NOSSAS REDES

POLÍTICA

Apesar dos esforços de Lula, relação com militares…

PUBLICADO

em

Marcela Mattos

Apesar da ausência dos chefes do Legislativo e do Judiciário, o presidente Lula conseguiu reunir no Palácio do Planalto representantes dos Três Poderes na cerimônia que marcou os dois anos dos ataques de 8 de janeiro. Entre eles, estavam o ministro da Defesa, José Múcio, e os comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, personagens centrais de um dos enredos que mais desafiam o governo. Num sinal de deferência do cerimonial do evento, organizado pela primeira-dama Rosângela da Silva, Múcio foi acomodado na primeira fileira de convidados. Já o trio da cúpula militar ficou nas últimas filas, um pouco à frente do ator José de Abreu, que já defendeu o “fechamento” das três Forças e é um crítico ferrenho dos fardados. Todos entraram e saíram calados. Após a apresentação de obras de arte restauradas, discursos que condenaram a tentativa de golpe e gritos contra a anistia aos extremistas, a solenidade foi encerrada. Tudo milimetricamente planejado para transmitir uma imagem de tranquilidade — uma encenação, porque nas coxias, longe dos holofotes, a relação entre o governo e os militares ainda é de tensão, apreen­são e desconfiança mútua.

PELOS FUNDOS - 8 de Janeiro: cerimônia “com viés político-eleitoral” constrangeu e preocupou os oficiais (VPR/.)

Na véspera da cerimônia, a cúpula militar demonstrou incômodo ao constatar que a solenidade teria um forte componente político-eleitoral, e não institucional. Esse viés era incoerente com a determinação dada pelos comandantes aos quartéis para que se mantivessem longe da política. Também parecia uma provocação desnecessária, por expor os militares à possibilidade de serem hostilizados em público. Mesmo assim, eles decidiram ir, já que a ausência poderia ser interpretada como um gesto de insubordinação ou até de insatisfação com os inquéritos que apuram a suposta tentativa de golpe, nos quais há uma longa lista de oficiais investigados. Com a decisão de comparecer tomada, veio o debate sobre a extensão dessa participação. Os comandantes não sabiam se teriam ou não de descer a rampa do Palácio rumo aos militantes que aguardavam Lula para um abraço simbólico em torno das flores que, espalhadas pelo chão, formavam a palavra democracia. O temor era de que fossem vaiados e chamados de “golpistas”. O mal-­estar foi contornado pelo cerimonial, que liberou os comandantes. Eles deixaram o Planalto, de forma discreta, pelo elevador.

A relação do governo Lula com os militares está distante de algo que possa ser classificado como dentro da normalidade. Tanto que o principal responsável por tentar aproximar as partes, o ministro José Múcio, da Defesa, pediu ao presidente para deixar o cargo. Alvo permanente do fogo amigo petista, Múcio defende a punição dos militares golpistas, ou do que ele chama de CPFs, preservando a instituição. Por outro lado, como forma de reduzir a aversão da caserna ao PT, se empenhou, sem sucesso, para aprovar projetos de interesse das Forças Armadas, sabotado por colegas de governo. Após dois anos de mandato, o diagnóstico é o de que Lula até mantém uma relação cordial, mas seu governo não tem boa vontade com os quartéis. Recentemente, a temperatura voltou a subir. Em novembro passado, o Planalto anunciou que incluiria as Forças Armadas no pacote de ajuste fiscal e tocaria num dos pontos mais sensíveis para a categoria: a Previdência. Para a grande maioria dos oficiais, senão a totalidade, mudanças no regime de aposentadoria devem ser classificadas como “inaceitáveis”. O governo sabe disso, mas decidiu levar o assunto em frente.

IRRITAÇÃO - Exército: queixas pela falta de dinheiro para novos equipamentos
IRRITAÇÃO - Exército: queixas pela falta de dinheiro para novos equipamentos (10ª RM/Exército Brasileiro/.)
Continua após a publicidade

O plano de arrocho quase levou à queda de um comandante e também serviu como gatilho para Múcio entregar os pontos. No fim do ano passado, o ministro, os chefes das Forças e Lula se reuniram para discutir as mudanças na Previdência. Os militares pleiteavam uma transição maior para a adequação à idade mínima de 55 anos proposta no texto. A conversa foi amigável. No dia seguinte, porém, a Marinha divulgou um vídeo ironizando uma suposta boa vida dos civis enquanto os marinheiros suavam a camisa. Os militares festejaram intimamente a provocação, mas o presidente ficou irritado, fechou as portas para a negociação e convocou Múcio e o almirante Marcos Sampaio Olsen a dar explicações. O chefe da Marinha reconheceu que a gravação foi inoportuna, mas não pediu desculpas. Já o ministro disse que não soube previamente do material e classificou o vídeo como um tiro nas costas. Havia receio de que o Exército e a Aeronáutica aderissem ao mesmo discurso e transformassem uma crise latente num embate público. Olsen quase foi demitido, mas se segurou no cargo porque o governo teve medo da repercussão. Os apertos de mão e conciliações em gabinetes que se seguiram não significam que a questão foi contornada.

Militares de alta patente já sinalizaram que tentarão derrotar ou amenizar as regras de mudança em seu regime previdenciário no Congresso. Se preciso, pedirão votos até para a oposição. Em meio ao iminente tiroteio, o ministro da Defesa sabe que será atingido por um dos lados — ou os dois. A possível saída dele tem gerado preocupação na cúpula das Forças, que tenta convencê-lo a permanecer no cargo. No meio político, no entanto, não faltam interessados em sua demissão, que facilitaria a acomodação de interesses envolvidos no debate de uma reforma ministerial. São cotados para a vaga nomes como Ricardo Lewandowski, hoje na Justiça, o vice Geraldo Alckmin e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco. Seja qual for o nome, é certo que ele não terá vida fácil. Além da desconfiança ampla, há o impasse sobre projetos. Com previsão orçamentária de 133 bilhões de reais para este ano, as Forças Armadas gastam a maior parte da verba com pagamento de pessoal e reclamam que recursos destinados ao treinamento da tropa acabam sendo consumidos em operações emergenciais para as quais os militares são convocados. Também não haveria verbas para a modernização de equipamentos de combate.

PROTESTO - Múcio e Olsen: um pedido de demissão e uma ameaça de demissão
PROTESTO - Múcio e Olsen: um pedido de demissão e uma ameaça de demissão (Marinha do Brasil/.)
Continua após a publicidade

Um exemplo da insatisfação foi tornado público pelo próprio Múcio quando reclamou com empresários de um veto “ideológico” do governo à aquisição de viaturas blindadas de uma empresa de Israel, alvo de críticas da diplomacia brasileira após os ataques na Faixa de Gaza. Os estudos para a aquisição começaram há oito anos, a licitação passou por diversas etapas e obteve o aval do Tribunal de Contas da União (TCU), mas, por orientação do assessor especial e chanceler informal Celso Amorim, a ordem é para que a compra dos obuseiros não seja concluída. Apesar do veto ideológico, em dezembro a licitação foi estendida por mais seis meses pelo Exército. A Força sabe que o negócio, ao menos a curto prazo, não será autorizado, mas quer que alguém do governo formalize essa negativa, assumindo o ônus de impedir o avanço do negócio. Essa guerra silenciosa agora está na iminência de perder seu único mediador, José Múcio, um apaziguador nato que parece ter perdido a paciência para lidar com a má vontade de ambos os lados.

Publicado em VEJA de 17 de janeiro de 2025, edição nº 2927



Leia Mais: Veja

Advertisement
Comentários

Warning: Undefined variable $user_ID in /home/u824415267/domains/acre.com.br/public_html/wp-content/themes/zox-news/comments.php on line 48

You must be logged in to post a comment Login

Comente aqui

POLÍTICA

Frase do dia: Ciro Gomes

PUBLICADO

em

Frase do dia: Ciro Gomes

Matheus Leitão

Frase do dia: Ciro Gomes | VEJA

Relâmpago: Digital Completo a partir R$ 5,99

“Estou muito envergonhado! Isto é uma indignidade inexplicável!” (Ciro Gomes, ex-ministro da Fazenda, usando as redes sociais para reclamar da troca de Carlos Lupi por Wolney Queiroz, seu desafeto no PDT, no comando do Ministério da Previdência Social) 


VEJA

Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

Apenas 5,99/mês

DIA DAS MÃES

Revista em Casa + Digital Completo

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 9)

A partir de 35,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
Pagamento único anual de R$71,88, equivalente a R$ 5,99/mês.


PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.

Comscore

//www.instagram.com/embed.js



Leia Mais: Veja

Continue lendo

POLÍTICA

Charge do JCaesar: 05 de maio

PUBLICADO

em

Charge do JCaesar: 05 de maio

Felipe Barbosa

Charge do JCaesar: 05 de maio | VEJA

Relâmpago: Digital Completo a partir R$ 5,99


VEJA

Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

Apenas 5,99/mês

DIA DAS MÃES

Revista em Casa + Digital Completo

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 9)

A partir de 35,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
Pagamento único anual de R$71,88, equivalente a R$ 5,99/mês.


PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.

Comscore

//www.instagram.com/embed.js



Leia Mais: Veja

Continue lendo

POLÍTICA

A articulação para mudar quem define o teto de jur…

PUBLICADO

em

A articulação para mudar quem define o teto de jur...

Nicholas Shores

O Ministério da Fazenda e os principais bancos do país trabalham em uma articulação para transferir a definição do teto de juros das linhas de consignado para o Conselho Monetário Nacional (CMN). 

A ideia é que o poder de decisão sobre o custo desse tipo de crédito fique com um órgão vocacionado para a análise da conjuntura econômica. 

Compõem o CMN os titulares dos ministérios da Fazenda e do Planejamento e Orçamento e da presidência do Banco Central – que, atualmente, são Fernando Haddad, Simone Tebet e Gabriel Galípolo.

A oportunidade enxergada pelos defensores da mudança é a MP 1.292 de 2025, do chamado consignado CLT. O Congresso deve instalar a comissão mista que vai analisar a proposta na próxima quarta-feira. 

Uma possibilidade seria aprovar uma emenda ao texto para transferir a função ao CMN.

Continua após a publicidade

Hoje, o poder de definir o teto de juros das diferentes linhas de empréstimo consignado está espalhado por alguns ministérios. 

Cabe ao Conselho Nacional da Previdência Social (CNPS), presidido pelo ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, fixar o juro máximo cobrado no consignado para pensionistas e aposentados do INSS.

A ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, é quem decide o teto para os empréstimos consignados contraídos por servidores públicos federais.

Continua após a publicidade

Na modalidade do consignado para beneficiários do BPC-Loas, a decisão cabe ao ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias.

Já no consignado de adiantamento do saque-aniversário do FGTS, é o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que tem a palavra final sobre o juro máximo.

Atualmente, o teto de juros no consignado para aposentados do INSS é de 1,85% ao mês. No consignado de servidores públicos federais, o limite está fixado em 1,80% ao mês.

Continua após a publicidade

Segundo os defensores da transferência da decisão para o CMN, o teto “achatado” de juros faz com que, a partir de uma modelagem de risco de crédito, os bancos priorizem conceder empréstimos nessas linhas para quem ganha mais e tem menos idade – restringindo o acesso a crédito para uma parcela considerável do público-alvo desses consignados.

Ainda de acordo com essa lógica, com os contratos de juros futuros de dois anos beirando os 15% e a regra do Banco Central que proíbe que qualquer empréstimo consignado tenha rentabilidade negativa, a tendência é que o universo de tomadores elegíveis para os quais os bancos estejam dispostos a emprestar fique cada vez menor.



Leia Mais: Veja

Continue lendo

MAIS LIDAS