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México é a fronteira da expansão evangélica nas Américas? – 18/10/2024 – Cotidiano

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Há alguns dias, cheguei à Cidade do México. No Uber que percorria a longa trajetória do aeroporto ao hotel, percebi que o motorista cantarolava uma canção que tocava em seu celular. Pela letra, vi que se tratava de um louvor gospel.

Não contive a curiosidade e puxei assunto sobre religião. Parto dessa conversa para refletir sobre a expansão evangélica neste que é um dos países em que o catolicismo resiste nas Américas.

Uriel vem de uma família batista tradicional. Eu lhe contei que vinha do Brasil e que por lá há uma longa e forte tradição batista. Ele se emocionou com a coincidência. Me disse que, no México, ainda é raro encontrar evangélicos na vida pública, mas que os “crentes” têm crescido bastante, sobretudo nas periferias e nos estados mais pobres ao sul, como Chiapas e Tabasco. Muitos de seus amigos e conhecidos são trabalhadores informais.

Esse relato vem sendo corroborado por outras pequenas experiências pessoais aqui no México. Templos evangélicos surgem, timidamente, em meio às catedrais de um dos maiores países católicos do mundo. Livros que misturam fé cristã e autoajuda povoam vitrines de bancas e livrarias.

Para não ficar nas anedotas, fui atrás dos dados. Segundo o Censo de 2020, o México segue predominantemente católico (77,7%), ao passo que 11,2% se declaram evangélicos. O catolicismo, representado pela Virgem de Guadalupe, está na base da identidade nacional mexicana, ao lado da bandeira tricolor e da tequila, a bebida tradicional do país.

O protestantismo vem crescendo significativamente no México. Para David Riaño, do site evangélico Bite, as razões são múltiplas: nos últimos anos, redobraram-se os esforços de evangelização pelo país, inclusive junto a comunidades indígenas. Ademais, muitos mexicanos que emigraram dos Estados Unidos trouxeram novas práticas e filiações evangélicas.

Outro fator diz respeito à realidade econômica do país. O México é profundamente desigual e sofre com baixo crescimento econômico e precarização contínua do trabalho. Nesse sentido, as igrejas evangélicas estão bem posicionadas para oferecer uma rede de proteção social aos seus fiéis.

Embora ainda se trate de um fenômeno relativamente pequeno dentro do universo latino-americano, a influência evangélica na política mexicana já trouxe alguns efeitos. Em 2018, o populista de esquerda Andrés Manuel López-Obrador (Amlo) se elegeu numa aliança com o Partido Encuentro Social (PES), de origem evangélica e discurso ultraconservador.

O PES teve vida breve e foi dissolvido por não alcançar uma cláusula de barreira nacional, em 2021. Mas lideranças evangélicas vêm se aproximando da sucessora de Amlo e atual presidente, Claudia Sheinbaum, desde a campanha.

Após a eleição, alguns pastores reiteraram seu apoio ao novo governo, com base numa relação de respeito e colaboração. Sobre a mesa, um pedido para que Sheinbaum atualize a Lei de Associações Religiosas e Culto Público, de 1992, permitindo concessões públicas de rádio e TV para igrejas.

No México, poucos analistas têm se dedicado ao tema dos evangélicos na política. A maioria parece confiar na tradição centenária de laicidade do país, para além da perene influência católica.

Na contramão dessa visão, a socióloga Cecilia Delgado-Molina, em artigo de 2019, diz que não se pode subestimar o papel dos evangélicos nas eleições nacionais. A entrada “pela esquerda” na política pode ser somente uma estratégia pragmática de ocupação de espaços.

Assistimos a essa novela vinte anos atrás. No Brasil, a bancada evangélica se multiplicou sob os governos do PT. Quando viram a oportunidade, líderes evangélicos embarcaram na guerra cultural e ajudaram a eleger Jair Bolsonaro, sob a promessa de uma nação cristã.

Não se sabe ao certo se os evangélicos mexicanos seguirão o caminho da radicalização. O México é um dos poucos países em que a extrema direita ainda é insignificante. Para continuar assim, é fundamental que se construam canais de diálogo amplos para evitar que a história mexicana repita o que vimos no Brasil nos últimos anos.



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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

A Ufac participou do lançamento do projeto Tecendo Teias na Aprendizagem, realizado na reserva extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira (AC). O evento ocorreu em 28 de março e reuniu representantes do poder público, comunidade acadêmica e moradores da reserva.

Com uma área de aproximadamente 750 mil hectares e cerca de 500 famílias, a Resex é território de preservação ambiental e de produção de saberes tradicionais. O projeto visa fortalecer a educação e promover a troca de conhecimentos entre universidade e comunidade.

O presidente da reserva, Nenzinho, destacou que a iniciativa contribui para valorizar a educação não apenas no ensino formal, mas também na qualidade da aprendizagem construída a partir das vivências no território. Segundo ele, a proposta reforça o papel da universidade na escuta e no reconhecimento dos saberes locais.

O coordenador do projeto, Rodrigo Perea, sintetizou a relação entre universidade e comunidade. “A floresta ensina, a comunidade ensina, os professores aprendem e a Ufac aprende junto.” 

Também estiveram presentes no lançamento os professores da Ufac, Alexsande Franco, Anderson Mesquita e Tânia Mara; o senador Sérgio Petecão (PSD-AC); o prefeito de Sena Madureira, Gerlen Diniz (PP); e o agente do ICMBio, Aécio Santos.
(Fhagner Silva, estagiário Ascom/Ufac)



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Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre

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Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre

 Os professores Jhonatan Gomes Gadelha e Shirley Regina de Almeida Batista, do curso de Educação Física da Ufac, realizaram a mostra de dança NT: Sementes de uma Pioneira, em homenagem à professora aposentada Norma Tinoco, reunindo turmas de bacharelado e licenciatura, escolas de dança e artistas independentes. O evento ocorreu na noite de 25 de março, no Teatro Universitário, campus-sede, visando celebrar a trajetória da homenageada pela inserção e legitimação da dança no curso.

Norma recebeu uma placa comemorativa pelos serviços prestados à universidade. Os alunos do curso, André Albuquerque (bacharelado) e Matheus Cavalcante (licenciatura) fizeram a entrega solene. Segundo os organizadores, os anos de dedicação da professora ao curso e seu pioneirismo jamais serão esquecidos.

“A ideia, que ganhou corpo e emoção ao longo de quatro atos, nasceu do coração de quem viveu de perto a influência da homenageada”, disse Jhonatan Gomes Gadelha, que foi aluno de Norma na graduação. Ele contou que a mostra surgiu de uma entrevista feita com ela por ocasião do trabalho dele de conclusão de curso, em 2015. “As falas, os ensinamentos e as memórias compartilhadas por Norma naquele momento foram resgatadas e transformadas em movimento”, lembrou.

Gadelha explicou que as músicas que embalaram as coreografias autorais foram criadas com o auxílio de inteligência artificial. “Um encontro simbólico entre a tradição plantada pela pioneira e as ferramentas do futuro. O resultado foi uma apresentação carregada de bagagem emocional, autenticidade e reverência à história que se contava no palco.”

Mostra em 4 atos

A professora de Educação Física, Franciely Gomes Gonçalves, também ex-aluna de Norma, foi a mestre de cerimônias e guiou o público por uma narrativa que comparava a trajetória da homenageada ao crescimento de uma árvore: “A Pioneira: A Raiz (ato I), “A Transformadora: O Tronco” (ato II), “O Legado: Os Frutos” (ato III) e “Homenagem Final: O reconhecimento” (ato IV).

O ato I trouxe depoimentos em vídeo e ao vivo, além de coreografias como “Homem com H” (com os 2º períodos de bacharelado e licenciatura) e “K Dance”, que homenageou os anos 1970. O ex-bolsista Kelvin Wesley subiu ao palco para saudar a professora. A escola de dança Adorai também marcou presença com as variações de Letícia e Rayelle Bianca, coreografadas por Caline Teodoro, e o carimbó foi apresentado pelo professor Jhon e pela aluna Kethelen.

O ato II contou com o depoimento ao vivo de Jhon Gomes, ex-aluno que seguiu carreira artística e acadêmica, narrando um momento específico que mudou sua trajetória. Ele também apresentou um solo de dança, seguido por coreografias da turma de licenciatura e uma performance de ginástica acrobática do 4º período.

No ato III foi exibido um vídeo em que os atuais alunos do curso de Educação Física refletiram sobre o que a dança significa em suas formações. As apresentações incluíram o Atelier Escola de Dança com “Entre o que Fica e o que Parte” (Ana Fonseca e Elias Daniel), o Estúdio de Artes Balancé com “Estrelas” (coreografia de Lucas Souza) e a Cia. de Dança Jhon Gomes, com outra versão de “Estrelas”. A escola Adorai retornou com “Sarça Ardente”, coreografada por Lívia Teodoro; os alunos do 2º período de bacharelado encerraram o ato.

No ato IV, após o ministério de dança Plenitude apresentar “Raridade”, música de Anderson Freire, a professora Shirley Regina subiu ao palco para oferecer palavras à homenageada. Em seguida, a mestre de cerimônias convidou Norma Tinoco a entrar em cena. Ao som de “Muda Tudo”, os alunos formaram um círculo ao redor da professora, cantando o refrão em coro.

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I FÓRUM ESTADUAL "Autismo, Cultura, Mercado de Trabalho e Políticas Públicas no Acre."

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I FÓRUM ESTADUAL "Autismo, Cultura, Mercado de Trabalho e Políticas Públicas no Acre."

09 e 10 de ABRIL
Local: Teatro Universitário da UFAC
11 de ABRIL
Local: Anfiteatro Garibaldi Brasil UFAC

Mais informações

 



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