ACRE
Ainda estamos aqui, em 1964 – 22/11/2024 – Morte Sem Tabu
PUBLICADO
1 ano atrásem
Cynthia Araújo
Perto demais
Quando eu e uma colega fomos à casa da professora Elza Maria Miranda Afonso para convidá-la para ser paraninfa da nossa turma de direito na UFMG, ouvimos histórias de seus anos de faculdade. Ela foi aluna de Edgar de Godói da Mata-Machado, cujo filho, José Carlos Novaes da Mata Machado, foi torturado e morto por agentes do Estado durante a ditadura.
Quando Elza perdeu seus pais, Edgar perguntou a ela como estava lidando com seu luto: “sabe, Professor, eu tento viver e agir como se eles estivessem presentes”. “Eu também tento me conduzir pensando na aprovação do José Carlos”, ele respondeu.
José Carlos foi contemporâneo de Elza na faculdade de direito, mas nunca se formou. Enquanto a turma recebia os diplomas, ele estava preso. Seu pai foi um dos Paraninfos daquele ano de 1968, mesmo ano em que teve o mandato de deputado federal cassado com base no AI-5. Oito meses depois, Zé Carlos foi liberado. Novamente preso, em outubro de 1973, foi torturado até a morte.
Daquele dia na casa da Elzinha, não me lembro de nenhuma dessas informações, apenas do sentimento que nos unia: o horror à ditadura. Era julho de 2007 e, naquele momento, não imaginávamos que, nove anos depois, um futuro presidente exaltaria torturador em uma sessão da Câmara dos Deputados. Ou será que imaginávamos?
Cinco anos depois, Elzinha estava na minha banca de mestrado. Fiquei emocionada com a emoção dela. Eu falava sobre nazismo. E sobre como o autoritarismo está sempre perto demais.
Onde eu estava?
O livro “Ainda estou aqui”, de Marcelo Rubens Paiva, é um registro histórico. Pouca gente vai ler o relatório da Comissão Nacional da Verdade, que demonstrou, com base no acervo pessoal do coronel Júlio Miguel Molinas Dias – assassinado em 2012 em circunstâncias suspeitas – e nos testemunhos da ex-presa política Cecília de Barros Correia Viveiros de Castro e do ex-tenente médico do Exército Amílcar Lobo, que Rubens Paiva foi preso pela Aeronáutica e morto sob tortura no DOI-Codi (Departamento de Operações de Informação do Centro de Operações de Defesa Interna), centro que concentrava a repressão aos adversários do regime. Muitos lerão trechos importantes desse relatório em “Ainda estou aqui”.
No livro de Marcelo, existem nomes. Os nomes daqueles que, cinco décadas depois, seguem impunes.
O filme homônimo, que assisti na última semana com a minha mãe, parte da falta desses nomes e de suas responsabilizações. É um grito de desespero por memória, uma memória que podemos perder em breve caso não nos mobilizemos, junto dos museus, memoriais e monumentos que nunca criamos.
Minha mãe, em dificuldade de mastigar suas pipocas, pergunta, mais para si mesma do que para mim, onde estava que não viu aqueles tanques nas ruas do Rio de Janeiro. “Eu ia sempre lá no Centro, na rua da Alfândega”. Será que não viu, mãe? Ou não se lembra mais?
O que a gente não preserva a gente esquece. E quando a gente esquece, aumentam as chances de repetirmos, por pior que seja o que tenha acontecido.
Em 2019, apresentei um projeto de pesquisa de pós-doutorado na Alemanha perante a Capes. Pretendia “testar a hipótese de que a experiência alemã pode ajudar a estipular atitudes mínimas necessárias para preservação da democracia – tais como leis que punam a negação do passado e forcem o Estado a educar sobre crimes cometidos por ele mesmo e a preservar esse conhecimento por meio de espaços permanentes de memória (monumentos, museus, exibições) – e se isso é aplicável ao Brasil”.
Não consegui a bolsa que pleiteava, o que não chegou a ser uma surpresa. O texto do meu projeto começava da seguinte forma: “Nunca houve um fechamento sobre como o Brasil deve lidar com a tortura e as execuções praticadas durante sua ditadura militar. Mais do que isso, sentimentos de nostalgia por esse período e mesmo sua negação como um regime antidemocrático tornam-se mais e mais frequentes. O tema ganhou maior evidência em 2016, durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Roussef, quando, em um discurso de menos de 10 segundos, o atual presidente, Jair Bolsonaro, louvou um torturador responsável por torturas e assassinatos durante a ditadura”.
Quem assumiu a responsabilidade pelos crimes praticados durante a ditadura foi o Estado Brasileiro. Todos nós, até hoje, pagamos por isso. Não que devêssemos ser poupados. Faz parte do processo de redemocratização entender como as coisas chegaram aonde chegaram e como a coletividade deixou que chegassem até lá.
É um exercício que todos deveríamos fazer, especialmente aqueles que já haviam nascido na década de 1960. Como minha mãe se perguntou, todos deveriam se perguntar. Onde eu estava? O que eu via? O que meus pais faziam?
Mas existe, deveria existir, uma diferenciação sólida entre o que respondemos por ser parte de uma sociedade, e o que são nossas decisões e atos individuais. O que fizemos por imposição de um regime que nos ameaçava e o que se fez por vontade. E isso a gente não tem. No lugar de culpados, temos “a ditadura” como um grande monstro abstrato.
Ditadura não mata ninguém
Rubens Paiva não morreu pelas mãos de um grande monstro abstrato, mas porque pessoas o mataram. Pessoas o torturaram até a morte. E nós precisamos dos seus nomes.
O filme “Ainda estou aqui” nos pega tanto, porque fala de pessoas reais. De crianças reais que não tiveram oportunidade de se despedir do pai. Nunca tiveram. Não fizeram velório, nem mesmo choraram a perda juntas, porque, para cada uma, a morte chegou em um momento diferente.
A gente não se comove tanto por rostos desconhecidos e sem nome, assim como não se indigna o suficiente contra um monstro abstrato. Ditadura não mata ninguém. Pessoas matam.
Muito já se falou sobre como o filme é feito de silêncios e do pavor que paira no ar quando nada é dito. Dos traumas. Ditaduras se firmam no medo.
Mas democracias também. Enquanto assistia, ficava me perguntando quão diferente é o que tantas famílias negras passam todos os dias. Pensei em uma frase que escrevi num dos meus primeiros textos aqui no Morte sem Tabu, quando o adolescente João Pedro foi executado pela polícia no Rio de Janeiro – polícia que, por sinal, foi recentemente absolvida: “A família de João Pedro passou a noite procurando por notícias suas. Ele já estava morto. A polícia já sabia que ele estava morto. Mas a família continuava procurando por ele”.
Sim, eu sei que é diferente. Pessoas negras e pobres morrem todos os dias mesmo quando não estão lutando por um projeto melhor de país, mas apenas tentando existir.
Nunca estivemos tão perto
Talvez um dia eu escreva sobre o que senti quando li o nome João Paulo Burnier* na página 36 do livro de Marcelo Rubens Paiva. Até alguns anos atrás, eu só o conhecia pelo nome de “brigadeiro”, alguém de quem eu ouvi falar desde a infância. Alguém que, depois de comandar o lugar onde Rubens Paiva sofreu as primeiras torturas, depois de comandar o lugar onde foi torturado até a morte Stuart Angel, depois de planejar um ato que levaria à morte de milhares de pessoas – para que a culpa recaísse sobre os “comunistas”-, tornou-se apenas mais um cidadão no Rio de Janeiro, vivendo a própria vida, como tantos. Convivendo, quem sabe, até mesmo com famílias de suas próprias vítimas. Alguém que estava perto demais da minha família. Mas essa é outra história.
Por mais força que o audiovisual tenha sobre nós, e que bom que tem, enaltecer um filme e suas atuações é pouco. É muito pouco. Por mais que os olhares de Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, esse monumento que consegue se tornar tão marcante em poucos minutos de atuação sem fala, precisamos entender por que o filme nos toca exatamente onde toca. Nós nunca estivemos tão perto de repetir o passado. E, pelas últimas notícias, é por pura sorte que não estamos de volta ao Ato Institucional nº 5, de 1968.
*Embora no livro conste o nome de João Paulo Penido Burnier, o brigadeiro, filho de Otávio Penido Burnier e Margarida Moreira Penido Burnier, assinava como João Paulo Moreira Burnier.
Relacionado
VOCÊ PODE GOSTAR
ACRE
VÍDEO: Veja o que disse Ministra em julgamento do ex-governador Gladson Cameli
PUBLICADO
1 dia atrásem
16 de abril de 2026No julgamento desta quarta-feira, dia 15/04/2026, a Corte Especial do STJ, por unanimidade, determinou o imediato desentranhamento dos Relatórios de Inteligência Financeira de n°s 50157.2.8600.10853, 50285.2.8600.10853 e 50613.2.8600.10853, a fim de que fosse viabilizada a continuidade do julgamento de mérito da ação penal. A própria Ministra Relatora Nancy Andrighi foi quem suscitou referida questão de ordem, visando regularizar e atualizar o processo.
O jornalista Luis Carlos Moreira Jorge descreveu o contexto com as seguintes palavras:
SITUAÇÃO REAL
Para situar o que está havendo no STJ: o STF não determinou nulidade, suspensão de julgamento e retirada de pauta do processo do governador Gladson. O STF apenas pediu para desentranhar provas que foram consideradas ilegais pela segunda turma da Corte maior. E que não foram usadas nem na denúncia da PGR. O Gladson não foi julgado ontem em razão da extensão da pauta do STJ. O julgamento acontecerá no dia 6 de maio na Corte Especial do STJ, onde pode ser absolvido ou condenado. Este é o quadro real.
A posição descrita acima reflete corretamente o quadro jurídico do momento.
Veja o vídeo:
Relacionado
ACRE
Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre
PUBLICADO
1 semana atrásem
7 de abril de 2026A Ufac participou do lançamento do projeto Tecendo Teias na Aprendizagem, realizado na reserva extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira (AC). O evento ocorreu em 28 de março e reuniu representantes do poder público, comunidade acadêmica e moradores da reserva.
Com uma área de aproximadamente 750 mil hectares e cerca de 500 famílias, a Resex é território de preservação ambiental e de produção de saberes tradicionais. O projeto visa fortalecer a educação e promover a troca de conhecimentos entre universidade e comunidade.
O presidente da reserva, Nenzinho, destacou que a iniciativa contribui para valorizar a educação não apenas no ensino formal, mas também na qualidade da aprendizagem construída a partir das vivências no território. Segundo ele, a proposta reforça o papel da universidade na escuta e no reconhecimento dos saberes locais.
O coordenador do projeto, Rodrigo Perea, sintetizou a relação entre universidade e comunidade. “A floresta ensina, a comunidade ensina, os professores aprendem e a Ufac aprende junto.”
Também estiveram presentes no lançamento os professores da Ufac, Alexsande Franco, Anderson Mesquita e Tânia Mara; o senador Sérgio Petecão (PSD-AC); o prefeito de Sena Madureira, Gerlen Diniz (PP); e o agente do ICMBio, Aécio Santos.
(Fhagner Silva, estagiário Ascom/Ufac)
Relacionado
ACRE
Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre
PUBLICADO
1 semana atrásem
7 de abril de 2026Os professores Jhonatan Gomes Gadelha e Shirley Regina de Almeida Batista, do curso de Educação Física da Ufac, realizaram a mostra de dança NT: Sementes de uma Pioneira, em homenagem à professora aposentada Norma Tinoco, reunindo turmas de bacharelado e licenciatura, escolas de dança e artistas independentes. O evento ocorreu na noite de 25 de março, no Teatro Universitário, campus-sede, visando celebrar a trajetória da homenageada pela inserção e legitimação da dança no curso.
Norma recebeu uma placa comemorativa pelos serviços prestados à universidade. Os alunos do curso, André Albuquerque (bacharelado) e Matheus Cavalcante (licenciatura) fizeram a entrega solene. Segundo os organizadores, os anos de dedicação da professora ao curso e seu pioneirismo jamais serão esquecidos.
“A ideia, que ganhou corpo e emoção ao longo de quatro atos, nasceu do coração de quem viveu de perto a influência da homenageada”, disse Jhonatan Gomes Gadelha, que foi aluno de Norma na graduação. Ele contou que a mostra surgiu de uma entrevista feita com ela por ocasião do trabalho dele de conclusão de curso, em 2015. “As falas, os ensinamentos e as memórias compartilhadas por Norma naquele momento foram resgatadas e transformadas em movimento”, lembrou.
Gadelha explicou que as músicas que embalaram as coreografias autorais foram criadas com o auxílio de inteligência artificial. “Um encontro simbólico entre a tradição plantada pela pioneira e as ferramentas do futuro. O resultado foi uma apresentação carregada de bagagem emocional, autenticidade e reverência à história que se contava no palco.”
Mostra em 4 atos
A professora de Educação Física, Franciely Gomes Gonçalves, também ex-aluna de Norma, foi a mestre de cerimônias e guiou o público por uma narrativa que comparava a trajetória da homenageada ao crescimento de uma árvore: “A Pioneira: A Raiz (ato I), “A Transformadora: O Tronco” (ato II), “O Legado: Os Frutos” (ato III) e “Homenagem Final: O reconhecimento” (ato IV).
O ato I trouxe depoimentos em vídeo e ao vivo, além de coreografias como “Homem com H” (com os 2º períodos de bacharelado e licenciatura) e “K Dance”, que homenageou os anos 1970. O ex-bolsista Kelvin Wesley subiu ao palco para saudar a professora. A escola de dança Adorai também marcou presença com as variações de Letícia e Rayelle Bianca, coreografadas por Caline Teodoro, e o carimbó foi apresentado pelo professor Jhon e pela aluna Kethelen.

O ato II contou com o depoimento ao vivo de Jhon Gomes, ex-aluno que seguiu carreira artística e acadêmica, narrando um momento específico que mudou sua trajetória. Ele também apresentou um solo de dança, seguido por coreografias da turma de licenciatura e uma performance de ginástica acrobática do 4º período.
No ato III foi exibido um vídeo em que os atuais alunos do curso de Educação Física refletiram sobre o que a dança significa em suas formações. As apresentações incluíram o Atelier Escola de Dança com “Entre o que Fica e o que Parte” (Ana Fonseca e Elias Daniel), o Estúdio de Artes Balancé com “Estrelas” (coreografia de Lucas Souza) e a Cia. de Dança Jhon Gomes, com outra versão de “Estrelas”. A escola Adorai retornou com “Sarça Ardente”, coreografada por Lívia Teodoro; os alunos do 2º período de bacharelado encerraram o ato.
No ato IV, após o ministério de dança Plenitude apresentar “Raridade”, música de Anderson Freire, a professora Shirley Regina subiu ao palco para oferecer palavras à homenageada. Em seguida, a mestre de cerimônias convidou Norma Tinoco a entrar em cena. Ao som de “Muda Tudo”, os alunos formaram um círculo ao redor da professora, cantando o refrão em coro.
Relacionado
PESQUISE AQUI
MAIS LIDAS
Economia e Negócios2 dias agoSambaex apresenta plano estratégico no Brasil e projeta crescimento com foco em inovação e responsabilidade social até 2028
Oportunidade8 horas agoBolsa americana: BNED dispara mais de 5% e reacende interesse do mercado após rompimento técnico relevante
DINHEIRO1 dia agoBarnes & Noble Education (BNED) avança na transformação do ensino superior e reacende o interesse do mercado
ACRE1 dia agoVÍDEO: Veja o que disse Ministra em julgamento do ex-governador Gladson Cameli
Warning: Undefined variable $user_ID in /home/u824415267/domains/acre.com.br/public_html/wp-content/themes/zox-news/comments.php on line 48
You must be logged in to post a comment Login