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BHP é julgada em Londres por tragédia de Mariana – 20/10/2024 – Cotidiano

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José Henrique Mariante

Após quase nove anos do rompimento da barragem da Samarco em Mariana (MG), que matou 19 pessoas e espalhou lama tóxica por quase 700 km de Minas Gerais ao oceano Atlântico, um acordo entre a empresa, grupos de afetados e poder público está próximo de ser celebrado. Isso no Brasil, pois na Inglaterra a discussão está apenas começando.

Uma corte inglesa, a partir desta segunda-feira (21), vai determinar se a responsabilização da filial brasileira da BHP, sócia da Vale na Samarco, alcança a matriz da multinacional anglo-australiana, com sede no Reino Unido. Se assim for decidido, a indenização para mais de 620 mil litigantes e dezenas de entidades e municípios poderia chegar a R$ 260 bilhões.

A cifra é superior aos R$ 170 bilhões do acordo brasileiro, anunciado como iminente pela Vale em comunicado ao mercado na sexta-feira (18).

A diferença fica ainda maior quando se nota que, desse total, indenizações individuais, reassentamentos e recuperação ambiental merecerão R$ 32 bilhões. A Samarco já desembolsou R$ 38 bilhões em remediações. O restante, R$ 100 bilhões, será pago em 20 anos para as três esferas de governo financiarem políticas públicas nas regiões atingidas.

A disputa jurídica transnacional também é discutida no Judiciário brasileiro. O Ibram, entidade que reúne as mineradoras do país, foi ao STF (Supremo Tribunal Federal) para contestar os contratos de risco assinados por prefeituras da região com o escritório Pogust Goodhead, autor da ação na Inglaterra.

Em decisão liminar, na última semana, o ministro Flávio Dino suspendeu tais atos, apontando para decisão do TCU que veda o pagamento de honorários de êxito pela administração pública.

Nesse modelo, os advogados só recebem se ganham a causa, normalmente em porcentagem maior do que o habitual. No caso do Pogust Goodhead, como mostrou a Folha, ocorre o financiamento de litígio, em que investidores de risco suportam as custas do processo. Grandes escritórios brasileiros contestaram a estratégia em uma representação na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

A banca inglesa, por sua vez, lista dois grandes motivos para mover a ação no exterior. “É fato, estamos indo contra quem tem o dinheiro, o grande controlador, a BHP, que tem sede no Reino Unido. O segundo ponto é que a gente não tem um remédio igual na Justiça brasileira. O direito processual inglês permite que uma enorme coletividade, mais de 600 mil pessoas, físicas ou jurídicas, possam entrar de uma vez só em uma ação”, afirma Caroline Narvaez Leite, diretora do Pogust Goodhead.

A disputa no Brasil não tem como alcançar o caso na Inglaterra, onde o debate, ironicamente, se dará à luz do direito ambiental brasileiro.

Após quatro semanas de considerações iniciais e testemunhos de executivos da BHP, a corte inglesa passará quase um mês ouvindo especialistas em legislação brasileira (direito ambiental, direito societário e responsabilidade civil). Antes de determinar ou não a responsabilização da matriz, o tribunal, acostumado a disputas transnacionais, procurará entender e seguir o que dizem as leis brasileiras. Mas o que elas dizem?

“Que você não depende de culpa para ser responsabilizado. Se eu, empresa, por meio de uma ação minha, causei uma degradação ao meio ambiente, eu serei responsável. É o que a gente chama de responsabilidade objetiva. Independe da minha culpa, do meu ato”, declara Narvaez Leite.

“A legislação é nova, se você comparar com outros diplomas legislativos no Brasil, a jurisprudência ainda está se formando. Não vai se decidir quem é responsável dentro do direito ambiental. Não é essa a discussão. A discussão é se o direito ambiental, na legislação brasileira, alcança uma acionista indireta, que não tinha o controle ou gestão do negócio, da operação”, pondera Aline Cavalcante, advogada da BHP.

Guilherme José Purvin de Figueiredo, doutor em direito ambiental pela USP e coordenador internacional da Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil, explica que “a lei estabelece que a obrigação independe da existência de culpa do poluidor”. “Ou seja, não seria sequer preciso provar que houve negligência, imperícia ou imprudência da empresa”, diz.

Já o ajuizamento da ação no exterior “envolve questões mais intrincadas”. A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB) diz que a autoridade judiciária brasileira é competente quando o réu for domiciliado no país ou nele tiver de ser cumprida a obrigação.

“Não dispõe, e nem poderia dispor, sobre a competência de autoridade judiciária estrangeira quando o réu for domiciliado fora do Brasil ou o cumprimento da obrigação tiver ou puder se dar no exterior. Não me parece que a LINDB constitua qualquer óbice para o ajuizamento de ação pelas partes prejudicadas”, diz Purvin de Figueiredo.

Já Fernanda Lavarello, diretora de assuntos corporativos da BHP, afirma que a ação na Inglaterra não tem sentido diante do andamento das medidas no Brasil.

“A gente nunca abandonou o Brasil, nunca se recusou a fazer e a aportar recursos nas ações de reparação que estão em andamento no país. Já foram desembolsados R$ 38 bilhões, mais ou menos metade disso para indenizações de pessoas atingidas. Não faz sentido a gente responder por isso duas vezes”, diz.

“Temos empatia com todos que sofreram. Nossa posição é continuar de forma muito comprometida com todas as ações no Brasil e seguir de forma bastante pragmática com a nossa defesa em Londres.”

A fase inicial do julgamento tem etapas agendadas até o próximo mês de março. A expectativa da acusação é que uma sentença sobre a responsabilização ou não da matriz possa ocorrer em meados de 2025.

O passo seguinte, caso a BHP seja condenada, seria determinar o valor de indenização de cada litigante. O processo, obviamente complexo, dado o número de participantes da ação, consumiria de três a cinco anos.



Leia Mais: Folha

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VÍDEO: Veja o que disse Ministra em julgamento do ex-governador Gladson Cameli

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No julgamento desta quarta-feira, dia 15/04/2026, a Corte Especial do STJ, por unanimidade, determinou o imediato desentranhamento dos Relatórios de Inteligência Financeira de n°s 50157.2.8600.10853, 50285.2.8600.10853 e 50613.2.8600.10853, a fim de que fosse viabilizada a continuidade do julgamento de mérito da ação penal. A própria Ministra Relatora Nancy Andrighi foi quem suscitou referida questão de ordem, visando regularizar e atualizar o processo. 

O jornalista Luis Carlos Moreira Jorge descreveu o contexto com as seguintes palavras:

SITUAÇÃO REAL
Para situar o que está havendo no STJ: o STF não determinou nulidade, suspensão de julgamento e retirada de pauta do processo do governador Gladson. O STF apenas pediu para desentranhar provas que foram consideradas ilegais pela segunda turma da Corte maior. E que não foram usadas nem na denúncia da PGR. O Gladson não foi julgado ontem em razão da extensão da pauta do STJ. O julgamento acontecerá no dia 6 de maio na Corte Especial do STJ, onde pode ser absolvido ou condenado. Este é o quadro real.

A posição descrita acima reflete corretamente o quadro jurídico do momento.

Veja o vídeo:

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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

A Ufac participou do lançamento do projeto Tecendo Teias na Aprendizagem, realizado na reserva extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira (AC). O evento ocorreu em 28 de março e reuniu representantes do poder público, comunidade acadêmica e moradores da reserva.

Com uma área de aproximadamente 750 mil hectares e cerca de 500 famílias, a Resex é território de preservação ambiental e de produção de saberes tradicionais. O projeto visa fortalecer a educação e promover a troca de conhecimentos entre universidade e comunidade.

O presidente da reserva, Nenzinho, destacou que a iniciativa contribui para valorizar a educação não apenas no ensino formal, mas também na qualidade da aprendizagem construída a partir das vivências no território. Segundo ele, a proposta reforça o papel da universidade na escuta e no reconhecimento dos saberes locais.

O coordenador do projeto, Rodrigo Perea, sintetizou a relação entre universidade e comunidade. “A floresta ensina, a comunidade ensina, os professores aprendem e a Ufac aprende junto.” 

Também estiveram presentes no lançamento os professores da Ufac, Alexsande Franco, Anderson Mesquita e Tânia Mara; o senador Sérgio Petecão (PSD-AC); o prefeito de Sena Madureira, Gerlen Diniz (PP); e o agente do ICMBio, Aécio Santos.
(Fhagner Silva, estagiário Ascom/Ufac)



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Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre

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Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre

 Os professores Jhonatan Gomes Gadelha e Shirley Regina de Almeida Batista, do curso de Educação Física da Ufac, realizaram a mostra de dança NT: Sementes de uma Pioneira, em homenagem à professora aposentada Norma Tinoco, reunindo turmas de bacharelado e licenciatura, escolas de dança e artistas independentes. O evento ocorreu na noite de 25 de março, no Teatro Universitário, campus-sede, visando celebrar a trajetória da homenageada pela inserção e legitimação da dança no curso.

Norma recebeu uma placa comemorativa pelos serviços prestados à universidade. Os alunos do curso, André Albuquerque (bacharelado) e Matheus Cavalcante (licenciatura) fizeram a entrega solene. Segundo os organizadores, os anos de dedicação da professora ao curso e seu pioneirismo jamais serão esquecidos.

“A ideia, que ganhou corpo e emoção ao longo de quatro atos, nasceu do coração de quem viveu de perto a influência da homenageada”, disse Jhonatan Gomes Gadelha, que foi aluno de Norma na graduação. Ele contou que a mostra surgiu de uma entrevista feita com ela por ocasião do trabalho dele de conclusão de curso, em 2015. “As falas, os ensinamentos e as memórias compartilhadas por Norma naquele momento foram resgatadas e transformadas em movimento”, lembrou.

Gadelha explicou que as músicas que embalaram as coreografias autorais foram criadas com o auxílio de inteligência artificial. “Um encontro simbólico entre a tradição plantada pela pioneira e as ferramentas do futuro. O resultado foi uma apresentação carregada de bagagem emocional, autenticidade e reverência à história que se contava no palco.”

Mostra em 4 atos

A professora de Educação Física, Franciely Gomes Gonçalves, também ex-aluna de Norma, foi a mestre de cerimônias e guiou o público por uma narrativa que comparava a trajetória da homenageada ao crescimento de uma árvore: “A Pioneira: A Raiz (ato I), “A Transformadora: O Tronco” (ato II), “O Legado: Os Frutos” (ato III) e “Homenagem Final: O reconhecimento” (ato IV).

O ato I trouxe depoimentos em vídeo e ao vivo, além de coreografias como “Homem com H” (com os 2º períodos de bacharelado e licenciatura) e “K Dance”, que homenageou os anos 1970. O ex-bolsista Kelvin Wesley subiu ao palco para saudar a professora. A escola de dança Adorai também marcou presença com as variações de Letícia e Rayelle Bianca, coreografadas por Caline Teodoro, e o carimbó foi apresentado pelo professor Jhon e pela aluna Kethelen.

O ato II contou com o depoimento ao vivo de Jhon Gomes, ex-aluno que seguiu carreira artística e acadêmica, narrando um momento específico que mudou sua trajetória. Ele também apresentou um solo de dança, seguido por coreografias da turma de licenciatura e uma performance de ginástica acrobática do 4º período.

No ato III foi exibido um vídeo em que os atuais alunos do curso de Educação Física refletiram sobre o que a dança significa em suas formações. As apresentações incluíram o Atelier Escola de Dança com “Entre o que Fica e o que Parte” (Ana Fonseca e Elias Daniel), o Estúdio de Artes Balancé com “Estrelas” (coreografia de Lucas Souza) e a Cia. de Dança Jhon Gomes, com outra versão de “Estrelas”. A escola Adorai retornou com “Sarça Ardente”, coreografada por Lívia Teodoro; os alunos do 2º período de bacharelado encerraram o ato.

No ato IV, após o ministério de dança Plenitude apresentar “Raridade”, música de Anderson Freire, a professora Shirley Regina subiu ao palco para oferecer palavras à homenageada. Em seguida, a mestre de cerimônias convidou Norma Tinoco a entrar em cena. Ao som de “Muda Tudo”, os alunos formaram um círculo ao redor da professora, cantando o refrão em coro.

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