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Eleições municipais 2024: polarização de gênero? – 27/10/2024 – Marcus Melo

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Nas eleições presidenciais americanas, nas eleições gerais na Europa e também nas municipais no Brasil há referências ubíquas a um suposto novo fenômeno no eleitorado: a clivagem de gênero (gender cleavage ou gap). O eleitorado feminino agora seria de esquerda, enquanto o masculino de direita. Ocorre que esta tendência não é exatamente nova; ela pode ser observada há pelo menos 50 anos (ou até 70 anos) em muitos países europeus e 30 anos nos EUA. No Brasil é mais recente, mas não apareceu agora.

Quando o sufrágio feminino adquiriu força no período entre as duas guerras mundiais e se generalizou no pós-guerra, a percepção geral era que o voto feminino era conservador. Há evidências nesse sentido para o período entre 1900 e 1955, quando o gap desaparece. Em “The Civic Culture” (1963), o primeiro grande estudo sobre valores e opinião pública, um clássico reverenciado da ciência política, Gabriel Almond e Sidney Verba concluíram que “o comportamento político das mulheres divergia dos homens apenas no sentido de ser mais apático, paroquial e conservador”.

Como mostraram Ronald Inglehart e Pipa Norris, em 1970, em países como Alemanha e Itália, o diferencial entre o voto de homens e mulheres —valores maiores entre estas últimas— nos partidos de direita era ainda da ordem de 15%. Na Escandinávia, o viés à esquerda do eleitorado já existia. Mas logo ocorreu um realinhamento em sentido contrário, pelo qual as mulheres passaram a votar predominantemente nos partidos de centro-esquerda ou esquerda. No eleitorado masculino praticamente não ocorreu mudanças: a clivagem de gênero é produto de uma metamorfose concentrada no eleitorado feminino. O que deu lugar a hipóteses rivais sobre quais seriam seus determinantes (que fica para outra coluna).

Nas eleições de 2024 nos EUA, 60% das mulheres com curso superior tendem a se identificar com o Partido Democrata. Este percentual é muito superior nas chamadas geração Y (millenials, aqueles nascidos entre 1981 e 1996) e Z (1997-2010). A superposição de clivagens entre os “brâmanes” (com curso superior) e mais jovens produz bolhas de eleitores à esquerda. Há fortes evidências que a questão é geracional e não relacionada ao ciclo de vida no qual as preferências políticas mudam com a idade (o que também ocorre). Trata-se de tendência nas democracias da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), não se restringindo aos EUA. A principal consequência desta constatação é que esta tendência é estrutural e a clivagem tende a aumentar.

Na Europa, o fenômeno é de fato mais antigo e a tendência à ampliação monotônica do diferencial de votos por gênero podia ser observada na década de 1980, mas ocorreu forte inflexão entre os anos 1990 e 2000. Esta inflexão precede a atual onda populista e ascensão de líderes da direita radical.

No Brasil, as evidências de clivagem de gênero nas eleições presidenciais de 2022 e nas municipais de 2024 são inequívocas e seguem a tendência das democracias da OCDE expressa na rejeição de candidatos da direita radical pelo eleitorado feminino, como ficou claro em São Paulo. Mas clivagem de gênero não implica necessariamente polarização política de gênero. O fenômeno existe muito antes de evidências sobre polarização e, em particular, polarização efetiva.


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Cerimônia do Jaleco marca início de jornada da turma XVII de Nutrição — Universidade Federal do Acre

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No dia 28 de março de 2026, foi realizada a Cerimônia do Jaleco da turma XVII do curso de Nutrição da Universidade Federal do Acre. O evento simbolizou o início da trajetória acadêmica dos estudantes, marcando um momento de compromisso com a ética, a responsabilidade e o cuidado com a saúde.

 

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Ufac realiza aula inaugural do MPCIM em Epitaciolândia — Universidade Federal do Acre

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Ufac realiza aula inaugural do MPCIM em Epitaciolândia — Universidade Federal do Acre

A Ufac realizou a aula inaugural da turma especial do mestrado profissional em Ensino de Ciência e Matemática (MPCIM) no município de Epitaciolândia (AC), também atendendo moradores de Brasileia (AC) e Assis Brasil (AC). A oferta dessa turma e outras iniciativas de interiorização contam com apoio de emenda parlamentar da deputada federal Socorro Neri (PP-AC). A solenidade ocorreu na sexta-feira, 27.

O evento reuniu professores, estudantes e representantes da comunidade local. O objetivo da ação é expandir e democratizar o acesso à pós-graduação no interior do Estado, contribuindo para o desenvolvimento regional e promovendo a formação de recursos humanos qualificados, além de fortalecer a universidade para além da capital. 

A pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação, Margarida Lima Carvalho, ressaltou que a oferta da turma nasceu de histórias, compromissos e valores ao longo do tempo. “Hoje não estamos apenas abrindo uma turma. Estamos abrindo caminhos, sonhos e futuros para o interior do Acre, porque quando o compromisso atravessa gerações, ele se transforma em legado. E o legado transforma vidas.”

 



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Ufac recebe visita da RFB para apresentação do projeto NAF — Universidade Federal do Acre

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Ufac recebe visita da RFB para apresentação do projeto NAF — Universidade Federal do Acre

A Ufac recebeu, nesta quarta-feira, 25, no gabinete da Reitoria, representantes da Receita Federal do Brasil (RFB) para a apresentação do projeto Núcleo de Apoio Contábil e Fiscal (NAF). A reunião contou com a participação da Coordenação do curso de Ciências Contábeis e teve como foco a proposta de implantação do núcleo na universidade.
O reitor em exercício e pró-reitor de Planejamento, Alexandre Hid, destacou a importância da iniciativa para os estudantes e sua relação com a curricularização da extensão. Segundo ele, a proposta representa uma oportunidade para os alunos e pode fortalecer ações extensionistas da universidade.

A analista tributária da RFB e representante de Cidadania Fiscal, Marta Furtado, explicou que o NAF é um projeto nacional voltado à qualificação de acadêmicos do curso de Ciências Contábeis, com foco em normas tributárias, legislação e obrigações acessórias. Segundo ela, o núcleo é direcionado ao atendimento de contribuintes de baixa renda e microempreendedores, além de aproximar os estudantes da prática profissional.

Durante a reunião, foi informada a futura assinatura de acordo de cooperação técnica entre a universidade e a RFB. Pelo modelo apresentado, a Ufac disponibilizará espaço para funcionamento do núcleo, enquanto a receita oferecerá plataforma de treinamento, cursos de capacitação e apoio permanente às atividades desenvolvidas.

Como encaminhamento, a RFB entregou o documento referencial do NAF, com orientações para montagem do espaço e definição dos equipamentos necessários. O processo será enviado para a Assessoria de Cooperação Institucional da Ufac. A expectativa apresentada na reunião é de que o núcleo seja integrado às ações de extensão universitária.

Também participaram da reunião o professor de Ciências Contábeis e vice-coordenador do curso, Cícero Guerra; e o auditor fiscal e delegado da RFB em Rio Branco, Claudenir Franklin da Silveira.



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