ACRE
‘Eu vivia com medo absoluto dele’: Lech Blaine sobre como encontrar a humanidade nos profetas nascidos de novo que aterrorizaram sua família | Livros australianos
PUBLICADO
2 anos atrásem
Walter Marsh
Quando o jornalista e escritor Lech Blaine tinha 11 anos, sua mãe, Lenore, costumava brincar que poderia escrever um livro sobre os problemas que estavam logo depois da entrada de sua garagem em Toowoomba.
Na época, Blaine não conseguia imaginar ninguém querendo ler sobre Michael e Mary Shelley e o “terror visceral” que esses dois estranhos inspiravam nele e em seus irmãos. Mary, com seu vestido roxo e sotaque levemente elegante, aparecendo na porta deles chamando sua mãe de “serva de Satanás”, chamando seus irmãos por nomes desconhecidos que soam bíblicos como “Saulo” e “Josué”. Michael, sentado ameaçadoramente no Chrysler Branco do lado de fora, já um sequestrador condenado com uma longa e colorida ficha criminal. A família de Blaine se familiarizaria com as letras maiúsculas e selvagens que apareceriam em sua caixa de correio e com os carros de polícia que seguiriam a visita dos dois estranhos que os escreveram.
“Eu tinha muito medo deles, mesmo quando ainda era adolescente”, explica Blaine, agora com 32 anos. “Mesmo depois de me mudar de Toowoomba, eu costumava temer sua possível chegada.”
Parecia que não havia como escapar dos Shelleys. Em seu último livro Evangelho Australiano: Uma Saga FamiliarBlaine tenta entender os laços profundos que unem as famílias.
Os irmãos de Blaine, Steven, John e Hannah, nasceram Saul, Joshua e Hannah Shelley – os filhos biológicos de Mary e Michael. Mas eles foram, separadamente, retirados ainda bebés e crianças pequenas dos seus cuidados por assistentes sociais preocupados com o seu tratamento e colocados aos cuidados de pais adoptivos – Tom e Lenore Blaine. Mary e Michael nunca parariam de tentar recuperar seus filhos; por lei ou por ameaça de força.
Os Shelleys eram uma dupla de profetas cristãos que se autodenominavam compartilhando sua mistura personalizada de enxofre do Antigo Testamento e cultura hippie de volta à terra com qualquer pessoa que os ouvisse.
Durante anos, a dupla viajou de carona pela Austrália e pela Nova Zelândia, deixando um rastro de terra arrasada em tribunais, prisões e colunas de jornais. Eles rapidamente destruíram a boa vontade de qualquer um que os ajudasse e travaram campanhas desdenhosas de assédio contra aqueles que não o fizeram.
Isso os colocou em rota de colisão com a família Blaine; dois pais da classe trabalhadora e sua ninhada caótica de filhos adotivos amantes do rúgbi, com cortes de cabelo combinando no quintal, criados tendo como pano de fundo pubs rurais de uma pequena cidade. Para os Shelleys, eles representavam tudo o que era moral e espiritualmente corrupto na Austrália moderna.
Durante anos, as novas identidades, a família adotiva e a localização dos seus filhos foram um segredo bem guardado. Encontrá-los e recuperá-los tornou-se a obsessão de Shelley. Eles passaram décadas assediando assistentes sociais, enviando ameaças de morte ao primeiro-ministro de Queensland e, em 1983, sequestraram seu filho mais velho, Elijah, de seu lar adotivo.
Apesar das ordens de restrição e das acusações de perseguição, os Shelleys assombrariam os Blaines durante anos, com um fluxo quase constante de cartas ameaçadoras e suplicantes enviadas de qualquer lugar do mundo que Mary e Michael estivessem.
“O desprezo que sinto por vocês, dois desviantes do abuso de crianças, é profundo e merecido”, Michael escreveria em um e-mail para Lenore, acrescentando: “Estou feliz por saber para onde vocês dois estão indo – INFERNO!”
Essas tiradas faziam parte de uma longa e complicada trilha de papel na qual Blaine basearia seu livro.
Blaine começou a juntar as peças da história depois de voltar para casa aos 21 anos. diagnosticado com uma doença neurodegenerativa rara e terminale enquanto tentava entender o futuro dela, ele também se viu lutando com o passado da família.
“Ela manteve um registro meticuloso de tudo e passou tudo isso para mim”, explica ele. “Então passei aquele verão organizando sua colocação em uma casa de repouso, vendendo a casa e revisando basicamente tudo o que ela tinha.”
Foram anos de anotações em diários, recortes de jornais, relatórios de serviços sociais e, mais recentemente, uma década de e-mails que os Shelleys inundaram sua caixa de entrada.
“Às vezes fiquei tão viciado em informação”, diz ele.
“Nesse ponto, graças a muitas informações que mamãe guardava, percebi o quanto os Shelleys eram mais interessantes do que essas pessoas monstruosas e aterrorizantes que eu imaginava quando criança.”
Com a mãe doente demais para escrever a história, Blaine resolveu fazê-lo sozinho.
O arquivo de sua mãe contava um lado da história de Shelley. Mas quando começou a procurar assistentes sociais e outras testemunhas, Blaine sabia que havia outra fonte de quem ele precisava ouvir: Michael Shelley.
“Eu vivia com medo absoluto dele”, diz Blaine. Mesmo assim, ele lhe enviou um e-mail. “Na verdade, ainda não consigo acreditar que realmente fiz isso.”
Michael respondeu ao primeiro e-mail provisório de Blaine e logo estava compartilhando seu próprio arquivo pessoal de mais de 400.000 palavras de material, incluindo relatos autobiográficos não publicados, relatórios e sermões. Mesmo vindo de alguém que Blaine sabia ser um “narrador incrivelmente não confiável”, criou uma imagem vívida.
Os irmãos de Blaine estavam esgotados por anos de tentativas ardentes de Michael de se reconectar – muitas vezes acusando seus filhos de serem um “TRAIDOR”, “lavagem cerebral” pelas autoridades e pelos Blaines. Mas a correspondência de Lech Blaine adotou um tom diferente das mensagens de assédio que sua família recebia durante anos.
após a promoção do boletim informativo
“Foi muito civilizado”, lembra Blaine. “Ocasionalmente ele fazia alguns discursos retóricos, mas nunca foi realmente cruel comigo. Acho que ele estava mais bravo com meus irmãos adotivos porque eles não estavam prestando atenção nele nem tentando entrar em contato.
“Este é um cara que passou décadas tentando desesperadamente fazer com que as pessoas lessem seus escritos e perguntassem o que ele pensa sobre as coisas. Eu fui realmente uma das únicas pessoas que realmente demonstrou muito interesse no que ele tinha a dizer.”
Os volumosos escritos de Shelley preencheram as lacunas nos registros públicos, nos registros de sua mãe e nas próprias memórias de infância de Blaine.
“Tive uma noção muito melhor de quem eles eram antes de sofrerem colapsos nervosos e tive uma sensação genuína de que não eram mal. Eles não eram irremediavelmente horríveis. Desde o nascimento, eram pessoas ricas e complexas que tinham problemas de saúde mental bastante graves, especialmente no caso de Mary.”
Em uma vida anterior, os Shelleys foram socialites carismáticos e privilegiados de Sydney, cujos relacionamentos e façanhas conquistaram primeiras páginas de revistas e colunas de jornais.
Os Shelleys se encontraram após separações e colapsos, iniciando uma co-dependência de décadas que os viu abandonar para sempre a corrente principal da Austrália, não importa o custo.
À medida que o livro tomava forma, Blaine também se comprometeu a reconhecer como as complexidades de seus próprios pais moldaram a experiência familiar. Ele podia ver como o senso de humor de seu pai “larrikin” era um “mecanismo de enfrentamento para algumas das coisas que ele sofreu quando era muito jovem”. Ele entendia como sua mãe era uma excelente cuidadora adotiva porque não fazia julgamentos, “ela não irradiava nenhum sentimento de superioridade para as crianças”.
Lenore e Tom Blaine, e Michael e Mary Shelley faleceram anos atrás e enquanto Lech Blaine trabalhava no livro, seus irmãos queriam o mesmo tratamento no livro que os mais velhos: serem vistos como complexos, não como caricaturas.
“Eles não esperavam que eu pintasse um retrato deles em cor de rosa”, diz ele.
Blaine também não queria pintar um retrato cor-de-rosa da esperança na Austrália moderna. Ao acompanhar a vida de seus irmãos e dos irmãos deles, Blaine mostra que se a vida de alguém se torna um sonho ou pesadelo australiano pode depender de uma mistura opaca de natureza, criação, fatores sistemáticos além do controle da maioria das pessoas e pura sorte.
O resultado final, Australian Gospel, é um épico de grande coração, onde as dores do terror nunca estão longe da próxima gargalhada.
Para entender a história da perspectiva de seus irmãos, Blaine ligava para eles todas as noites, conversando por mais de uma hora por vez. “Isso durou anos”, diz ele. “Acho que isso apenas criou uma intimidade real.”
Quando crianças, os Shelley ameaçaram separar a família Blaine. Como adultos, juntar as peças da história ajudou a aproximá-los ainda mais.
Relacionado
VOCÊ PODE GOSTAR
ACRE
Ufac inaugura núcleo de apoio administrativo às coordenações de curso — Universidade Federal do Acre
PUBLICADO
19 horas atrásem
14 de outubro de 2026A Universidade Federal do Acre (Ufac) inaugurou, na manhã desta terça-feira, 13, o Núcleo Integrado de Apoio às Coordenações (NIAC), instalado na Pró-Reitoria de Graduação (Prograd). A iniciativa tem como objetivo oferecer suporte administrativo aos cursos de graduação, neste momento com atendimento prioritário a oito coordenações que estão sem servidores técnico-administrativos. A proposta prevê também o desenvolvimento de outras ações de apoio às coordenações no âmbito do núcleo. A solenidade contou com a participação do reitor Josimar Ferreira, da vice-reitora Almecina Balbino, da pró-reitora de Graduação, Danila Torres, e da pró-reitora de Desenvolvimento e Gestão de Pessoas substituta, Juliana Queirós.
O reitor destacou a importância da iniciativa para o funcionamento dos cursos e reconheceu a colaboração dos servidores envolvidos. “Quero parabenizar toda a equipe da Prograd, reconhecer o voluntariado dos nossos secretários de curso e o apoio das coordenações”, afirmou Josimar. Segundo ele, o serviço dará suporte especialmente às coordenações que estão sem secretários, mas também poderá atender aos demais coordenadores de curso.
A criação do NIAC é uma iniciativa da Prograd e da Pró-Reitoria de Desenvolvimento e Gestão de Pessoas (Prodgep), que contou também com a participação inicial do Núcleo de Registro e Controle Acadêmico (Nurca). O espaço foi organizado nas instalações da Prograd para facilitar o acompanhamento das atividades e o apoio aos servidores.
Segundo a pró-reitora Danila Torres, a proposta surgiu da necessidade de atender coordenações que enfrentam dificuldades na execução das atividades administrativas. Algumas delas estão há mais de oito meses sem servidores técnicos, deixando os coordenadores responsáveis também pelas rotinas administrativas. “A gente vai tentar apoiar as coordenações naquilo que elas precisam”, explicou.
O núcleo funciona por meio de uma escala de revezamento de servidores técnico-administrativos de outras coordenações. Atualmente, sete profissionais participam voluntariamente da iniciativa, com autorização das chefias imediatas, dedicando dois dias por semana ao atendimento compartilhado, sem deixar suas atividades nas unidades de origem.
A meta é ampliar a equipe para dez servidores, permitindo a presença de dois profissionais no turno da manhã e dois à tarde. “O serviço deles é padrão, é comum, então não tem um técnico para uma coordenação. Todos trabalham em todas essas oito coordenações”, explicou Danila.
Entre as primeiras demandas do NIAC está o lançamento das ofertas de disciplinas do semestre letivo 2026.2 no sistema acadêmico, considerando o início das solicitações de matrícula pelos estudantes nesta quinta-feira, 15. A medida busca assegurar o andamento dos procedimentos acadêmicos nas coordenações que não dispõem de técnicos para executar essas atividades.
Além do atendimento inicial às oito coordenações, a proposta é ampliar gradualmente a atuação do núcleo para oferecer suporte às demais unidades acadêmicas, incluindo o auxílio a novos coordenadores nas rotinas administrativas dos cursos e o desenvolvimento de outras ações de apoio às coordenações.
Relacionado
ACRE
Alunas da Ufac criam biblioteca de grafismos do povo Huni Kuin — Universidade Federal do Acre
PUBLICADO
6 dias atrásem
9 de outubro de 2026Alunas de graduação e mestrado do campus Floresta da Ufac criaram, em 2024, o projeto Biblioteca de Kene, que reúne tecelagem em algodão, pintura corporal, registros audiovisuais e uma plataforma digital acessível por celular. A iniciativa surgiu do trabalho de conclusão de curso de Txima Huni Kuin, em Licenciatura Indígena, e da pesquisa para a dissertação de Alexandra Deitos no programa de pós-graduação em Ensino de Humanidades e Linguagens.
Txima investigou a tecelagem como expressão dos conhecimentos, da arte e da espiritualidade de seu povo, sob orientação do professor Amilton Pelegrino de Mattos. Alexandra, artista visual e atualmente doutoranda, colaborou na construção do projeto por meio de uma pesquisa de autoria coletiva, desenvolvida com as mulheres da comunidade.
Desse encontro surgiu a proposta de criar um espaço onde os mais de 60 grafismos praticados pelas mulheres pudessem ser consultados, ensinados e aprendidos por jovens e mestras tecelãs. O projeto terá uma nova etapa entre 10 e 16 de outubro, com a realização da 2ª Oficina de Kene da Aldeia Arco-Íris, na terra indígena Seringal Independência, no município de Jordão (AC).
Aprendizagem no território
Durante os sete dias de oficina, mestras tecelãs e jovens aprendizes participarão de atividades de preparação de fios, cantos rituais, aplicação do Bawe e tecelagem de painéis com grafismos. Os processos serão documentados para compor o acervo da biblioteca na aldeia e seu site colaborativo, com gestão do conhecimento pelas próprias mulheres.
A proposta dialoga com a expressão “a universidade é na aldeia”, do professor e pesquisador Yube Huni Kuin, também acadêmico da Licenciatura Indígena da Ufac. A experiência reconhece o território e as práticas da comunidade como espaços de produção e transmissão de conhecimento.

A 2ª Oficina de Kene é realizada por Txima Huni Kuin, Alexandra Deitos e pela Aldeia Arco-Íris, com apoio do curso de Licenciatura Indígena, da Fundação de Cultura Elias Mansour, do governo do Acre, da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, do Ministério da Cultura e do governo federal.
Relacionado
ACRE
Ufac sedia encontro regional sobre residência e preceptoria no SUS — Universidade Federal do Acre
PUBLICADO
7 dias atrásem
8 de outubro de 2026A Ufac sediou o 2º Encontro Regional do Projeto de Desenvolvimento da Gestão de Programas de Residência e da Preceptoria no Sistema Único de Saúde (SUS). O evento ocorreu nesta quinta-feira, 8, no anfiteatro Garibaldi Brasil, campus-sede, e reuniu profissionais e representantes de instituições de saúde para a apresentação dos resultados de sete projetos de intervenção desenvolvidos ao longo de dois anos de formação.
A iniciativa é promovida pelo Hospital Sírio-Libanês, em parceria com o Ministério da Saúde, no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS, com participação da Ufac.
Para o reitor Josimar Ferreira, cerca de 80% das atividades dos residentes são realizadas nas unidades de saúde. Ele ressaltou o compromisso da gestão com a valorização dos profissionais que atuam na formação dos residentes. “Temos desenvolvido uma política para que os nossos preceptores possam participar dos nossos programas de pós-graduação, de forma a ter vagas garantidas para sua qualificação também.”
O encontro marcou a apresentação dos projetos de intervenção dos cursos de especialização em Gestão de Programas de Residência em Saúde e Educação na Saúde para Preceptores no SUS. Os trabalhos abordaram temas como formação e avaliação de preceptores, definição de perfis de competências, saúde mental dos residentes, reestruturação curricular e melhoria dos processos de trabalho nos serviços de saúde.
Segundo a coordenadora da Residência Multiprofissional Integrada em Saúde da Família e Comunidade da Ufac, Mariane Ribeiro, as iniciativas buscam qualificar tanto a formação dos residentes quanto as atividades desenvolvidas nos campos de prática. “Esses resultados que temos hoje proporcionam uma integração com o ensino, serviço e a comunidade, porque também têm um retorno para o usuário”, disse.
Para a representante do Hospital Sírio-Libanês e facilitadora de ensino e aprendizagem, Célia Márcia Birchler, a conclusão dos cursos representa uma etapa de um trabalho que deve continuar nas instituições de saúde. “Toda vez que fazemos um movimento de fortalecimento dos programas de residência, na realidade estamos falando de um processo de qualificação do SUS”, afirmou.
A presidente da Fundação Hospitalar Governador Flaviano Melo (Fundhacre), Sóron Angélica Steiner, disse que a formação estimula mudanças na organização do trabalho e no atendimento da população. “Essa força motriz que faz com que o serviço ande de acordo com a formação é o que faz com que o gestor seja provocado a melhorar o ambiente de trabalho, o fluxo de serviço.”
Também participaram da mesa de honra do encontro o presidente do Conselho Estadual de Saúde do Acre, Osvaldo de Souza Leal Júnior; e Pedro Henrique Macedo Leitão, representando o secretário municipal de Saúde de Rio Branco, Rennan Biths.
Relacionado
PESQUISE AQUI
MAIS LIDAS
ACRE7 dias agoUfac sedia encontro regional sobre residência e preceptoria no SUS — Universidade Federal do Acre
ACRE6 dias agoAlunas da Ufac criam biblioteca de grafismos do povo Huni Kuin — Universidade Federal do Acre
ACRE19 horas agoUfac inaugura núcleo de apoio administrativo às coordenações de curso — Universidade Federal do Acre
Warning: Undefined variable $user_ID in /home/u824415267/domains/acre.com.br/public_html/wp-content/themes/zox-news/comments.php on line 48
You must be logged in to post a comment Login