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Gilberto Gil encarna a obra em estreia de última turnê – 16/03/2025 – Ilustrada

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Gilberto Gil encarna a obra em estreia de última turnê - 16/03/2025 - Ilustrada

Lucas Brêda

Gilberto Gil condensou sua trajetória, uma das maiores da música brasileira em todos os tempos, no show que deu o pontapé inicial de sua turnê de despedida dos palcos. A primeira apresentação de “Tempo Rei”, que percorre o Brasil ao longo deste ano, aconteceu no estádio Fonte Nova, em Salvador.

Mais de 40 mil pessoas lotaram o espaço na noite deste sábado (15), após os ingressos esgotarem horas antes do show começar. Foi uma recepção de gala, à altura de um dos mais ilustres filhos desta terra, que atrasou cerca de meia hora para subir ao palco para quando os espaços na plateia estivessem todos preenchidos.

Ele começou com “Palco”, música que fez em 1980 como forma de se despedir da carreira, mas que acabou a reabilitando. Emendou “Banda Um” e “Tempo Rei”, a reflexão sobre a ação transformadora do tempo que é tema da excursão derradeira.

Gil disse que o show era sua despedida dos grandes palcos, do que “eu venho fazendo há mais de 60 anos”. “Estarmos aqui juntos é o motivo de ter me dedicado toda a carreira”, ele afirmou, antes de puxar um trecho de “Aqui e Agora”, canção de 1977.

“O melhor lugar do mundo é aqui e agora” diz a música, expressão das filosofias orientais que regem Gil, e recado adequado à ocasião. Mais que um resgate de um passado obsoleto, o show mostrou que a obra do tropicalista segue relevante e capaz de comover —mais ainda ali, e naquele momento.

Confirmou essa sensação o fato de que Gil, aos 82 anos, segue fisicamente capaz de interpretar seu repertório sem retirar as nuances dele. O baiano soa agora como o acúmulo de todas as suas experiências —da voz hoje mais econômica à maestria desenvolvida no violão—, e não uma sombra delas.

Ele foi acompanhado por mais de uma dezena de músicos, num espetáculo de arranjos renovados e que se dedicou a contar uma história. Depois das três performances iniciais, ele seguiu sua trajetória numa linha cronológica.

Começou com duas músicas que deram conta dos pilares de sua carreira —o baião de Luiz Gonzaga, o samba baiano de Dorival Caymmi e a bossa nova de João Gilberto. A primeira foi “Eu só Quero um Xodó”, composição de Dominguinhos que Gil popularizou nos anos 1980, a segunda, “Eu Vim da Bahia”, de Caymmi, mas muito conhecida na voz de João.

Esta última serviu de introdução ao próximo passo da narrativa —Gil era então o baiano que chegava no Sudeste. Entre Rio de Janeiro e São Paulo, ele protagonizou os anos de enfrentamento estético e político da tropicália, representados por “Procissão” e “Domingo no Parque”, ambas da segunda metade da década de 1960.

A repressão dos anos de chumbo da ditadura militar chegou através de Chico Buarque. Em depoimento em vídeo, ele contou como compôs ao lado de Gil a música “Cálice”, em suas palavras, “uma música que falava de censura e foi censurada”. Ele falava sobre o AI-5 e como “os microfones [dele e de Gil] foram silenciados” quando os gritos de “sem anistia” inflamaram uma parte da plateia.

A partir dali, o barulho era tanto que era quase impossível entender o depoimento de Chico, anterior a uma performance carregada de energia de “Cálice”. O frisson só aumentou com o telão trazendo imagens de vítimas da ditadura, casos do deputado Rubens Paiva —cuja história é retratada no filme “Ainda Estou Aqui”, primeiro longa brasileiro a vencer um Oscar— e do jornalista Vladimir Herzog, ambos mortos pelo regime.

Caetano Veloso e, no fim, o próprio Gil, presos e expulsos do país pelos militares, também surgiram nas imagens. Ao fim de “Cálice“, até quem estava sentado nas cadeiras se levantou para aplaudir a performance, em gritos de aclamação que preencheram o estádio.

“Back in Bahia” contemplou o exílio e o retorno ao Brasil. A ida surgiu na música, o rock que marcou aquela fase da obra de Gil, muito influenciado por Beatles e Rolling Stones em Londres, e a volta na letra, que retrata a saudade e o reencontro com o mar da Bahia sem rejeitar os anos na Europa.

Gil foi apresentando os músicos ao longo da noite. Mestrinho teve destaque no acordeon, tendo assinado também parte dos arranjos do show. Diversos familiares também acompanharam o tropicalista no palco —caso de João, neto, que fez o solo de guitarra em “Back in Bahia”, além de Bem, José e Nara, filhos, e a nora Mariá.

A narrativa passou pela reconstrução da carreira no Brasil. “Refazenda” trouxe o reencontro com o sertão baiano de sua infância em Ituaçu, e “Refavela”, o período de maior interesse pela música afro-diaspórica. Gil falou sobre como sua viagem a Lagos, na Nigéria, nos anos 1970, influenciou esse período.

Antes de fechar a trilogia “Re” com uma performance animada de “Realce”, ele se dedicou ao reggae. Gil foi um dos grandes embaixadores do ritmo jamaicano no Brasil, da memorável turnê com Jimmy Cliff à tradução de sucessos de Bob Marley —caso de “Não Chores Mais”, originalmente “No Woman, No Cry”, com uma introdução ao pandeiro e cantada em coros pelos baianos.

Alguns dos maiores sucessos de Gil são no ritmo jamaicano, que marcaram um dos momentos mais celebrados da apresentação, ainda com “Vamos Fugir”, “A Novidade” e “Extra”. Esta última, uma pérola do reggae brasileiro, soou apoteótica ecoando pelos paredões de arquibancadas da Fonte Nova.

No palco, fica nítido como Gil sempre usou o filtro tropicalista que forjou para absorver diversas expressões musicais, de dentro e de fora de seu país. Nada que ele faz é mera reprodução, mas uma interpretação particular, levando em conta a cultura que lhe formou, do que suas antenas captaram ao longo dos anos.

Ele cantou “Punk da Periferia”, sua visão do estilo que despontava no exterior e nas periferias de São Paulo na virada dos anos 1980. Mostrou também “Realce”, em que deglute a disco music, numa sequência de canções que lançou naquele período, incluindo também “A Gente Precisa ver o Luar”.

O violão de Gil, uma instituição da música nacional, deu as caras na fatia mais emotiva do show. Ele cantou uma versão sublime de “Se eu Quiser Falar com Deus” acompanhado de cordas e um solo de sopro, além de “Drão”, “Estrela” e “Esotérico”, levando às lágrimas quem ainda não tinha chorado.

Antes de “Drão”, Gil dedicou o show à sua filha, Preta Gil, que trata um câncer. Ela assistiu ao pai na Fonte Nova, após ter recebido alta médica horas antes da apresentação.

A reta final foi de pura celebração, com a plateia toda de pé e dançando. Teve “Expresso 2222” e “Andar com Fé”, num momento em que a energia emanada pelo público era palpável.

Em “Emoriô”, Russo Passapusso, do BaianaSystem, engrossou o coro, seguido por encontro de ministros da Cultura de governos do presidente Lula, do PT. Gil, ex-ministro, recebeu Margareth Menezes, atual ocupante do posto, em “Toda Menina Baiana”, cantada para um estádio em êxtase —afinal de contas, além de tudo, era a Bahia.

O encerramento veio depois de quase 2h30 de show. Contou com “Esperando na Janela”, com os casais na plateia devidamente dançando forró, e “Aquele Abraço”, a despedida na despedida, em que Gil sambou, tirou onda, puxou um coro de “Na Baixa do Sapateiro”, de Caymmi, e saiu de cena agradecendo como um bandleader de outras eras.

Em seu show de despedida, Gil é mais que um contador de histórias —ele é a própria história encarnada, capaz de juntar no palco as várias pontas de uma obra que brilha viva para além dos livros de história. Ajudou a estreia ser em Salvador, cidade pulsante que se reconhece em seus versos. Como na trajetória do tropicalista, a Bahia deu à turnê régua e compasso.

Datas da turnê ‘Tempo Rei’

  • 29 e 30 de março e 5 e 6 de abril de 2025 – Rio de Janeiro – Farmasi Arena
  • 11, 12, 25 e 26 de abril de 2025 – São Paulo – Allianz Parque
  • 31 de maio e 1º de junho – Rio de Janeiro – Marina da Glória
  • 7 de junho de 2025 – Brasília – Arena BRB
  • 14 de junho de 2025 – Belo Horizonte – Arena MRV
  • 5 de julho de 2025 – Curitiba – Ligga Arena
  • 9 de agosto de 2025 – Belém – Estádio Mangueirão
  • 6 de setembro – Porto Alegre – Estádio Beira Rio
  • 15 de novembro de 2025 – Fortaleza – Centro de Formação Olímpica
  • 22 de novembro de 2025 – Recife – Classic Hall

O jornalista viajou a convite da produtora da turnê



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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

A Ufac participou do lançamento do projeto Tecendo Teias na Aprendizagem, realizado na reserva extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira (AC). O evento ocorreu em 28 de março e reuniu representantes do poder público, comunidade acadêmica e moradores da reserva.

Com uma área de aproximadamente 750 mil hectares e cerca de 500 famílias, a Resex é território de preservação ambiental e de produção de saberes tradicionais. O projeto visa fortalecer a educação e promover a troca de conhecimentos entre universidade e comunidade.

O presidente da reserva, Nenzinho, destacou que a iniciativa contribui para valorizar a educação não apenas no ensino formal, mas também na qualidade da aprendizagem construída a partir das vivências no território. Segundo ele, a proposta reforça o papel da universidade na escuta e no reconhecimento dos saberes locais.

O coordenador do projeto, Rodrigo Perea, sintetizou a relação entre universidade e comunidade. “A floresta ensina, a comunidade ensina, os professores aprendem e a Ufac aprende junto.” 

Também estiveram presentes no lançamento os professores da Ufac, Alexsande Franco, Anderson Mesquita e Tânia Mara; o senador Sérgio Petecão (PSD-AC); o prefeito de Sena Madureira, Gerlen Diniz (PP); e o agente do ICMBio, Aécio Santos.
(Fhagner Silva, estagiário Ascom/Ufac)



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Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre

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Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre

 Os professores Jhonatan Gomes Gadelha e Shirley Regina de Almeida Batista, do curso de Educação Física da Ufac, realizaram a mostra de dança NT: Sementes de uma Pioneira, em homenagem à professora aposentada Norma Tinoco, reunindo turmas de bacharelado e licenciatura, escolas de dança e artistas independentes. O evento ocorreu na noite de 25 de março, no Teatro Universitário, campus-sede, visando celebrar a trajetória da homenageada pela inserção e legitimação da dança no curso.

Norma recebeu uma placa comemorativa pelos serviços prestados à universidade. Os alunos do curso, André Albuquerque (bacharelado) e Matheus Cavalcante (licenciatura) fizeram a entrega solene. Segundo os organizadores, os anos de dedicação da professora ao curso e seu pioneirismo jamais serão esquecidos.

“A ideia, que ganhou corpo e emoção ao longo de quatro atos, nasceu do coração de quem viveu de perto a influência da homenageada”, disse Jhonatan Gomes Gadelha, que foi aluno de Norma na graduação. Ele contou que a mostra surgiu de uma entrevista feita com ela por ocasião do trabalho dele de conclusão de curso, em 2015. “As falas, os ensinamentos e as memórias compartilhadas por Norma naquele momento foram resgatadas e transformadas em movimento”, lembrou.

Gadelha explicou que as músicas que embalaram as coreografias autorais foram criadas com o auxílio de inteligência artificial. “Um encontro simbólico entre a tradição plantada pela pioneira e as ferramentas do futuro. O resultado foi uma apresentação carregada de bagagem emocional, autenticidade e reverência à história que se contava no palco.”

Mostra em 4 atos

A professora de Educação Física, Franciely Gomes Gonçalves, também ex-aluna de Norma, foi a mestre de cerimônias e guiou o público por uma narrativa que comparava a trajetória da homenageada ao crescimento de uma árvore: “A Pioneira: A Raiz (ato I), “A Transformadora: O Tronco” (ato II), “O Legado: Os Frutos” (ato III) e “Homenagem Final: O reconhecimento” (ato IV).

O ato I trouxe depoimentos em vídeo e ao vivo, além de coreografias como “Homem com H” (com os 2º períodos de bacharelado e licenciatura) e “K Dance”, que homenageou os anos 1970. O ex-bolsista Kelvin Wesley subiu ao palco para saudar a professora. A escola de dança Adorai também marcou presença com as variações de Letícia e Rayelle Bianca, coreografadas por Caline Teodoro, e o carimbó foi apresentado pelo professor Jhon e pela aluna Kethelen.

O ato II contou com o depoimento ao vivo de Jhon Gomes, ex-aluno que seguiu carreira artística e acadêmica, narrando um momento específico que mudou sua trajetória. Ele também apresentou um solo de dança, seguido por coreografias da turma de licenciatura e uma performance de ginástica acrobática do 4º período.

No ato III foi exibido um vídeo em que os atuais alunos do curso de Educação Física refletiram sobre o que a dança significa em suas formações. As apresentações incluíram o Atelier Escola de Dança com “Entre o que Fica e o que Parte” (Ana Fonseca e Elias Daniel), o Estúdio de Artes Balancé com “Estrelas” (coreografia de Lucas Souza) e a Cia. de Dança Jhon Gomes, com outra versão de “Estrelas”. A escola Adorai retornou com “Sarça Ardente”, coreografada por Lívia Teodoro; os alunos do 2º período de bacharelado encerraram o ato.

No ato IV, após o ministério de dança Plenitude apresentar “Raridade”, música de Anderson Freire, a professora Shirley Regina subiu ao palco para oferecer palavras à homenageada. Em seguida, a mestre de cerimônias convidou Norma Tinoco a entrar em cena. Ao som de “Muda Tudo”, os alunos formaram um círculo ao redor da professora, cantando o refrão em coro.

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I FÓRUM ESTADUAL "Autismo, Cultura, Mercado de Trabalho e Políticas Públicas no Acre."

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I FÓRUM ESTADUAL "Autismo, Cultura, Mercado de Trabalho e Políticas Públicas no Acre."

09 e 10 de ABRIL
Local: Teatro Universitário da UFAC
11 de ABRIL
Local: Anfiteatro Garibaldi Brasil UFAC

Mais informações

 



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