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Adultos poderão ficar vulneráveis a doenças infantis – 26/01/2025 – Equilíbrio e Saúde

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Em 2024, os Estados Unidos registraram mais de 32 mil casos de coqueluche, a maior contagem em uma década. Só no estado da Califórnia, a doença atingiu duas mil pessoas entre janeiro e outubro. Mais de 60 crianças menores de quatro meses foram hospitalizadas. Uma delas morreu.

A coqueluche, também conhecida como pertússis ou tosse convulsa, é apenas o exemplo mais gritante do que acontece quando as taxas de vacinação diminuem. Mas está longe de ser o único.

A pandemia interrompeu as imunizações infantis nos EUA inteiro, e as taxas ainda não voltaram ao patamar anterior. Como resultado, centenas de milhares de crianças estão cada vez mais vulneráveis a doenças antes relegadas aos livros de história.

A maioria delas —como o sarampo, a caxumba e a rubéola— afeta predominantemente crianças pequenas. Mas, se as taxas de vacinação continuarem a diminuir nos próximos anos, devido à crescente desconfiança ou a políticas federais mais restritivas, várias doenças infecciosas preveníveis ressurgirão em todas as faixas etárias, advertem os especialistas. “Pode levar um ou dois anos, mas não há dúvida: vamos ter surtos”, diz Pejman Rohani, epidemiologista de doenças infecciosas da Universidade da Geórgia.

Não são apenas os não vacinados que terão de se preocupar. Até mesmo os adultos que foram imunizados décadas atrás poderão se tornar vulneráveis a doenças que agora são consideradas infantis.

Para Alex Richter, imunologista clínico da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, onde há aumentos preocupantes de sarampo e caxumba, a maioria das pessoas se esqueceu dos perigos das doenças infantis.

Há poucas décadas, muitas crianças menores de cinco anos morriam de alguma doença infecciosa. Agora, estão mais ameaçadas por acidentes de trânsito, overdose de drogas e violência armada, enquanto a preocupação com doenças desapareceu paulatinamente. “Mas tudo isso pode mudar se não continuarmos com as políticas de vacinação”, afirma.

As taxas elevadas de vacinação em uma comunidade protegem não só os vacinados, mas também as pessoas que não podem receber algumas vacinas ou que podem não responder a elas devido a certas condições médicas, à idade ou ao sistema imunológico enfraquecido. “Quanto menos gente for vacinada, o mundo se tornará um lugar menos seguro para uma grande parte da população”, comenta o médico.

Por exemplo, a rubéola, também chamada de sarampo alemão, pode ser perigosa para as grávidas e seus bebês. No entanto, elas não podem ser imunizadas contra a doença porque a vacina contém um vírus vivo enfraquecido.

Hoje em dia, elas normalmente não correm risco, porque há menos de uma dúzia de casos de rubéola nos Estados Unidos a cada ano. Mas isso pode mudar se as taxas de vacinação caírem. Em todo o mundo, a rubéola é a principal causa de defeitos congênitos preveníveis por vacina. “Se você tem mães não imunes pegando rubéola, então há as complicações que perduram ao longo da vida, como cegueira e surdez e tudo o mais”, explica Richter.

Elsa Sjunneson sabe disso muito bem. Sua mãe foi infectada com rubéola durante um surto na cidade de Nova York, em 1985, enquanto estava grávida, e Sjunneson nasceu com síndrome da rubéola congênita, ou SRC. No caso dela, isso significava catarata espessa, perda auditiva e defeito cardíaco.

Antes de seu primeiro aniversário, foi submetida a duas cirurgias que corrigiram a maior parte do defeito cardíaco e a sete cirurgias oculares que não lhe restauraram totalmente a visão. Ela é cega do olho direito, tem visão limitada no esquerdo e ainda precisa de aparelhos auditivos. “Na verdade, tive muita sorte, porque muita gente que nasceu com SRC não sobreviveu. Ninguém merece ser exposto a doenças que podem matar”, diz Sjunneson, que é defensora de pessoas com deficiência e da vacinação contra a rubéola.

As campanhas antivacina geralmente têm como alvo a vacina tríplice viral, que protege contra o sarampo, a caxumba e a rubéola. Os especialistas tendem a se preocupar mais com o ressurgimento do sarampo, porque o vírus é extraordinariamente contagioso, permanecendo no ar por até duas horas depois que uma pessoa infectada sai de um recinto. Esta pode espalhar o vírus para até 18 outras.

O passado oferece uma antevisão: no fim da década de 1980, cortes no orçamento do governo Reagan reduziram as taxas de vacinação, principalmente entre crianças negras e hispânicas de baixa renda. As consequências foram rápidas. De 1989 a 1991, o sarampo infectou mais de 55 mil americanos e matou 166 pessoas.

Antes que a primeira vacina contra o sarampo fosse introduzida, na década de 1960, a doença matava cerca de 2,6 milhões de pessoas em todo o mundo a cada ano. O vírus prejudica as defesas imunológicas, deixando o corpo vulnerável a outros patógenos.

Um estudo de 2015 estimou que, antes da vacinação generalizada, o sarampo pode ter sido responsável por até metade de todas as mortes por doenças infecciosas em crianças. Mesmo agora, as consequências podem ser graves. Cerca de 40% das pessoas infectadas no ano passado foram hospitalizadas, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças.

Antes da pandemia, as taxas de imunização para MMR (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola) e para coqueluche se mantinham estáveis em cerca de 95%, em parte devido aos requisitos para admissão em escolas públicas.

Uma queda dessa taxa durante a pandemia não chegou a ser surpreendente. Mas, mesmo com a sociedade voltando ao normal, as taxas de vacinação continuaram a diminuir, caindo abaixo de 93% em todo o país no período letivo de 2023-2024. Isso significa que cerca de 280 mil crianças em idade escolar continuam suscetíveis a essas doenças, aumentando o risco de surtos em escolas e outros espaços públicos.

Os adultos não vacinados correm risco, é claro, mas aqueles outros que não apresentam uma resposta imunológica adequada às vacinas ou que receberam apenas uma única dose também estão vulneráveis.

E há outra consequência inesperada para o declínio das taxas de vacinação. A imunidade induzida por algumas vacinas pode diminuir ao longo das décadas. O declínio significa que, se os surtos ocorrerem com mais frequência, mesmo adultos vacinados poderão se tornar vulneráveis a certas doenças.

Em casos raros, por exemplo, a imunidade adquirida com a vacina contra o sarampo pode diminuir. Dos 284 casos de sarampo registrados entre os americanos no ano passado, 11% foram de pessoas que receberam uma ou duas doses da vacina. Isso talvez explique por que 27% dos casos foram de adultos com mais de 20 anos. “Estamos longe da época em que o sarampo era só uma doença de crianças”, diz Alexis Robert, pesquisadora em modelagem de doenças infecciosas na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

A imunidade contra a caxumba também pode diminuir. Embora a vacinação em geral tenha reduzido o número de casos da doença em 99%, houve surtos em escolas e universidades, onde os alunos mantêm contato próximo e prolongado. A caxumba costuma ser uma condição leve em crianças, mas às vezes pode causar problemas de fertilidade em meninos e complicações graves em adultos.

A coqueluche, porém, pode ser a doença com a qual até mesmo crianças e adultos vacinados devem se preocupar mais. A doença muitas vezes é confundida com uma infecção respiratória típica no início, mas pode se transformar em uma “tosse de cem dias” dolorosa, que afeta o corpo inteiro. Cada crise de tosse termina com um som diferente, similar a um assobio, e pode resultar em vômitos, costelas quebradas e dificuldade para respirar.

Décadas atrás, a vacina dependia de células inteiras da bactéria causadora da coqueluche. Era potente, provocando, com frequência, febres altas e convulsões. “Atualmente, não há nenhuma maneira de os pais tolerarem esse tipo de reação”, afirma Kathryn Edwards, especialista em vacinas que estuda a coqueluche há 40 anos.

Uma versão mais recente da vacina, introduzida na década de 1990, é muito mais suave para o corpo. Na maioria das pessoas, essa fórmula oferece décadas de proteção contra doenças graves. Mas as novas vacinas contra coqueluche não previnem totalmente a infecção e, às vezes, a proteção desaparece.

Os especialistas acreditam agora que essa é uma das razões pelas quais mais adolescentes do que crianças pequenas foram infectados com coqueluche durante os surtos que ocorreram nos últimos anos. “Foi o primeiro indício do declínio da imunidade da vacina”, comenta Edwards. O Centro de Controle de Doenças passou a recomendar uma dose de reforço para os adolescentes.

Se as taxas de vacinação caíssem para 75% nos próximos anos, adultos mais velhos que receberam a vacina original ainda estariam protegidos. Mas as pessoas que nunca foram imunizadas ou os adultos que receberam a vacina mais recente quando crianças podem estar suscetíveis.

De acordo com a modelagem epidemiológica de Rohani e seus colegas, os casos aumentariam dramaticamente em bebês –que são muito jovens para ser totalmente vacinados– e em crianças de cinco a 15 anos.

“Como tendem a ter mais contatos, as crianças em idade escolar são o principal grupo de transmissão”, diz Rohani. Ele e outros especialistas esperam que as taxas de vacinação não caiam drasticamente. E estão preocupados com as consequências de declínios mesmo que modestos.

Segundo Richter, convencer uma pessoa a se imunizar é sempre mais difícil do que fazer com que faça um tratamento, porque as vacinas são administradas em indivíduos saudáveis. Nos casos extremamente raros em que alguém sofre um efeito secundário grave, este pode ser catastrófico. “Basta uma dessas histórias, ou duas, para que haja um impacto enorme na adoção da vacina. Aqui, o que existe é uma tensão entre a comunidade e o indivíduo.”



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Cerimônia do Jaleco marca início de jornada da turma XVII de Nutrição — Universidade Federal do Acre

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No dia 28 de março de 2026, foi realizada a Cerimônia do Jaleco da turma XVII do curso de Nutrição da Universidade Federal do Acre. O evento simbolizou o início da trajetória acadêmica dos estudantes, marcando um momento de compromisso com a ética, a responsabilidade e o cuidado com a saúde.

 

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Ufac realiza aula inaugural do MPCIM em Epitaciolândia — Universidade Federal do Acre

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Ufac realiza aula inaugural do MPCIM em Epitaciolândia — Universidade Federal do Acre

A Ufac realizou a aula inaugural da turma especial do mestrado profissional em Ensino de Ciência e Matemática (MPCIM) no município de Epitaciolândia (AC), também atendendo moradores de Brasileia (AC) e Assis Brasil (AC). A oferta dessa turma e outras iniciativas de interiorização contam com apoio de emenda parlamentar da deputada federal Socorro Neri (PP-AC). A solenidade ocorreu na sexta-feira, 27.

O evento reuniu professores, estudantes e representantes da comunidade local. O objetivo da ação é expandir e democratizar o acesso à pós-graduação no interior do Estado, contribuindo para o desenvolvimento regional e promovendo a formação de recursos humanos qualificados, além de fortalecer a universidade para além da capital. 

A pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação, Margarida Lima Carvalho, ressaltou que a oferta da turma nasceu de histórias, compromissos e valores ao longo do tempo. “Hoje não estamos apenas abrindo uma turma. Estamos abrindo caminhos, sonhos e futuros para o interior do Acre, porque quando o compromisso atravessa gerações, ele se transforma em legado. E o legado transforma vidas.”

 



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Ufac recebe visita da RFB para apresentação do projeto NAF — Universidade Federal do Acre

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Ufac recebe visita da RFB para apresentação do projeto NAF — Universidade Federal do Acre

A Ufac recebeu, nesta quarta-feira, 25, no gabinete da Reitoria, representantes da Receita Federal do Brasil (RFB) para a apresentação do projeto Núcleo de Apoio Contábil e Fiscal (NAF). A reunião contou com a participação da Coordenação do curso de Ciências Contábeis e teve como foco a proposta de implantação do núcleo na universidade.
O reitor em exercício e pró-reitor de Planejamento, Alexandre Hid, destacou a importância da iniciativa para os estudantes e sua relação com a curricularização da extensão. Segundo ele, a proposta representa uma oportunidade para os alunos e pode fortalecer ações extensionistas da universidade.

A analista tributária da RFB e representante de Cidadania Fiscal, Marta Furtado, explicou que o NAF é um projeto nacional voltado à qualificação de acadêmicos do curso de Ciências Contábeis, com foco em normas tributárias, legislação e obrigações acessórias. Segundo ela, o núcleo é direcionado ao atendimento de contribuintes de baixa renda e microempreendedores, além de aproximar os estudantes da prática profissional.

Durante a reunião, foi informada a futura assinatura de acordo de cooperação técnica entre a universidade e a RFB. Pelo modelo apresentado, a Ufac disponibilizará espaço para funcionamento do núcleo, enquanto a receita oferecerá plataforma de treinamento, cursos de capacitação e apoio permanente às atividades desenvolvidas.

Como encaminhamento, a RFB entregou o documento referencial do NAF, com orientações para montagem do espaço e definição dos equipamentos necessários. O processo será enviado para a Assessoria de Cooperação Institucional da Ufac. A expectativa apresentada na reunião é de que o núcleo seja integrado às ações de extensão universitária.

Também participaram da reunião o professor de Ciências Contábeis e vice-coordenador do curso, Cícero Guerra; e o auditor fiscal e delegado da RFB em Rio Branco, Claudenir Franklin da Silveira.



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