Às vésperas de completar 51 anos no dia 30 de novembro, Angélica afirma estar “bem mais feliz do que aos 30 ou 40”. “É como se eu estivesse nascendo de novo”, diz. A apresentadora enumera alguns fatores para a boa fase: os três filhos que já estão maiores, uma visão “um pouco menos ansiosa” e uma segurança maior com o próprio corpo e com a forma como se posiciona. “Eu estou feliz também de não saber o que esperar”, diz.
De cara limpa, óculos de grau e com o cabelo ao natural, a apresentadora falou com a coluna por vídeo durante pouco mais de uma hora. Estava no jardim da sua casa no Rio de Janeiro e, vez ou outra, jogava uma bolinha para a cachorra pegar.
Nos últimos anos, Angélica afirma que vinha se sentindo com menos energia e buscando ficar um “pouco mais escondida”. “Estava numa fase assim querendo me proteger para me entender mais como pessoa.” Foi nessa época que decidiu trabalhar menos. E como não tinha como falar para a Globo, empresa da qual era contratada desde 1996, “me dá um ano sabático”, ela e a emissora decidiram encerrar o contrato fixo. “Acho que a gente também estava numa relação desgastada e eu não tinha muito o que fazer ali.”
O ano era 2019 e, desde então, Angélica vem desenvolvendo projetos por temporadas para a emissora. Esse tempo, diz ela, foi muito positivo para conseguir “olhar mais para dentro” e também para desenvolver uma outra forma de trabalhar, em acordo com os seus desejos e sem a “pressão de ter um empregador”.
Inicialmente, porém, ela admite que não foi fácil deixar o “muro protetor” que a Globo oferecia. “Se eu fizesse alguma coisa boa, alguma coisa ruim, ou não fizesse nada, tinha aquilo ali [a emissora de retaguarda]. Quando você sai, você se sente desamparado no início.”
Questionada se voltaria hoje a apresentar um programa diário na TV aberta, Angélica silencia por alguns segundos e responde que sim, desde que a proposta a agradasse. “Eu estou muito acostumada em fazer um projeto e entregar, e esse modelo é muito gostoso. Mas, por outro lado, sou um bicho de televisão. Me sinto acolhida nesse ambiente e me cobram muito [o público] para fazer mais coisas”.
Ela conta que vem conversando com a Globo sobre propostas para 2025. Uma delas já está definida: Angélica apresentará o Video Game em uma edição especial do Video Show, que será exibida em abril do ano que vem em comemoração aos 60 anos da emissora.
Um outro desejo de Angélica, em algum momento do futuro, é comandar uma atração ao vivo. “Gosto da ideia. Esses dias a gente estava conversando sobre projetos e um deles surgiu [sobre isso], fiquei pensando e falei: ‘Caramba, já fiz muita coisa ao vivo, mas só de forma pontual’.”
Ela reflete que assumir o compromisso com um programa do tipo “é uma pequena prisão”. “Mas me senti tentada [com a possibilidade]”, admite. “Hoje eu me sinto mais forte, mais preparada para essa segunda fase [da vida]. Não sei o que vai acontecer, mas o desconhecido é bem-vindo.”
O que já é certo é o programa 50 & Uns, que estreia neste domingo (10) no Globoplay e como um quadro no Fantástico —e, posteriormente, será exibido no GNT. A atração é uma espécie de continuação do 50 & Tanto, lançado por ela no ano passado.
A proposta é semelhante. A apresentadora recebe em sua casa um grupo de famosos para discutirem temas diversos. Só que, enquanto na primeira versão ela conversou apenas com mulheres, agora o diálogo será com os homens. A ideia inicial partiu do seu filho mais velho, Joaquim, 19, durante um almoço familiar. Após o sucesso do papo feminino, ele sugeriu: por que não chamar os homens?
Para Angélica, é importante também dar esse espaço para os “homens antenados e espertos” que estão dispostos a expor as suas vulnerabilidades e participar dos debates que vêm sendo puxados pelas mulheres nos últimos anos, como os questionamentos sobre o sistema patriarcal e o machismo que ainda dominam a sociedade.
Na visão de Angélica, é “uma loucura” ver declarações como a do empresário Tallis Gomes, fundador da Easy Taxi, que disse nas redes sociais em setembro “Deus me livre CEO mulher”. “É o tal do homem que está assustado, meio perdido com esse movimento positivo das mulheres e aí ataca. Parece um pouco criança e adolescente quando está apaixonado e que trata mal a menina para chamar a atenção.”
“Claro que é uma bobagem. Uma mulher falar isso já seria errado. Um homem falar [isso] chega a ser engraçado de tão ridículo”, completa.
No 50 & Uns, ela vai receber nomes como Antonio Fagundes, Lázaro Ramos, Ney Matogrosso e o próprio marido, Luciano Huck. Com o apresentador, a conversa será sobre política. O nome de Huck chegou a ser cogitado para disputar a Presidência da República em 2018 e em 2022. Angélica já disse que não gostaria de ver o marido no cargo, especialmente pelo lado pessoal: os filhos do casal eram menores e ela achava importante uma presença forte do pai em casa.
“Mas eu realmente acho que um cargo majoritário como esse, de presidente, é uma missão, não é uma decisão de um grupinho. É uma vontade que a pessoa tem de mudar a vida das pessoas, não é a minha opinião que vai conseguir impedir isso.”
Para Angélica, Huck é um ser político em tudo que ele faz. “Seja na televisão ou como empreendedor, porque ele gosta de gente. Quando nós viajamos, ele conversa com todo mundo, quer saber a opinião das pessoas, ele tem isso nele. É muito mais forte do que uma opinião minha.”
A apresentadora afirma que se sente pressionada a se manifestar politicamente, mas entende que essa cobrança faz parte por ser uma pessoa pública. Em 2022, ela disse em uma entrevista para a revista Marie Claire que estava com muita dificuldade de tomar uma decisão sobre em quem votar para presidente. Quando a entrevista foi publicada e após receber muitas críticas, Angélica voltou a se manifestar, declarando que votaria em Lula (PT) e que jamais tinha cogitado optar por Jair Bolsonaro (PL).
“Eu não me arrependo [da declaração]. Não posso dizer que estou muito feliz com tudo que está acontecendo no nosso país politicamente, não. Mas eu não me arrependo porque, na minha visão, era a melhor opção naquele momento.” Ela afirma, porém, que não se sente muito à vontade para dar a sua opinião sobre o tema. Não por medo das críticas e dos ataques nas redes, diz. “Isso eu estou acostumada, porque mesmo não falando nada, só o fato de ser artista, você já toma porrada.”
O problema, segundo ela, é a responsabilidade de saber que uma declaração sua pode impactar as pessoas, mesmo que seja um grupo pequeno. Por isso, ela diz só falar sobre o seu voto quando é realmente necessário ou quando tem muita certeza da sua opção.
Para Angélica, política “é uma palavra linda”, mas que virou um palavrão no Brasil. “E não deveria porque a política é a única forma de mudar a vida das pessoas [no macro]”, diz. “E tem muita gente nova, boa que eu olho e falo: Há esperanças no final do túnel”, completa. Ela cita como exemplos positivos as deputadas federais Tabata Amaral (PSB), que foi candidata à Prefeitura de São Paulo, e Erika Hilton (PSOL).
Como está na mídia desde a infância, Angélica diz que se preocupar com a própria imagem é algo que já está enraizado nela, mas que vem tentando desconstruir isso para não virar escrava da beleza. Ela avalia que saiu-se bem ao não ter sucumbido ao longo da vida à pressão estética. “Como eu cuido da minha cabeça, faço análise, e sempre fui uma pessoa mais espiritualizada, meio bruxinha, acho que me segurei. Mas não é fácil. Se eu fosse seguir a cobrança, estaria toda transformada [visualmente]”, afirma.
Não que ela seja contra procedimentos estéticos. Afirma inclusive que nunca fez plástica, mas se um dia achar que é necessário, fará. A sua preocupação maior, no entanto, é com a filha, Eva, de 12 anos, e a geração mais nova que, em sua visão, vem sendo muito pressionada por padrões impostos na internet. “Acho muito cruel para as meninas. Eu vivi isso de outro jeito. Os diretores cobravam, as revistas cobravam, e sei que é muito ruim, muito chato.”
“Mas, por exemplo, maquiagem pra mim era trabalho, e pra ela [a filha] é pra ir pro shoppping. Acho bem ruim, porque como vai ser isso a longo prazo?”, questiona. “E as redes sociais não estão ajudando. Ao mesmo tempo que as nossas meninas estão empoderadas, podem falar sobre assuntos que a gente não podia, elas não podem ser elas mesmas, porque elas são muito cobradas por essa coisa estética das redes.”
Angélica avalia que o mundo ainda está em um momento de revolução tecnológica e de muita indefinição sobre as novas ferramentas que estão surgindo. A inteligência artificial (IA), por exemplo, é algo que a deixa muito temerosa.
“É quase um monstrinho que está ali querendo atacar e a gente não sabe como lidar com ele”, afirma. A apresentadora conta que há meses tenta tirar do ar uma propaganda falsa que usa a imagem e a voz dela. “Ficamos uns três meses para conseguir remover da internet e recentemente recebi o mesmo vídeo de novo, encaminhado por uma amiga.”
Outra preocupação dela é em como as discussões nas redes sociais são muitas vezes rasas. “As pessoas leem o título, ouvem os dez primeiros segundos de um vídeo e já acham que sabem tudo. É muito superficial e isso é um perigo”, opina. “Essa é a minha briga com os meus filhos aqui em casa. Faço uma pergunta, eles respondem, e eu falo: ‘Não, não, não. Elabora [melhor]. Vamos conversar, vamos olhar no olho’.”

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