NOSSAS REDES

ACRE

Como policiais do Quênia patrulham um Haiti tomado pelas gangues – 12/10/2024 – Mundo

PUBLICADO

em

Frances Robles

Se os carros queimados, as escolas crivadas de balas, os edifícios demolidos e as ruas desoladas no centro de Porto Príncipe não fossem evidência suficiente das coisas terríveis que aconteceram aqui, alguém deixou um sinal ainda mais tenebroso: crânios no meio da rua.

Uma caveira humana fincada em um bastão com outra no chão ao lado, em frente a um escritório do governo, aparentemente foi colocada como uma mensagem ameaçadora de membros de gangues para os policiais quenianos e haitianos que tentam restaurar a ordem no Haiti: “Cuidado, nós dominamos estas ruas”.

Um policial queniano vestindo colete à prova de balas e capacete e patrulhando em um veículo blindado americano tirou uma foto com seu celular, enquanto outro manobrava o veículo ao redor dos crânios.

Eu, junto com um fotógrafo do New York Times, participei de uma patrulha por Porto Príncipe, a capital do Haiti, com uma missão de segurança multinacional liderada pelo Quênia implantada no país. Durante essas seis horas de patrulha, os quenianos foram em grande parte ignorados pelas pessoas na rua e ocasionalmente provocados; o veículo foi baleado uma vez.

A patrulha ofereceu um vislumbre dos enormes desafios que a força queniana enfrenta ao tentar retomar o controle de Porto Príncipe de grupos armados que desmantelaram a vida no país, matando indiscriminadamente, estuprando mulheres, incendiando bairros e deixando centenas de milhares famintos e em abrigos improvisados.

A rota percorrida pelos agentes revelou muitos edifícios que a polícia demoliu para tentar eliminar esconderijos de gangues.

Os agentes também viajaram até o porto de Porto Príncipe —o principal canal para alimentos, remédios e outras mercadorias para o Haiti— sempre alertas para potenciais atiradores escondidos nos telhados.

No porto, trabalhadores estavam colocando mercadorias em uma balsa para uma nova rota marítima para transportar itens para as províncias por água, evitando os redutos de gangues em terra.

Os agentes, cujos supervisores não foram autorizados a dar entrevistas, disseram que recentemente intensificaram suas operações em um esforço para pressionar as gangues em várias frentes.

Um dia depois, um trabalhador portuário foi baleado e ferido.

Nesse mesmo dia, os quenianos se envolveram em um tiroteio com membros de gangues em motocicletas e encontraram os caminhos para o porto bloqueados.

“O que me surpreendeu tanto quando cheguei aqui é como as gangues ousam atacar em plena luz do dia”, disse Godfrey Otunge, o comandante queniano da força policial multinacional, em uma entrevista. “Como isso pode acontecer?”

Desde que os primeiros agentes quenianos chegaram em junho, as autoridades falam em avanços importantes à medida que a vida em alguns bairros lentamente retorna ao normal.

O aeroporto de Porto Príncipe foi reaberto depois que as gangues foram removidas de seu perímetro. Muitos vendedores ambulantes estão de volta ao trabalho, e as gangues também foram expulsas do principal hospital público da capital.

Mas os agentes quenianos estão em grande desvantagem numérica, e as gangues fortemente armadas permanecem firmemente entrincheiradas em muitas partes de Porto Príncipe. Grandes áreas continuam sendo zonas proibidas, incluindo o centro da cidade e a área ao redor da Embaixada dos EUA. As gangues não controlam mais o hospital público, mas ele está em ruínas e não foi reaberto.

Grupos criminosos também expandiram seu controle fora da capital, tomando três estradas principais que ligam Porto Príncipe a outras partes do país e sitiando cidades e vilarejos menores que a força internacional não tem recursos para alcançar.

Na semana passada, uma gangue no Vale do Artibonite, na parte central do país, atacou uma cidade, deixando 88 pessoas mortas, incluindo 10 membros de gangues.

Mais de 700.000 pessoas que fugiram de suas casas durante uma onda de violência no último ano e meio ainda não conseguem retornar. Metade da população do país —cerca de 5,4 milhões de pessoas— luta para se alimentar todos os dias, e pelo menos 6.000 pessoas vivendo em acampamentos precários enfrentam fome, de acordo com uma análise divulgada recentemente por um grupo de especialistas globais.

O Haiti tem sido assolado por níveis surpreendentes de violência de gangues por mais de três anos, desde que o último presidente eleito do país, Jovenel Moïse, foi assassinado.

Muitas pessoas que fugiram da violência passaram a residir em escolas públicas e prédios do governo. Quase 3.700 pessoas foram mortas este ano, segundo as Nações Unidas.

As estradas bloqueadas que levam para dentro e fora de Porto Príncipe tornam “quase impossível” para a polícia intervir a tempo quando as gangues atacam novos locais fora da área metropolitana, disse o primeiro-ministro do Haiti, Garry Conille, em uma reunião em Nova York no mês passado.

Mas a força liderada pelo Quênia é pequena. Se o plano original era o envio de 2.500 agentes, a força conta hoje com pouco mais de 400. Do outro lado, especialistas estimam que até 15.000 pessoas são membros de 200 gangues haitianas.

A missão de US$ 600 milhões foi aprovada pelas Nações Unidas, mas é em grande parte financiada e organizada pelos Estados Unidos. Ela depende de contribuições voluntárias e, até agora, recebeu US$ 369 milhões dos Estados Unidos e US$ 85 milhões de outras nações.

O governo Biden anunciou recentemente uma alocação de ajuda separada —US$ 160 milhões— para a Polícia Nacional do Haiti.

O ministro das Relações Exteriores do Quênia, Musalia W. Mudavadi, disse na reunião do mês passado em Nova York que 400 agentes só poderiam ser eficazes até certo ponto, deixando claro que as capacidades da força estavam prejudicadas.

O governo Biden está tentando transformar o envio dos policiais quenianos em uma missão oficial de manutenção da paz da ONU, o que exigiria que os estados membros contribuíssem com dinheiro e pessoal.

Transformar o envio queniano em uma missão de manutenção da paz pode ser a única maneira de libertar o Haiti do domínio das gangues e permitir a realização de eleições para escolher um novo presidente, disseram especialistas.

As operações de manutenção da paz da ONU têm uma longa e complicada história no Haiti, repleta de abusos sexuais e saneamento precário que trouxe cólera ao país e causou milhares de mortes.

Mas, apesar dos problemas passados, o chefe do conselho presidencial de transição do Haiti, que é responsável por definir as eleições, instou as Nações Unidas a retornarem.

“Estou convencido de que essa mudança de status, ao reconhecer que os erros do passado não podem ser repetidos, garantiria o pleno sucesso da missão”, disse o presidente interino do Haiti, Edgard Leblanc Fils, à Assembleia Geral da ONU no mês passado.

Carlos Hercule, ministro da Justiça do Haiti, disse que estava se sentindo impaciente porque muitos policiais haitianos deixaram o país, acrescentando que o Haiti precisava de um destacamento reforçado em breve.

Otunge, ex-diretor de operações de segurança da Polícia do Quênia que participou de missões de paz no Sudão do Sul e na Somália, pediu paciência.

Ele não vai parar, disse, até que o Haiti “recupere sua glória.”

“Eu não posso falhar com o povo haitiano”, disse Otunge. “Nunca falhei, e não estou pronto para falhar no Haiti.”



Leia Mais: Folha

Advertisement
Comentários

Warning: Undefined variable $user_ID in /home/u824415267/domains/acre.com.br/public_html/wp-content/themes/zox-news/comments.php on line 48

You must be logged in to post a comment Login

Comente aqui

ACRE

Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

PUBLICADO

em

Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

A Ufac participou do lançamento do projeto Tecendo Teias na Aprendizagem, realizado na reserva extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira (AC). O evento ocorreu em 28 de março e reuniu representantes do poder público, comunidade acadêmica e moradores da reserva.

Com uma área de aproximadamente 750 mil hectares e cerca de 500 famílias, a Resex é território de preservação ambiental e de produção de saberes tradicionais. O projeto visa fortalecer a educação e promover a troca de conhecimentos entre universidade e comunidade.

O presidente da reserva, Nenzinho, destacou que a iniciativa contribui para valorizar a educação não apenas no ensino formal, mas também na qualidade da aprendizagem construída a partir das vivências no território. Segundo ele, a proposta reforça o papel da universidade na escuta e no reconhecimento dos saberes locais.

O coordenador do projeto, Rodrigo Perea, sintetizou a relação entre universidade e comunidade. “A floresta ensina, a comunidade ensina, os professores aprendem e a Ufac aprende junto.” 

Também estiveram presentes no lançamento os professores da Ufac, Alexsande Franco, Anderson Mesquita e Tânia Mara; o senador Sérgio Petecão (PSD-AC); o prefeito de Sena Madureira, Gerlen Diniz (PP); e o agente do ICMBio, Aécio Santos.
(Fhagner Silva, estagiário Ascom/Ufac)



Leia Mais: UFAC

Continue lendo

ACRE

Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre

PUBLICADO

em

Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre

 Os professores Jhonatan Gomes Gadelha e Shirley Regina de Almeida Batista, do curso de Educação Física da Ufac, realizaram a mostra de dança NT: Sementes de uma Pioneira, em homenagem à professora aposentada Norma Tinoco, reunindo turmas de bacharelado e licenciatura, escolas de dança e artistas independentes. O evento ocorreu na noite de 25 de março, no Teatro Universitário, campus-sede, visando celebrar a trajetória da homenageada pela inserção e legitimação da dança no curso.

Norma recebeu uma placa comemorativa pelos serviços prestados à universidade. Os alunos do curso, André Albuquerque (bacharelado) e Matheus Cavalcante (licenciatura) fizeram a entrega solene. Segundo os organizadores, os anos de dedicação da professora ao curso e seu pioneirismo jamais serão esquecidos.

“A ideia, que ganhou corpo e emoção ao longo de quatro atos, nasceu do coração de quem viveu de perto a influência da homenageada”, disse Jhonatan Gomes Gadelha, que foi aluno de Norma na graduação. Ele contou que a mostra surgiu de uma entrevista feita com ela por ocasião do trabalho dele de conclusão de curso, em 2015. “As falas, os ensinamentos e as memórias compartilhadas por Norma naquele momento foram resgatadas e transformadas em movimento”, lembrou.

Gadelha explicou que as músicas que embalaram as coreografias autorais foram criadas com o auxílio de inteligência artificial. “Um encontro simbólico entre a tradição plantada pela pioneira e as ferramentas do futuro. O resultado foi uma apresentação carregada de bagagem emocional, autenticidade e reverência à história que se contava no palco.”

Mostra em 4 atos

A professora de Educação Física, Franciely Gomes Gonçalves, também ex-aluna de Norma, foi a mestre de cerimônias e guiou o público por uma narrativa que comparava a trajetória da homenageada ao crescimento de uma árvore: “A Pioneira: A Raiz (ato I), “A Transformadora: O Tronco” (ato II), “O Legado: Os Frutos” (ato III) e “Homenagem Final: O reconhecimento” (ato IV).

O ato I trouxe depoimentos em vídeo e ao vivo, além de coreografias como “Homem com H” (com os 2º períodos de bacharelado e licenciatura) e “K Dance”, que homenageou os anos 1970. O ex-bolsista Kelvin Wesley subiu ao palco para saudar a professora. A escola de dança Adorai também marcou presença com as variações de Letícia e Rayelle Bianca, coreografadas por Caline Teodoro, e o carimbó foi apresentado pelo professor Jhon e pela aluna Kethelen.

O ato II contou com o depoimento ao vivo de Jhon Gomes, ex-aluno que seguiu carreira artística e acadêmica, narrando um momento específico que mudou sua trajetória. Ele também apresentou um solo de dança, seguido por coreografias da turma de licenciatura e uma performance de ginástica acrobática do 4º período.

No ato III foi exibido um vídeo em que os atuais alunos do curso de Educação Física refletiram sobre o que a dança significa em suas formações. As apresentações incluíram o Atelier Escola de Dança com “Entre o que Fica e o que Parte” (Ana Fonseca e Elias Daniel), o Estúdio de Artes Balancé com “Estrelas” (coreografia de Lucas Souza) e a Cia. de Dança Jhon Gomes, com outra versão de “Estrelas”. A escola Adorai retornou com “Sarça Ardente”, coreografada por Lívia Teodoro; os alunos do 2º período de bacharelado encerraram o ato.

No ato IV, após o ministério de dança Plenitude apresentar “Raridade”, música de Anderson Freire, a professora Shirley Regina subiu ao palco para oferecer palavras à homenageada. Em seguida, a mestre de cerimônias convidou Norma Tinoco a entrar em cena. Ao som de “Muda Tudo”, os alunos formaram um círculo ao redor da professora, cantando o refrão em coro.

//www.instagram.com/embed.js



Leia Mais: UFAC

Continue lendo

ACRE

I FÓRUM ESTADUAL "Autismo, Cultura, Mercado de Trabalho e Políticas Públicas no Acre."

PUBLICADO

em

I FÓRUM ESTADUAL "Autismo, Cultura, Mercado de Trabalho e Políticas Públicas no Acre."

09 e 10 de ABRIL
Local: Teatro Universitário da UFAC
11 de ABRIL
Local: Anfiteatro Garibaldi Brasil UFAC

Mais informações

 



Leia Mais: UFAC

Continue lendo

MAIS LIDAS