NOSSAS REDES

ACRE

O avesso do diagnóstico – 07/11/2024 – Opinião

PUBLICADO

em

A eleição se encerrou com um diagnóstico: a esquerda se afastou do povo e não consegue mais conversar com ele. Esse lugar estaria ocupado ou por uma direita fisiologicamente moderada, ou por uma extrema direita em processo violento de renovação, ou por um “extremo-centro” que sempre preencheu cargos políticos no Brasil.

Repetido desde 2018, esse argumento produz efeitos sobre as esquerdas —a campanha de Guilherme Boulos (PSOL) foi o último exemplo.

Há três eleições vão surgindo cartilhas para reconstituir uma ligação que parecia sanguínea: falar com os jovens, “dialogar com evangélicos”, “voltar para a base”, entre várias outras.

Mas e se o observarmos pelo seu avesso?

É o outro lado do diagnóstico, ainda não tão bem elaborado, porque não foi só a esquerda que se distanciou do povo, mas também o povo foi deixando de compartilhar a leitura que a esquerda faz do mundo. Isso faz notar que o abismo é maior —e que uma “reinvenção” da esquerda poderia ser, aí sim, sua morte definitiva, dependendo de como ela acontecesse.

Significa também que esse estado de coisas vai além das próprias forças da esquerda e que sociedades são mais complexas do que as condições efetivas de transformá-las.

Em duas décadas, o Brasil reformulou dilemas, reorganizou hierarquias, refez muitos dos seus horizontes e redesenhou a participação na política, quase tudo a partir de suas classes populares. Isso em paralelo a grandes transformações, como a explosão das redes sociais ou o trabalho em plataformas, por exemplo —que se adaptaram à nossa informalidade, mas deram outra cara a ela: de “empreendedorismo”.

Pouco mais de 20 anos atrás, 36,3 milhões de brasileiros eram trabalhadores informais. Hoje, são 38,8 milhões. O que mudou não foi a realidade, mas como ela é encarada. A informalidade era vista como um problema estrutural do país, mas o empreendedor contemporâneo se lança sozinho no mundo, não só para subsistência, mas por outro sonho: o de enriquecer por seu próprio esforço, como mostram estudos (como o de Rosana Pinheiro-Machado).

É sintomático ainda que uma das promessas de Lula, em 2002, tenha sido um programa para inserir jovens em um primeiro emprego. Hoje, terminado o ensino médio, eles já topam com a precariedade do trabalho —e muitos não se animam com a universidade porque calculam que ela não mudaria nada.

O desafio das esquerdas também está ao avesso: em tempos de extrema direita ou de “extremo-centro”, é preciso se manter firme às pautas, às ideias, às narrativas e aos horizontes que sempre as estruturaram. Há coisas que são inegociáveis, como o combate à precarização do trabalho e à falência da educação pública e a defesa do papel do Estado sobre as desigualdades. Isso não significa que as esquerdas devam ser rígidas diante das dinâmicas do presente, mas que precisam oferecer soluções “de esquerda” para elas.

É um desafio e tanto, porque muitas dessas dinâmicas são formas encontradas pelos mais pobres para viver e, ao mesmo tempo, são impasses existenciais à esquerda. É quando o abismo fica maior —e o diagnóstico encontra seu limite.

Perder eleições é parte do jogo. Perder princípios não.

TENDÊNCIAS / DEBATES

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.



Leia Mais: Folha

Advertisement
Comentários

Warning: Undefined variable $user_ID in /home/u824415267/domains/acre.com.br/public_html/wp-content/themes/zox-news/comments.php on line 48

You must be logged in to post a comment Login

Comente aqui

ACRE

Seminário na Ufac tematiza planejamento e governança pública — Universidade Federal do Acre

PUBLICADO

em

Seminário na Ufac tematiza planejamento e governança pública — Universidade Federal do Acre

O programa de pós-graduação em Planejamento e Governança Pública, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), no âmbito do mestrado interinstitucional para técnico-administrativos da Ufac e do Instituto Federal do Acre (Ifac), realiza o 12º Seminário de Boas Práticas em Planejamento e Governança Pública, de 14 a 16 de julho, no anfiteatro Garibaldi Brasil, campus-sede da Ufac. As inscrições são gratuitas e estão abertas até 16 de julho, por meio online.

O evento será transmitido pelo YouTube e terá como tema “Governança, Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional na Amazônia: Desafios Estruturais para o Acre”, propondo um debate sobre questões territoriais, sociais, ambientais, urbanas, institucionais e econômicas que atravessam a realidade amazônica e acreana.

A programação científica será organizada em quatro eixos temáticos: governança urbana, mobilidade e direito à cidade na Amazônia; infraestrutura, saneamento e resiliência em contextos de enchentes e queimadas; governança ambiental, desenvolvimento sustentável e capacidade estatal na Amazônia; e educação e empreendedorismo na Amazônia.

O seminário tem como público-alvo a comunidade universitária e gestores públicos, contando com a participação de autoridades locais, pesquisadores da UTFPR, docentes da Ufac e do Ifac, bem como especialistas convidados de diferentes áreas.

 



Leia Mais: UFAC

Continue lendo

ACRE

Estudo indica limitações de conhecimento sobre leishmaniose — Universidade Federal do Acre

PUBLICADO

em

Estudo indica limitações de conhecimento sobre leishmaniose-interna.jpg

A Ufac é parceira em pesquisa desenvolvida no município de Sena Madureira (AC), a qual identificou limitações no conhecimento sobre a leishmaniose cutânea entre pacientes e profissionais da saúde, além de barreiras geográficas e estruturais que dificultam o acesso ao diagnóstico e ao tratamento precoce em áreas rurais endêmicas.

Os resultados do estudo foram publicados, em maio, na revista eletrônica “Acervo Saúde”, vol. 26(5), com o título “Leishmaniose Cutânea na Amazônia Ocidental: Lacunas no Conhecimento e Barreiras de Acesso Assistencial em Áreas Endêmicas”. O artigo tem coautoria de pesquisadores da Ufac.

A pesquisa foi realizada com 50 pacientes com suspeita clínica de leishmaniose cutânea e 51 agentes de saúde, sendo 63% agentes comunitários de saúde e 37% agentes de combate às endemias.

“Em nosso trabalho, identificamos que tanto os profissionais da saúde quanto os pacientes possuem informações limitadas sobre a doença. Conhecer as limitações para acesso ao diagnóstico e tratamento precoce é uma das principais estratégias para a implementação de programas de controle e de educação em saúde que contemplem o perfil epidemiológico e social das populações de áreas endêmicas”, disse o autor do estudo, Leandro Siqueira de Souza, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC).

A região Norte é responsável por mais da metade dos casos da doença no Brasil; o Acre conta com mais de 11 mil casos notificados na última década. Em 2025, os municípios acreanos de Xapuri, Marechal Thaumaturgo, Assis Brasil, Sena Madureira e Brasileia foram classificados pelo Ministério da Saúde como áreas de risco intenso para transmissão da doença.

“A região amazônica é uma área endêmica para a leishmaniose cutânea, uma doença negligenciada que afeta principalmente populações de comunidades tradicionais”, contou o pesquisador Reginaldo Peçanha Brazil, do IOC. “Conhecer as limitações no conhecimento tanto dos pacientes como de profissionais da saúde de áreas endêmicas é fundamental para o sistema de saúde do Estado do Acre e para o controle mais efetivo da doença.”

A investigação integra um projeto de pesquisa coordenado por Brazil. Além da Ufac, são parceiros na pesquisa a Universidade Federal de Minas Gerais, a Universidade de Brasília, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e a Secretaria de Estado de Saúde do Acre.

Pela Ufac, são coautores do artigo os pesquisadores Andréia Luísa Peixinho da Silva Guimarães, Francisca Alana Costa de Souza, Marcos Bruno Zacarias Campelo, Breno Kalyl Freitas Nascimento, Andreia Fernandes Brilhante e Francisco Glauco de Araújo Santos. Os estudos contam com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e apoio de instituições parceiras.

 



Leia Mais: UFAC

Continue lendo

ACRE

Ufac e TCE-AC apresentam pesquisa de vitimização em Rio Branco — Universidade Federal do Acre

PUBLICADO

em

Ufac e TCE-AC apresentam pesquisa de vitimização em Rio Branco — Universidade Federal do Acre

 

A Ufac e o Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC) realizaram o Seminário de Apresentação da Pesquisa de Vitimização na Cidade de Rio Branco. O evento, que ocorreu nesta terça-feira, 16, no Plenário do TCE-AC, consistiu em exposições e debate no sentido de contribuir para um diagnóstico da segurança pública e para o aprimoramento das políticas voltadas à população.

A pesquisa foi apoiada por emenda parlamentar do senador Sérgio Petecão (PSD-AC), destinada em 2025 à Ufac. “Quero agradecer a disponibilidade do senador em ajudar a universidade sempre com emendas necessárias para o desenvolvimento da educação e da pesquisa, com retorno garantido para a sociedade acreana”, disse a reitora Guida Aquino.

O seminário teve como público-alvo a comunidade acadêmica, servidores do TCE-AC e do Ministério Público de Contas do Acre, servidores públicos em geral, gestores da área de segurança pública, justiça criminal e direitos humanos e sociedade civil. A pesquisa buscou compreender como a população percebe a segurança, quais situações de violência e criminalidade afetam os cidadãos e como os serviços de segurança pública são avaliados pelas pessoas.

O trabalho provém do grupo de pesquisa Sujeitos, Ações e Percepções: Estudos em Violência e Conflitualidade, coordenado pelo professor da Ufac, Ermício Sena. Ele informou que os produtos da pesquisa foram banco de dados, mapas descritivos de Rio Branco, relatórios de campo, geral e sintético/executivo.

Em seu discurso, Sena agradeceu aos envolvidos na realização da pesquisa e a Fundação de Apoio e Desenvolvimento ao Ensino, Pesquisa e Extensão Universitária no Acre, que foi a intermediária para contratação do Instituto de Opinião Pública para execução da pesquisa.

 



Leia Mais: UFAC

Continue lendo

MAIS LIDAS