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Lula sabia dos riscos | VEJA

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Thomas Traumann

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva produziu uma derrota a partir de uma vitória. Na mesma semana em que o seu principal adversário, Jair Bolsonaro, foi formalmente indiciado pela Polícia Federal por ter “planejado, atuado e dominado” a trama por um golpe de Estado, Lula combinou dois anúncios econômicos em um único, e piorou as perspectivas políticas e econômicas para 2025. Na pior semana do governo deste ano, o dólar ultrapassou os R$ 6, os juros futuros chegaram perto dos 14%, ministros publicamente disseram discordar de decisão do presidente e o Congresso tomou para si o poder de não aprovar a principal bandeira para a reeleição em 2026.

Diante do risco de uma retração econômica no ano que vem, as provas de envolvimento de generais e ministros de Bolsonaro para impedir a posse de Lula viraram notícia de rodapé. Com o anúncio do pacote, Bolsonaro deixou de ser notícia. Agora quem está no canto do ringue apanhando muito é o próprio Lula.

O presidente Lula sabia dos riscos. No final da tarde da segunda-feira, dia 25, depois da reunião ministerial que decidiu incluir o anúncio da isenção de R$ 5 mil no anúncio do ajuste fiscal, o presidente teve uma conversa privada com o ministro Fernando Haddad e o futuro presidente do BC, Gabriel Galípolo. Os dois expuseram ao presidente os riscos do anúncio da isenção do imposto neste momento, anteciparam a reação negativa do mercado financeiro e projetaram um cenário de juros altos e contaminação da inflação. O presidente respondeu que já havia ouvido os argumentos, que estava decidido e previu que, em algumas semanas, o mercado financeiro se acalmará.

Lula venceu, direta ou indiretamente, cinco das últimas seis eleições presidenciais. Nenhum brasileiro chegou perto disso. Ele ressuscitou politicamente depois um câncer, quatro anos de investigação policial e 580 dias preso para derrotar um adversário que preparava um golpe de Estado para permanecer no poder. Entre as avaliações dos seus principais conselheiros econômicos e sua intuição, Lula escolheu a si mesmo.

Foram quatro semanas de discussões, mais de 20 reuniões nos Palácios do Planalto e do Alvorada e, como definiu um ministro que acompanhou o processo, ao final nenhum assessor tinha mais ânimo para contrabalançar o presidente. Lula concluiu que um anúncio de ajuste nos gastos sociais sem uma contrapartida teria reflexos diretos na sua popularidade e insistiu até achar ministros que concordassem com ele.

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A intenção inicial de Fernando Haddad era produzir um ajuste de despesas que resgatasse a credibilidade do arcabouço fiscal perante os investidores. O resultado foi o oposto. A credibilidade fiscal afundou e a única âncora agora é a política monetária, o que significa que os juros devem subir mais do que se previa até uma semana atrás.

Parte da reação estrondosa do mercado financeiro se deve a um erro básico de comunicação do governo: nunca se tratou de um pacote de corte de gastos, mas de um ajuste do crescimento das despesas públicas. Não tinha como dar certo desde o início, mas a surpresa de o ajuste vir acompanhado de uma medida já mirando as eleições de 2026 piorou tudo.

A decisão de Lula trará um preço alto a pagar. O mais imediato será um novo patamar de dólar, certamente acima de R$ 5,8. É realista um cenário no qual um dólar perto dos R$ 6 contamine a inflação corrente, desencore as expectativas inflacionárias, obrigue o Banco Central de Gabriel Galípolo levar os juros para 14%, afunde o crédito, impacte no crescimento e torne o país mais vulnerável à eventuais turbulências externas.

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O cenário internacional é ruim para o Brasil com o governo Trump. No sábado, por exemplo, o futuro presidente americano ameaçou sobretaxas os países do BRICS, entre eles o Brasil, se o bloco mantiver o projeto de não usar dólares nas suas transações.

O efeito mais doloroso para Lula, no entanto, pode estar na política. Com o terremoto no mercado, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco surgiram para posarem de mocinhos. Em declarações por escrito, ambos defenderam ajustes até mais restritivos do que os propostos pelo governo, mas não se comprometeram com a reforma da renda, a principal bandeira de Lula para 2026. Na política, o nome disso é chantagem. O custo para Lula aprovar a reforma da renda no Congresso se multiplicou por 10.

O presidente corre o risco de atravessar 2025 com uma economia em retração, confronto com o governo americano e um Congresso em vantagem para cobrar mais por menos.



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OPINIÃO

Opinião: A ciranda troca de partidos e a busca por cargos públicos

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Foto de capa [arquivo pessoal]
Os parlamentares que mudam de partido – como macacos puladores de galho – ou se candidatam a outros cargos no Legislativo e no Executivo apenas para preservar privilégios demonstram desrespeito à República e deveriam sentir vergonha de tal conduta. Essa prática evidencia a ausência de compromisso ideológico e a busca incessante por posições de poder, transmitindo à sociedade a imagem de oportunistas movidos por conveniências pessoais. A política deveria ser encarada como missão cívica, exercício de cidadania e serviço transitório à nação. Encerrado o mandato, o retorno às profissões de origem seria saudável para a oxigenação da vida pública.  
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Infelizmente, o sistema político brasileiro está povoado por aqueles que veem na política não um espaço de serviço público, mas um negócio lucrativo. Como já destacou o jornal El País, ser político no Brasil é um grande negócio, dadas as vantagens conferidas e auferidas — e a constante movimentação de troca de partidos confirma essa percepção.  
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A cada eleição, o jogo se repete: alianças improváveis, trocas de legenda na janela partidária e negociações de bastidores que pouco têm a ver com as necessidades reais da população. Em vez de missão cívica, vemos aventureiros transformando a política em palco de interesses pessoais e cabide de empregos. A busca incessante pela reeleição e por cargos demonstra que, para muitos, a política deixou de ser a casa do povo e tornou-se um negócio.  
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Convém lembrar aos que se consideram úteis  e insubstituíveis à política que o cemitério guarda uma legião de ex-políticos esquecidos, cuja ausência jamais fez falta ao país.  
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As próximas eleições são a oportunidade para os eleitores moralizarem o Legislativo, elegendo apenas candidatos novos, sem os vícios da velha política, que tenham conduta ilibada e boa formação cultural. Por outro lado, diga não à reeleição política, aos trocadores de partidos, aos que interromperam o mandato para exercer cargos nos governos, e àqueles que já sofreram condenação na Justiça ou punição no Conselho de Ética do Legislativo. 
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Júlio César Cardoso
Servidor federal aposentado
Balneário Camboriú-SC

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Matheus Leitão

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“Estou muito envergonhado! Isto é uma indignidade inexplicável!” (Ciro Gomes, ex-ministro da Fazenda, usando as redes sociais para reclamar da troca de Carlos Lupi por Wolney Queiroz, seu desafeto no PDT, no comando do Ministério da Previdência Social) 


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