ACRE
A Colômbia defende a sua soberania do poder das corporações globais | Crise Climática
PUBLICADO
1 ano atrásem
Os acordos comerciais podem permitir que as empresas internacionais atropelem os direitos dos governos no Sul Global. Essa é a mensagem do governo colombiano, que descreve o efeito de tais acordos como um “banho de sangue”Pela sua soberania nacional. E agora, a Colômbia Presidente Gustavo Petro disse que quer renegociar os acordos que seu país tem com os Estados Unidos, a União Europeia e o Reino Unido.
Ele tem argumentos fortes porque, nos últimos anos, os EUA e os países europeus também têm renegociado acordos comerciais e de investimento semelhantes, enquanto tentam evitar serem processados nos secretos “tribunais empresariais” que estes acordos criam.
Só este ano, o governo britânico retirou-se de um acordo de investimento tóxico, denominado Tratado da Carta da Energia, após uma série de casos em que governos europeus foram processados por empresas de combustíveis fósseis por tomarem medidas climáticas que supostamente prejudicaram os lucros dessas empresas.
Portanto, a questão agora é saber se os países europeus vão aceitar que os países do Sul necessitam do mesmo espaço político para lidar com as alterações climáticas e com numerosos outros problemas que enfrentam. Ou se exigirão que estes países continuem a cumprir estes acordos horríveis e unilaterais.
No centro do problema está algo conhecido como resolução de litígios investidor-estado ou ISDS. Em essência, o ISDS cria um “tribunal corporativo”, que permite que empresas multinacionais de um país parceiro comercial processem governos num tribunal internacional.
Estes “tribunais empresariais” têm sido inseridos em acordos comerciais e de investimento desde a década de 1950, inicialmente concebidos como uma forma de proteger os interesses ocidentais nos países em desenvolvimento. Criaram um sistema jurídico que teria tornado mais difícil para os governos que quisessem, por exemplo, nacionalizar os campos petrolíferos propriedade de multinacionais ocidentais. Assim, desde o início, estes acordos foram implicitamente neocoloniais.
Mas com o passar do tempo, o âmbito destes tribunais corporativos foi ampliado por advogados corporativos. Hoje, as empresas podem processar praticamente qualquer lei ou regulamento que não gostem. Pior ainda, estes casos são muitas vezes ouvidos em segredo, supervisionados por advogados empresariais que não têm de se preocupar com o impacto das suas decisões na sociedade, nos direitos humanos ou no ambiente – apenas com a legislação sobre investimentos. E estes “tribunais” geralmente não têm direito de recurso e só podem ser utilizados por investidores estrangeiros.
Como tal, o ISDS tem sido utilizado pelas empresas tabaqueiras para desafiar os governos que pretendem garantir que os cigarros sejam vendidos apenas em embalagens genéricas. Eles têm sido usados para contestar aumentos do salário mínimo e impostos extraordinários. Mas, cada vez mais, estão a ser utilizados para desafiar todos os tipos de regulamentos ambientais necessários para travar as alterações climáticas. Na verdade, estão a tornar-se uma grande barreira à acção climática que os governos devem empreender para manter o nosso planeta habitável.
Como tal, os países ocidentais estão à mercê de centenas de milhões de dólares provenientes de empresas, simplesmente pelo exercício dos seus deveres democráticos. Não é de surpreender que estejam a revogar os tratados que os colocaram nesta situação. Mas estão muito menos interessados em permitir que outros governos tomem as mesmas medidas. Uma regra para nós, outra bem diferente para o Sul Global.
O governo colombiano decidiu denunciar esta hipocrisia e resolver o problema com as próprias mãos. O Presidente Petro disse que permitir que as empresas resolvessem disputas fora dos tribunais nacionais nunca deveria ter acontecido, dizendo, em vez disso, que a Colômbia é forçada a “colocar-se na boca do lobo”.
Ele está certo. Na última década, foram instaurados 23 casos conhecidos contra a Colômbia ao abrigo do ISDS, muitos deles emitidos por empresas mineiras estrangeiras em resposta direta às medidas tomadas pela Colômbia para proteger o ambiente natural e os direitos dos povos indígenas.
A gigante mineira Glencore, por exemplo, processou a Colômbia na sequência da decisão do Tribunal Constitucional do país de suspender uma proposta de expansão daquela que já é a maior mina de carvão a céu aberto da América Latina.
A mina Cerrejon sempre enfrentou forte oposição local e resultou na contaminação tóxica do ar, do solo e do abastecimento de água e no deslocamento de 35 comunidades indígenas de seus territórios ancestrais. O Tribunal Constitucional decidiu que a expansão da mina teria um impacto severo no ecossistema da comunidade local.
A Glencore disse que a decisão do tribunal foi discriminatória, irracional e arbitrária, e utilizou o ISDS para instaurar quatro processos separados contra a Colômbia. Ganhou o primeiro caso e recebeu US$ 19 milhões, enquanto os outros três ainda estão em processo por quantias de dinheiro não reveladas.
Num caso separado, a empresa mineira canadiana Eco Oro está a reclamar 696 milhões de dólares de indemnização quando o Tribunal Constitucional decidiu proteger os paramos – ecossistemas raros de zonas húmidas de grande altitude que servem como fontes vitais de água doce. Embora o sistema ISDS em questão deva explicitamente garantir aos governos espaço político para proteger o ambiente, o painel de arbitragem decidiu que esta excepção ambiental não excluía a obrigação de pagar compensação.
A Colômbia não está sozinha. Nos últimos anos, países como o Quénia, a África do Sul e o Equador começaram a sair deste sistema profundamente antidemocrático. Um dos primeiros tratados que a Colômbia deseja renegociar é o acordo Reino Unido-Colômbia. O embaixador da Colômbia no Reino Unido foi claro ao denunciar o acordo, dizendo que estes tratados “tornaram-se um dreno para a Colômbia e muitos outros países”, apontando especificamente o poder que dão à indústria dos combustíveis fósseis para recuar na acção climática e processar os países. “por não ganharem o que pretendiam ganhar poluindo”.
Mas eles enfrentarão séria oposição. Isso significa que precisarão do apoio dos cidadãos e dos movimentos aqui na Grã-Bretanha. Felizmente, o sindicato dos próprios funcionários públicos que trabalham no governo do Reino Unido para negociar acordos comerciais já se manifestou em apoio à posição colombiana, dizendo “precisamos de uma verdadeira acção climática”.
Devemos nos juntar a eles. O ISDS é um sistema misterioso, mas nos últimos anos os activistas tiraram-no das sombras e começaram a desmantelá-lo em numerosos acordos comerciais. Setenta anos depois do aparecimento deste sistema neocolonial, podemos finalmente derrotá-lo. E se quisermos travar as alterações climáticas e construir a democracia, precisamos de o fazer rapidamente. A Colômbia está agora na linha da frente e precisa do nosso apoio.
As opiniões expressas neste artigo são do próprio autor e não refletem necessariamente a posição editorial da Al Jazeera.
Relacionado
VOCÊ PODE GOSTAR
ACRE
Ufac promove seminário sobre agroextrativismo e cooperativismo no Alto Acre — Universidade Federal do Acre
PUBLICADO
1 dia atrásem
19 de maio de 2026O Projeto Legal (Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal) da Ufac realizou, na última sexta-feira, 15, no Centro de Educação Permanente (Cedup) de Brasiléia, o seminário “Agroextrativismo e Cooperativismo no Alto Acre: Desafios e Perspectivas”. A programação reuniu representantes de cooperativas, instituições públicas das esferas federal, estadual e municipal, pesquisadores, produtores rurais da Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes e lideranças comunitárias para discutir estratégias e soluções voltadas ao fortalecimento da economia local e da produção sustentável na região.
A iniciativa atua na criação de espaços de diálogo entre o poder público e as organizações comunitárias, com foco no desenvolvimento sustentável e no fortalecimento da agricultura familiar. Ao longo do encontro, os participantes debateram os principais desafios enfrentados pelas famílias e cooperados que atuam nas cadeias do agroextrativismo, com ênfase em eixos fundamentais como acesso a financiamento, logística, assistência técnica, processamento, comercialização, gestão e organização social das cooperativas.
Coordenado pela professora Luci Teston, o seminário foi promovido pela Ufac em parceria com o Sistema OCB/Sescoop-AC. Os organizadores e parceiros destacaram a relevância do cooperativismo como instrumento de transformação social e econômica para o Alto Acre, ressaltando a importância de pactuar soluções concretas que unam a geração de renda e a melhoria da qualidade de vida das famílias extrativistas à preservação florestal. Ao final, foram definidos encaminhamentos estratégicos para valorizar o potencial produtivo da região por meio da cooperação.
O evento contou com a presença de mais de 30 representantes de diversos segmentos, incluindo o subcoordenador do projeto no Acre, professor Orlando Sabino da Costa; o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-AC), Ronald Polanco; o secretário municipal de Agricultura de Brasiléia, Gesiel Moreira Lopes; e o presidente da Coopercentral Cooperacre, José Rodrigues de Araújo.
Relacionado
ACRE
Ufac celebra trajetória de dez anos do Laboratório de Discriminação Racial — Universidade Federal do Acre
PUBLICADO
5 dias atrásem
15 de maio de 2026O Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) da Ufac realizou, nesta quarta-feira, 13, no auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (Cfch), um evento em comemoração aos 10 anos do Laboratório de Pesquisa Observatório de Discriminação Racial (LabODR). A programação reuniu a comunidade acadêmica, pesquisadores, egressos, bolsistas e integrantes do movimento social negro para celebrar a trajetória do laboratório e os resultados alcançados por meio das pesquisas desenvolvidas ao longo da última década.
Vinculado à área de História, mas formado por profissionais de diferentes áreas do conhecimento, o LabODR/Ufac foi criado em 2016 a partir de uma articulação entre a Ufac e o movimento negro acreano, especialmente o Fórum Permanente de Educação Étnico-Racial do Estado do Acre. Inicialmente estruturado como projeto institucional de pesquisa, o laboratório contou com apoio da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Proaes) e, em 2018, foi inserido na plataforma Lab e certificado pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (Propeg).
O laboratório atua na pesquisa e na formação de pesquisadores com foco na promoção da igualdade racial, desenvolvendo estudos voltados tanto à denúncia de práticas racistas quanto à construção de reflexões e práticas antirracistas, principalmente nos espaços educacionais. Atualmente, o LODR/Ufac abriga projetos institucionais como “Práticas Pedagógicas em Educação das Relações Étnico-Raciais em Escolas do Estado do Acre”, desenvolvido desde 2018, e “Pérolas Negras”, iniciado em 2020.
Durante o evento, convidados e bolsistas compartilharam experiências acadêmicas e profissionais construídas a partir das atividades desenvolvidas pelo laboratório, destacando a importância do observatório em suas formações pessoais e profissionais. A programação também apresentou pesquisas realizadas ao longo desses dez anos de atuação e ressaltou a contribuição do laboratório para o fortalecimento das discussões sobre igualdade racial dentro da universidade e na sociedade acreana.
Compuseram o dispositivo de honra o vice-reitor, Josimar Ferreira; o pró-reitor de Extensão e Cultura, Carlos Paula de Moraes; a pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da Ufac, Margarida Lima; a vice-diretora do Cfch, Lucilene Ferreira de Almeida; e a representante do Neabi, Flávia Rocha.
Relacionado
ACRE
Ufac participa de mostra científica na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira — Universidade Federal do Acre
PUBLICADO
5 dias atrásem
15 de maio de 2026A Universidade Federal do Acre (Ufac) participou, no dia 1º de maio, da Mostra Científica “Conectando Saberes: da integração à inclusão na Amazônia”, realizada na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira. A ação reuniu instituições de ensino, pesquisa, escolas rurais e moradores da reserva em atividades de divulgação científica e integração comunitária.
Financiada pelo CNPq, a iniciativa contou com a participação da Ufac, Ifac, ICMBio e de escolas da região. Aproximadamente 250 pessoas participaram da programação, entre estudantes, professores e moradores das comunidades da reserva.
Durante o evento, estudantes da graduação e pós-graduação da Ufac e do Ifac apresentaram pesquisas e atividades educativas nas áreas de saúde, Astronomia, Física, Matemática, Robótica e educação científica. A programação incluiu oficinas de foguetes, observação do céu com telescópios, sessões de planetário, jogos educativos e atividades com microscópios.
O professor Francisco Glauco, do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza (CCBN) da Ufac, destacou a importância da participação acadêmica em ações junto às comunidades tradicionais.
“A universidade tem um papel fundamental para a formação científica e cidadã dos estudantes. A troca de conhecimentos com comunidades de difícil acesso fortalece essa formação”, afirmou.
A professora Valdenice Barbosa, da Escola Iracema, ressaltou o impacto da iniciativa para os alunos da reserva.
“Foi um dia histórico de muito aprendizado. Muitos estudantes tiveram contato pela primeira vez com experimentos e equipamentos científicos”, disse.
Além das atividades científicas, a programação contou com apresentações culturais realizadas pelos estudantes da reserva, fortalecendo a integração entre ciência, educação e saberes amazônicos.
A participação da Ufac reforça o compromisso da universidade com a extensão, a popularização da ciência e a aproximação entre universidade e comunidades tradicionais da Amazônia.
Fhagner Soares – Estagiário
Relacionado
PESQUISE AQUI
MAIS LIDAS
- ACRE6 dias ago
Ufac realiza recepção institucional para novos estudantes no Teatro Universitário — Universidade Federal do Acre
ACRE6 dias agoUFAC participa de pesquisa sobre zoonose associada à caça de subsistência na Amazônia — Universidade Federal do Acre
ACRE5 dias agoUfac participa de mostra científica na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira — Universidade Federal do Acre
ACRE5 dias agoUfac celebra trajetória de dez anos do Laboratório de Discriminação Racial — Universidade Federal do Acre
Warning: Undefined variable $user_ID in /home/u824415267/domains/acre.com.br/public_html/wp-content/themes/zox-news/comments.php on line 48
You must be logged in to post a comment Login