ACRE
Nay wa Mitego, o rapper tanzaniano que foi banido, preso e ameaçado, mas diz que não vai parar | Hip-hop
PUBLICADO
2 anos atrásem
Carlos Mureithi in Dar es Salaam
O rapper tanzaniano Nay wa Mitego detesta pensar no número de vezes que teve desentendimentos com as autoridades tanzanianas por causa da sua música.
Tudo começou em 2016, durante a administração do presidente John Magufuli. Desde então, ele enfrentou muitas prisões, acusações, ameaças e proibições de músicas como resultado do lançamento de músicas críticas ao governo. Em uma ocasião, ele passou duas noites na prisão.
Essas ações muitas vezes fizeram com que ele não conseguisse endossos, além de ter negadas licenças para realizar shows.
Ainda recentemente, em Setembro, o conselho nacional de artes do país, Basata, acusou-o de quatro ofensas depois de ter lançado uma canção chamada eu direi (I Shall Speak) sobre incidentes relatados de desaparecimentos forçados de críticos do governo.
“Acredito e aprendi que as pessoas no poder sabem quão poderosa a música pode ser”, disse Nay, cujo nome verdadeiro é Emmanuel Munisi, no seu estúdio na capital comercial, Dar es Salaam.
Os problemas profissionais de Nay personificam a trajetória repressiva que a Tanzânia tem percorrido há quase 10 anos. Magufuli foi acusado de supervisionar a repressão contra a oposição, a sociedade civil, a imprensa e outros críticos ao longo do seu mandato de seis anos.
Samia Suluhu Hassan, que sucedeu Magufuli após a sua morte em 2021, inicialmente adoptou uma abordagem reformista no início da sua administração. Mas os incidentes recentes durante o seu mandato – incluindo desaparecimentos e detenções de críticos do governo e proibições de comícios da oposição – sinalizar um retorno à intolerância.
Os criativos que criticam o governo, como Nay, estão entre aqueles que enfrentaram represálias em ambas as administrações.
Em Nitasema, com a participação do colega artista tanzaniano Raydiace, Nay denuncia incansavelmente os raptos e assassínios e diz que o Presidente Hassan não conseguiu cumprir os projectos. Ele canta em suaíli: “Hoje, você tem segurança garantida quando sai de casa / Mas não tem garantia de voltar para casa em segurança / Pessoas estão sendo sequestradas, pessoas estão desaparecendo, pessoas estão levando tiros, mas ninguém é acusado / Aquele que esperamos condenar diz que é drama / Mas se seu filho fosse sequestrado, você ousaria chamar isso de drama?”
A música acusa a polícia de estar por trás das ações.
Após o seu lançamento, Basata apresentou quatro acusações contra Nay: incitação, enganar o público, lançar a canção sem a aprovação do conselho e insultar outros países – Nay compara a situação da Tanzânia com a do Ruanda e da RDC.
O trabalho de Nay e de outros artistas de protesto destaca-se num país onde alguns dos maiores músicos apoiam abertamente o sistema, actuando em campanhas partidárias e compondo canções de louvor aos presidentes e ao partido no poder, Chama Cha Mapinduzi. Em junho, a estrela do Bongo Flava, Harmonize, lançou Muziki wa Samia (Samia’s Music), um álbum de 10 faixas em louvor ao presidente Hassan e sua liderança.
Crescendo no bairro de Manzese, em Dar es Salaam, Nay começou a fazer música ainda na escola primária. Ele fez seu primeiro single demo, Dala Dala, aos 10 anos em 1996.
Ele também era um bom jogador de futebol, e seu interesse pela música criou atritos entre ele e sua mãe, que estava interessada em apoiar sua educação e sua ambição no futebol, mas não a do rap, que ela considerava “bandida”, disse Nay.
Nay desistiu no último ano do ensino médio para se concentrar na música. Para se sustentar, trabalhou como barbeiro enquanto fazia música. Nos primeiros anos de sua carreira, ele fez música Bongo Flava, um gênero popular da Tanzânia influenciado pelo hip-hop, R&B e pelo gênero taarab da África Oriental.
Em 2010, Nay lançou sua música inovadora, Hello, sobre uma separação. À medida que sua popularidade crescia, ele sentiu a responsabilidade de fazer música sobre questões sociais. Inspirado por seu amor por Bob Marley, Tupac e Lucky Dube, ele se aventurou na música com mensagens sociais e políticas.
“O que eu cantava naquele período era bom, mas li sobre a história de diferentes países e suas relações com a música e percebi que poderia mudar minha comunidade através da música”, disse Nay, 38 anos.
Nay contribui para uma história de hip-hop político e consciente na Tanzânia, que está ligada ao início de Bongo Flava no início da década de 1990, quando se focou em mensagens de esperança por melhores oportunidades para os jovens depois que o país emergiu do socialismo.
Ao longo dos anos, muitos rappers e outros artistas, como Prof Jay (Joseph Haule), Roma Mkatoliki (Ibrahim Mussa) e Vitali Maembe, geralmente fizeram música livremente sobre os males sociais que atormentavam a Tanzânia.
Mas o espaço diminuiu nos últimos anos, com casos crescentes de proibições de músicas, detenções de artistas e outros atos que criam medo e suprimem a liberdade de expressão. Em 2021, Roma Mkatoliki e três outros artistas disseram que foram sequestrados por homens armados sob a mira de uma arma de um estúdio e torturados.
Nash MC, que começou a fazer rap sobre questões políticas em 2000, disse que a cena política da altura não era tão vibrante como é agora, quando a forte oposição tornou as pessoas mais conscientes politicamente.
O rapper, cujo nome verdadeiro é Mutalemwa Mushumbusi, diz que o hip-hop tem um papel igualmente importante a desempenhar.
“O hip-hop começou para representar paz, amor, unidade e felicidade.” ele disse. “Esses são os princípios da vida.”
Nay é popularmente conhecido como Rais wa Kitaa (Presidente das Ruas), que também é o título de seu último álbum, lançado em 2022, e uma música que lançou em 2021.
Sua música frequentemente apresenta temas de corrupção, liderança fraca, injustiça, pobreza e desafios socioeconômicos. Sua música mais popular online, Sauti ya Watu (Voz do Povo), lançada em 2022, aborda o desemprego, a apropriação indébita de fundos e a tributação excessiva, entre outros problemas.
“Não tenho medo de fazer música sobre qualquer assunto. E continuarei criticando cada mal que surgir”, afirmou.
Karen Chalamilla, escritora cultural radicada em Dar es Salaam, disse que embora Nay tenha abordado temas políticos há muitos anos, o aumento da repressão fez com que as pessoas começassem a ver a reacção do governo à sua música como parte de uma questão maior de censura.
“Ter alguém que aponta a verdade e ver o tratamento que está recebendo por apontar a verdade está mantendo muitas pessoas acordadas e não complacentes”, disse ela. “Há uma série de eventos que deixaram as pessoas cada vez mais fartas.”
Nay diz que fazer música política traz riscos – ele não usa telefone há dois anos, em parte por razões de segurança – e resistência, mas isso não o impedirá.
“Precisamos amar nosso país. Precisamos lutar por isso e falar a favor disso”, disse o pai de três filhos. “Todo país tem líderes. Como são seres humanos, cometem erros. E quando isso acontecer, você terá que contar a eles.”
Relacionado
VOCÊ PODE GOSTAR
ACRE
Ufac sedia encontro regional sobre residência e preceptoria no SUS — Universidade Federal do Acre
PUBLICADO
20 horas atrásem
8 de outubro de 2026A Ufac sediou o 2º Encontro Regional do Projeto de Desenvolvimento da Gestão de Programas de Residência e da Preceptoria no Sistema Único de Saúde (SUS). O evento ocorreu nesta quinta-feira, 8, no anfiteatro Garibaldi Brasil, campus-sede, e reuniu profissionais e representantes de instituições de saúde para a apresentação dos resultados de sete projetos de intervenção desenvolvidos ao longo de dois anos de formação.
A iniciativa é promovida pelo Hospital Sírio-Libanês, em parceria com o Ministério da Saúde, no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS, com participação da Ufac.
Para o reitor Josimar Ferreira, cerca de 80% das atividades dos residentes são realizadas nas unidades de saúde. Ele ressaltou o compromisso da gestão com a valorização dos profissionais que atuam na formação dos residentes. “Temos desenvolvido uma política para que os nossos preceptores possam participar dos nossos programas de pós-graduação, de forma a ter vagas garantidas para sua qualificação também.”
O encontro marcou a apresentação dos projetos de intervenção dos cursos de especialização em Gestão de Programas de Residência em Saúde e Educação na Saúde para Preceptores no SUS. Os trabalhos abordaram temas como formação e avaliação de preceptores, definição de perfis de competências, saúde mental dos residentes, reestruturação curricular e melhoria dos processos de trabalho nos serviços de saúde.
Segundo a coordenadora da Residência Multiprofissional Integrada em Saúde da Família e Comunidade da Ufac, Mariane Ribeiro, as iniciativas buscam qualificar tanto a formação dos residentes quanto as atividades desenvolvidas nos campos de prática. “Esses resultados que temos hoje proporcionam uma integração com o ensino, serviço e a comunidade, porque também têm um retorno para o usuário”, disse.
Para a representante do Hospital Sírio-Libanês e facilitadora de ensino e aprendizagem, Célia Márcia Birchler, a conclusão dos cursos representa uma etapa de um trabalho que deve continuar nas instituições de saúde. “Toda vez que fazemos um movimento de fortalecimento dos programas de residência, na realidade estamos falando de um processo de qualificação do SUS”, afirmou.
A presidente da Fundação Hospitalar Governador Flaviano Melo (Fundhacre), Sóron Angélica Steiner, disse que a formação estimula mudanças na organização do trabalho e no atendimento da população. “Essa força motriz que faz com que o serviço ande de acordo com a formação é o que faz com que o gestor seja provocado a melhorar o ambiente de trabalho, o fluxo de serviço.”
Também participaram da mesa de honra do encontro o presidente do Conselho Estadual de Saúde do Acre, Osvaldo de Souza Leal Júnior; e Pedro Henrique Macedo Leitão, representando o secretário municipal de Saúde de Rio Branco, Rennan Biths.
Relacionado
ACRE
Ufac faz cerimônia de entrega de diplomas médicos do Revalida — Universidade Federal do Acre
PUBLICADO
7 dias atrásem
2 de outubro de 2026A Ufac realizou a cerimônia de entrega da revalidação de diplomas médicos expedidos por instituições de ensino superior estrangeiras, referentes à edição 2025.2 do Revalida. O Núcleo de Registro e Controle Acadêmico (Nurca) relaciona 67 certificados disponíveis para retirada. O ato ocorreu nesta sexta-feira, 2, no Nurca, campus-sede, e contou com a participação do reitor Josimar Ferreira.
“É inédito para nossa universidade fazer um ato que representa a entrega dos diplomas”, disse Josimar. Ele ressaltou a rapidez com que o processo foi concluído pela equipe do Nurca e pediu aos médicos que retribuam à sociedade com ética e acolhimento no atendimento, além de afirmar que a entrega demonstra o papel da universidade no reconhecimento daqueles que se formaram fora do Brasil.
Segundo o diretor do Nurca, Lucas de Araújo Moura, a Ufac realiza revalidações há alguns anos, mas as entregas dos certificados aconteciam de forma avulsa. Ele explicou que a proposta do ato simbólico foi atender os profissionais e valorizar o momento vivido por eles e por suas famílias. Os documentos são entregues juntamente com os originais apresentados pelos interessados, que devem assinar o termo de recebimento do certificado de revalidação.
A médica Nathalia Bragança de Oliveira, que recebeu o diploma revalidado 30 dias após dar entrada no processo na Ufac, disse ter escolhido a universidade pela organização e pelo prazo de entrega. “Foi muito rápido, um processo muito organizado também, desde o momento do início até agora.” Ela relatou que foi recebida com atenção pela equipe, que explicou todas as etapas do procedimento, disse esperar ingressar no mercado de trabalho e atender os pacientes com cuidado.
Relacionado
ACRE
Consu aprova comissão para destinar cotas a pessoas transgênero — Universidade Federal do Acre
PUBLICADO
1 semana atrásem
1 de outubro de 2026O Conselho Universitário (Consu) da Ufac aprovou a criação de uma comissão para elaborar a proposta de cotas de acesso à graduação para pessoas transgênero, que é uma pauta da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (Proafe), recentemente criada com o objetivo de expandir políticas de inclusão na universidade. A aprovação ocorreu nessa quarta-feira, 30, na 5ª Reunião Ordinária do Consu, realizada no auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, campus-sede.
A Ufac já possui regulamentação que garante o acesso por cotas à comunidade transgênero na pós-graduação desde 2023. A proposta aprovada pelo Consu busca ampliar esse direito para a graduação, assegurando não apenas a entrada, mas também o acompanhamento para permanência de estudantes até a conclusão dos cursos.
A comissão terá prazo de 90 dias para realizar os estudos e apresentar a minuta final do projeto. O grupo terá formação intersetorial, reunindo representantes das três categorias acadêmicas: docentes, técnico-administrativos e discentes, além de representantes de entidades e movimentos sociais da sociedade civil voltados aos direitos da população transgênero no Acre.
“Reafirmamos nosso compromisso ao instituir a comissão que vai deliberar sobre as cotas trans”, disser o reitor Josimar Ferreira. “Trata-se de uma ação demandada pela sociedade para incluir populações historicamente invisibilizadas, garantindo que as ações afirmativas façam parte da história do nosso conselho.”
Segundo a pró-reitora de Ações Afirmativas e Equidade, Letícia Mamed, a política visa transformar a realidade de um dos grupos mais marginalizados socialmente. “Precisamos atentar para a garantia de acesso, permanência e dignidade para que essa comunidade possa construir seus projetos de vida com mais oportunidades”, comentou. “No Brasil, cerca de 30 universidades já adotam políticas semelhantes, e a Ufac dá um passo essencial para consolidar essa transformação.”
Integrante do Consu, a professora Raquel Ishii ressaltou que a comissão foi criada para ir além da gestão superior da universidade. “Considero essa aprovação uma grande vitória para a sociedade civil e para a universidade. A comissão amplia o debate da pós-graduação para a graduação. Trata-se de um grupo bem amplo, constituído não só pela gestão, mas com convites abertos ao Diretório Central dos Estudantes e a movimentos sociais externos à universidade.”
(Fhagner Soares, estagiário Ascom/Ufac)
Warning: Undefined variable $user_ID in /home/u824415267/domains/acre.com.br/public_html/wp-content/themes/zox-news/comments.php on line 48
You must be logged in to post a comment Login