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Como Braga Netto passou de burocrata discreto a militante – 21/12/2024 – Poder

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Fabio Victor

Desde quando alcançou projeção nacional, ao ser nomeado interventor federal da segurança pública no Rio, em 2018, o general Walter Braga Netto chamava a atenção pela reserva e discrição.

Assumiu a missão a contragosto. Era contrário à intervenção, uma cartada política do governo Temer, cuja popularidade estava em ruínas, e foi obrigado pelo então comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, a ocupar a função –que naturalmente caberia ao comandante militar do Leste, cargo que ocupava.

Sempre ressaltou ter ojeriza a ser fotografado. Sua trajetória no Exército foi marcada por um perfil mais burocrático e gerencial do que político. Longe de ser um estrategista, era considerado um administrador competente, um oficial pragmático, um descascador de abacaxis.

A entrada no mundo palaciano, com a nomeação para ser ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, em 2020, a quatro meses de passar para a reserva, suscitou uma questão, que ganhou mais pertinência desde então e é agora revigorada pela prisão de Braga Netto: como um general de quatro estrelas avesso a holofotes e sem vocação nem traquejo político se transformou primeiro num ator político e depois num militante bolsonarista e um suspeito, conforme as investigações da Polícia Federal, de tramar um golpe de Estado?

Braga Netto está detido num alojamento no quartel-general da 1ª Divisão de Exército, na Vila Militar, no Rio, para onde foi levado no dia 14 depois de ser preso pela manhã em seu apartamento em Copacabana.

Solicitada pela PF, a prisão preventiva foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), após parecer favorável da PGR (Procuradoria-Geral da República). Segundo a PF, o general da reserva teve participação ativa no plano de impedir, por meio de um golpe, a posse do presidente Lula e ainda tentou obstruir a Justiça ao tentar atrapalhar as investigações.

Braga Netto nega as acusações e, por meio de advogados, afirma que irá provar sua inocência.

Como quase tudo que cerca Braga Netto, o quebra-cabeças da conversão do general é obscuro e intrincado. Militares que trabalharam com ele apontam três motivos principais para a guinada política/radical: 1) o combo de poder e benesses ofertado aos que chegam aonde ele chegou; 2) a convivência cotidiana com Jair Bolsonaro (PL) e o entorno paranoico-golpista do capitão; 3) a lealdade cega ao ex-presidente desde o momento em que passou a ser seu subordinado.

Tal lealdade, aliás, foi um dos argumentos –ou recados– usados recentemente por Braga Netto, via advogados, para rebater a tese lançada por Bolsonaro, também por meio de defensores, de que militares de alta patente (como Braga Netto e Augusto Heleno) usariam a trama golpista no fim de 2022 para derrubá-lo e assumir o poder —e não para mantê-lo no cargo.

Em nota, os advogados de Braga Netto afirmaram que o general “foi um dos poucos, entre civis e militares, que manteve a lealdade ao presidente Bolsonaro até o final do governo (…) e a mantém até os dias atuais”.

A Guerra Fria entre militares encrencados com a PF e a Justiça é o desfecho de uma parceria que começa antes mesmo de Bolsonaro ser eleito, com a volta escancarada dos fardados à ribalta política no governo Temer –e que na caserna teve como articuladores os generais Villas Bôas e Sergio Etchegoyen.

A intervenção liderada por Braga Netto e pelo general Richard Nunes –por ele nomeado secretário de Segurança Pública– teve um início desastroso, num Rio desgovernado, cujo trágico emblema foi o assassinato da vereadora Marielle Franco. Quando as verbas federais começaram a chegar, medidas paliativas atenuaram parcialmente a crise, com o pagamento de salários atrasados a policiais e fornecedores e compra de novos equipamentos.

Num segundo momento, houve redução de alguns índices de violência, notadamente roubos de cargas e de veículos. Foi pouco, mas, junto à sensação de segurança trazida pela presença de tanques e tropas em áreas conflagradas, bastou para que 72% da população aprovassem a intervenção e defendessem a sua continuidade, segundo pesquisa Datafolha.

O Exército considerou um êxito o seu papel na intervenção. Entidades que pesquisam violência urbana e grupos de direitos humanos têm avaliação oposta –de que foi um fracasso. É fato que atenuou por um período o problema crônico de segurança no Rio, mas a um custo de ao menos R$ 1,2 bilhão em recursos federais.

Seja como for, a intervenção cacifou politicamente Braga Netto, que em seguida foi nomeado chefe do Estado-Maior do Exército (o número dois da corporação), função que exerceu por menos de um ano até virar ministro de Bolsonaro.

Em março passado, surgiram ecos da intervenção, com a prisão dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão e do delegado Rivaldo Barbosa (ex-chefe da da Polícia Civil do RJ), apontados como mandantes da morte de Marielle. Braga Netto rifou Richard ao afirmar que coube ao então secretário a nomeação de Rivaldo.

Richard –que hoje é chefe do Estado-Maior do Exército– foi contido ao se queixar publicamente da postura, mas, nos bastidores, considerou uma impostura do ex-aliado.

Braga Netto caiu de vez em desgraça com a atual cúpula do Exército quando vieram à tona as mensagens em que ele desanca o general Freire Gomes e o brigadeiro Baptista Jr, então comandantes do Exército e da Aeronáutica.

Enfureceu particularmente os integrantes do Alto Comando a interlocução de Braga Netto com o ex-capitão Ailton Barros, expulso do Exército por uma série de transgressões e tido no Quartel-General da força terrestre como uma figura execrável.

Braga Netto não tinha amizade com Bolsonaro, e os generais Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos foram os padrinhos de sua entrada no governo. Na Casa Civil, a reputação de bom administrador do ex-interventor caiu por terra com o fiasco do governo na condução da pandemia da Covid.

Não para Bolsonaro, que prestigiou seus generais palacianos com benesses como uma portaria que lhes permitiu acumular salários e aposentadorias acima do teto constitucional –Braga Netto foi um dos agraciados. Em apenas dois meses de 2020, durante a pandemia, ele recebeu R$ 926 mil.

Depois da Casa Civil, o ex-interventor foi transferido para o Ministério da Defesa, cujo titular (general Fernando Azevedo) Bolsonaro não considerava leal o bastante. Braga Netto aumentou seu cacife com o chefe a ponto de ter sido escolhido como candidato a vice na sua chapa da reeleição.

Para um general que conviveu com Braga Netto, a raiz da conversão acrítica dele e de outros militares ao bolsonarismo é muito menos ideológica do que pragmática, associada a poder e dinheiro.

Instado a esclarecer a questão, um coronel da reserva que trabalhou com políticos e generais em diferentes governos desde a redemocratização respondeu com um artigo narrando a fábula de um sujeito que se fascina com a mulher do vizinho e termina mal, por ser um daqueles “que se deslumbram com um poder que não é o seu”.



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VÍDEO: Veja o que disse Ministra em julgamento do ex-governador Gladson Cameli

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No julgamento desta quarta-feira, dia 15/04/2026, a Corte Especial do STJ, por unanimidade, determinou o imediato desentranhamento dos Relatórios de Inteligência Financeira de n°s 50157.2.8600.10853, 50285.2.8600.10853 e 50613.2.8600.10853, a fim de que fosse viabilizada a continuidade do julgamento de mérito da ação penal. A própria Ministra Relatora Nancy Andrighi foi quem suscitou referida questão de ordem, visando regularizar e atualizar o processo. 

O jornalista Luis Carlos Moreira Jorge descreveu o contexto com as seguintes palavras:

SITUAÇÃO REAL
Para situar o que está havendo no STJ: o STF não determinou nulidade, suspensão de julgamento e retirada de pauta do processo do governador Gladson. O STF apenas pediu para desentranhar provas que foram consideradas ilegais pela segunda turma da Corte maior. E que não foram usadas nem na denúncia da PGR. O Gladson não foi julgado ontem em razão da extensão da pauta do STJ. O julgamento acontecerá no dia 6 de maio na Corte Especial do STJ, onde pode ser absolvido ou condenado. Este é o quadro real.

A posição descrita acima reflete corretamente o quadro jurídico do momento.

Veja o vídeo:

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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

A Ufac participou do lançamento do projeto Tecendo Teias na Aprendizagem, realizado na reserva extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira (AC). O evento ocorreu em 28 de março e reuniu representantes do poder público, comunidade acadêmica e moradores da reserva.

Com uma área de aproximadamente 750 mil hectares e cerca de 500 famílias, a Resex é território de preservação ambiental e de produção de saberes tradicionais. O projeto visa fortalecer a educação e promover a troca de conhecimentos entre universidade e comunidade.

O presidente da reserva, Nenzinho, destacou que a iniciativa contribui para valorizar a educação não apenas no ensino formal, mas também na qualidade da aprendizagem construída a partir das vivências no território. Segundo ele, a proposta reforça o papel da universidade na escuta e no reconhecimento dos saberes locais.

O coordenador do projeto, Rodrigo Perea, sintetizou a relação entre universidade e comunidade. “A floresta ensina, a comunidade ensina, os professores aprendem e a Ufac aprende junto.” 

Também estiveram presentes no lançamento os professores da Ufac, Alexsande Franco, Anderson Mesquita e Tânia Mara; o senador Sérgio Petecão (PSD-AC); o prefeito de Sena Madureira, Gerlen Diniz (PP); e o agente do ICMBio, Aécio Santos.
(Fhagner Silva, estagiário Ascom/Ufac)



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Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre

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Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre

 Os professores Jhonatan Gomes Gadelha e Shirley Regina de Almeida Batista, do curso de Educação Física da Ufac, realizaram a mostra de dança NT: Sementes de uma Pioneira, em homenagem à professora aposentada Norma Tinoco, reunindo turmas de bacharelado e licenciatura, escolas de dança e artistas independentes. O evento ocorreu na noite de 25 de março, no Teatro Universitário, campus-sede, visando celebrar a trajetória da homenageada pela inserção e legitimação da dança no curso.

Norma recebeu uma placa comemorativa pelos serviços prestados à universidade. Os alunos do curso, André Albuquerque (bacharelado) e Matheus Cavalcante (licenciatura) fizeram a entrega solene. Segundo os organizadores, os anos de dedicação da professora ao curso e seu pioneirismo jamais serão esquecidos.

“A ideia, que ganhou corpo e emoção ao longo de quatro atos, nasceu do coração de quem viveu de perto a influência da homenageada”, disse Jhonatan Gomes Gadelha, que foi aluno de Norma na graduação. Ele contou que a mostra surgiu de uma entrevista feita com ela por ocasião do trabalho dele de conclusão de curso, em 2015. “As falas, os ensinamentos e as memórias compartilhadas por Norma naquele momento foram resgatadas e transformadas em movimento”, lembrou.

Gadelha explicou que as músicas que embalaram as coreografias autorais foram criadas com o auxílio de inteligência artificial. “Um encontro simbólico entre a tradição plantada pela pioneira e as ferramentas do futuro. O resultado foi uma apresentação carregada de bagagem emocional, autenticidade e reverência à história que se contava no palco.”

Mostra em 4 atos

A professora de Educação Física, Franciely Gomes Gonçalves, também ex-aluna de Norma, foi a mestre de cerimônias e guiou o público por uma narrativa que comparava a trajetória da homenageada ao crescimento de uma árvore: “A Pioneira: A Raiz (ato I), “A Transformadora: O Tronco” (ato II), “O Legado: Os Frutos” (ato III) e “Homenagem Final: O reconhecimento” (ato IV).

O ato I trouxe depoimentos em vídeo e ao vivo, além de coreografias como “Homem com H” (com os 2º períodos de bacharelado e licenciatura) e “K Dance”, que homenageou os anos 1970. O ex-bolsista Kelvin Wesley subiu ao palco para saudar a professora. A escola de dança Adorai também marcou presença com as variações de Letícia e Rayelle Bianca, coreografadas por Caline Teodoro, e o carimbó foi apresentado pelo professor Jhon e pela aluna Kethelen.

O ato II contou com o depoimento ao vivo de Jhon Gomes, ex-aluno que seguiu carreira artística e acadêmica, narrando um momento específico que mudou sua trajetória. Ele também apresentou um solo de dança, seguido por coreografias da turma de licenciatura e uma performance de ginástica acrobática do 4º período.

No ato III foi exibido um vídeo em que os atuais alunos do curso de Educação Física refletiram sobre o que a dança significa em suas formações. As apresentações incluíram o Atelier Escola de Dança com “Entre o que Fica e o que Parte” (Ana Fonseca e Elias Daniel), o Estúdio de Artes Balancé com “Estrelas” (coreografia de Lucas Souza) e a Cia. de Dança Jhon Gomes, com outra versão de “Estrelas”. A escola Adorai retornou com “Sarça Ardente”, coreografada por Lívia Teodoro; os alunos do 2º período de bacharelado encerraram o ato.

No ato IV, após o ministério de dança Plenitude apresentar “Raridade”, música de Anderson Freire, a professora Shirley Regina subiu ao palco para oferecer palavras à homenageada. Em seguida, a mestre de cerimônias convidou Norma Tinoco a entrar em cena. Ao som de “Muda Tudo”, os alunos formaram um círculo ao redor da professora, cantando o refrão em coro.

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