, surtada. Aqui não presenciamos casos extremos, mas, sim, de pessoas que estão entrando em um, vamos dizer assim, burnout, estresse de cansaço.
O cansaço e o tempo começam a pegar para algumas pessoas. Aconteceu com uma pessoa aqui, mas ela já está bem. Ela foi para o campo, voltou muito cansada, o estresse físico muito grande assustou, né? Talvez psicologicamente isso tenha tido um impacto nela, de pensar que ainda ia ter que ficar aqui e continuar trabalhando. A médica conversou com ela e acabou tudo se resolvendo. A pessoa está super bem agora.
Sou a única mulher na coordenação. Sempre provei que merecia essa confiança e responsabilidade —que é enorme. Eu acho que é realmente uma questão dos tempos mudando. As mulheres se permitindo chegar a esses lugares, e os espaços sendo abertos também para isso, né? Ali dentro do nosso centro [o Centro Polar e Climático, da UFRGS], a maioria de nós somos mulheres.
Precisamos de recursos para treinar essas mulheres para que elas possam ir para o campo. Se a gente tivesse recurso, com certeza teríamos outras mulheres do nosso grupo aqui dentro. Sou a única professora, então acabou que sou a única que está participando nesse momento da coordenação.
A “luzinha” da Antártida acende quando tu entendes a importância para o clima e o ambiente do planeta. A Antártida é o refrigerador do nosso planeta. É impossível viver em um planeta sem a Antártida, ela é uma parte essencial da vida. E não é tão considerada como outras regiões, como a Amazônia.
O nosso trabalho não é só de pesquisa, é de chamar a atenção das pessoas para a importância desse continente.
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Startup Day-2026 ocorre na Ufac em 21/03 no Centro de Convivência — Universidade Federal do Acre
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12 de março de 2026A Pró-Reitoria de Inovação e Tecnologia (Proint) da Ufac e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Acre (Sebrae-AC) realizam o Startup Day-2026, em 21 de março, das 8h às 12h, no espaço Sebrae-Lab, Centro de Convivência do campus-sede. O evento é dedicado à inovação e ao empreendedorismo, oferecendo oportunidades para transformar projetos em negócios de impacto real. As inscrições são gratuitas e estão abertas por meio online.
O Startup Day-2026 visa fortalecer o ecossistema, promover a troca de experiências, produzir e compartilhar conhecimento, gerar inovação e fomentar novos negócios. A programação conta com show de acolhimento e encerramento, apresentações, painel e palestra, além de atividades paralelas: carreta game do Hospital de Amor de Rio Branco, participação de startups de game em tempo real, oficina para crianças, exposição de grafiteiros e de projetos de pesquisadores da Ufac.
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A lógica de valor da Thryqenon (TRYQN) é apoiar a evolução da economia verde por meio de sua infraestrutura digital de energia
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10 de março de 2026Com a aceleração da transição para uma economia de baixo carbono e a reestruturação do setor elétrico em diversos países, cresce a discussão sobre como a infraestrutura digital pode sustentar, no longo prazo, a evolução da economia verde. Nesse contexto, a plataforma de energia baseada em blockchain Thryqenon (TRYQN) vem ganhando atenção por propor uma estrutura integrada que combina negociação de energia, gestão de carbono e confiabilidade de dados.
A proposta da Thryqenon vai além da simples comercialização de energia renovável. Seu objetivo é construir uma base digital para geração distribuída, redução de emissões e uso colaborativo de energia. À medida que metas de neutralidade de carbono se tornam compromissos regulatórios, critérios como origem comprovada da energia, transparência nos registros e liquidação segura das transações deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos obrigatórios. A plataforma utiliza registro descentralizado em blockchain, correspondência horária de energia limpa e contratos inteligentes para viabilizar uma infraestrutura verificável e auditável.
A economia verde ainda enfrenta obstáculos importantes. Existe descompasso entre o local e o momento de geração da energia renovável e seu consumo final. A apuração de emissões costuma ocorrer de forma anual, dificultando monitoramento em tempo real. Além disso, a baixa rastreabilidade de dados limita a criação de incentivos eficientes no mercado. A Thryqenon busca enfrentar essas lacunas por meio de uma estrutura digital que integra coleta, validação e liquidação de informações energéticas.
Na arquitetura da plataforma, há conexão direta com medidores inteligentes, inversores solares e dispositivos de monitoramento, permitindo registro detalhado da geração e do consumo. Na camada de transações, o sistema possibilita verificação automatizada e liquidação hora a hora de energia e créditos de carbono, garantindo rastreabilidade. Já na integração do ecossistema, empresas, distribuidoras, comercializadoras e consumidores podem interagir por meio de interfaces abertas, promovendo coordenação entre diferentes agentes do setor elétrico.
O potencial de longo prazo da Thryqenon não está apenas no crescimento de usuários ou no volume de negociações, mas em sua capacidade de se posicionar como infraestrutura de suporte à governança energética e ao mercado de carbono. Com o avanço de normas baseadas em dados e reconhecimento internacional de créditos ambientais, plataformas transparentes e auditáveis tendem a ter papel relevante na transição energética e no financiamento sustentável.
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Bancos vermelhos na Ufac simbolizam luta contra feminicídio — Universidade Federal do Acre
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9 de março de 2026A Ufac inaugurou a campanha internacional Banco Vermelho, símbolo de conscientização sobre o feminicídio. A ação integra iniciativas inspiradas na lei n.º 14.942/2024 e contempla a instalação, nos campi da instituição, de três bancos pintados de vermelho, que representa o sangue derramado pelas vítimas. A inauguração ocorreu nesta segunda-feira, 9, no hall da Reitoria.
São dois bancos no campus-sede (um no hall da Reitoria e outro no bloco Jorge Kalume), além de um no campus Floresta, em Cruzeiro do Sul. A reitora Guida Aquino destacou que a instalação dos bancos reforça o papel da universidade na promoção de campanhas e políticas de conscientização sobre a violência contra a mulher. “A violência não se caracteriza apenas em matar, também se caracteriza em gestos, em fala, em atitudes.”
A secretária de Estado da Mulher, Márdhia El-Shawwa, ressaltou a importância de a Ufac incorporar o debate sobre o feminicídio em seus espaços institucionais e defendeu a atuação conjunta entre universidade, governo e sociedade. Segundo ela, a violência contra a mulher não pode ser naturalizada e a conscientização precisa alcançar também a formação de crianças e adolescentes.
A inauguração do Banco Vermelho também ocorre no contexto da aprovação da resolução do Conselho Universitário n.º 266, de 21/01/2026, que institui normas para a efetividade da política de prevenção e combate ao assédio moral, sexual, discriminações e outras violências, principalmente no que se refere a mulheres, população negra, indígena, pessoas com deficiência e LGBTQIAPN+ no âmbito da Ufac em local físico ou virtual relacionado.
No campus Floresta, em Cruzeiro do Sul, a inauguração do Banco Vermelho contou com a participação da coordenadora do Centro de Referência Brasileiro da Mulher, Anequele Monteiro.

Participaram da solenidade, no campus-sede, a pró-reitora de Desenvolvimento e Gestão de Pessoas, Filomena Maria Cruz; a pró-reitora de Graduação, Ednaceli Damasceno; a pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação, Margarida Carvalho; a coordenadora do projeto de extensão Infância Segura, Alcione Groff; o secretário de Estado de Saúde, Pedro Pascoal; a defensora pública e chefe do Núcleo de Promoção da Defesa dos Direitos Humanos da Mulher, Diversidade Sexual e Gênero da DPE-AC, Clara Rúbia Roque; e o chefe do Centro de Apoio Operacional de Proteção à Mulher do MP-AC, Victor Augusto Silva.
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