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Por que a ‘Montanha Mágica’ de Thomas Mann ressoa 100 anos depois – DW – 26/11/2024
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Os quartos são confortáveis, a vista é magnífica, a comida deliciosa. Enrolados em cobertores de lã, os hóspedes endinheirados de um sanatório passam os dias descansando nas varandas.
Bem-vindo ao Berghof, um centro médico remoto e luxuoso no suíço Alpes onde tuberculose os pacientes esperam ser curados pelo ar fresco.
Esta é a configuração que Thomas Mann escolheu para seu influente romance de 1924, “The Magic Mountain”.
A história começa em 1907. Hans Castorp, filho de um Hamburgo comerciante e aspirante a engenheiro, viaja para Berghof para visitar seu primo doente. Na verdade, ele só quer ficar três semanas, mas acaba sendo sete anos.
O estranho é que o próprio Hans Castorp é realmente saudável.
“Mas ele está literalmente absorvido pela vida do sanatório”, explica o crítico literário Kai Sina. “Os pacientes, seus debates filosóficos e seus costumes, as rigorosas rotinas de saúde, as refeições luxuosas e as verificações compulsivas de temperatura: ele se torna parte deste mundo.”
Uma era de convulsão radical
O sanatório completamente isolado é um microcosmo que revela a crise de uma sociedade em mudança.
A virada do século XX é uma era de convulsão radical. A industrialização mudou fundamentalmente a vida; as certezas religiosas são cada vez mais questionadas pela ciência; os movimentos nacionalistas e socialistas estão igualmente em ascensão.
A desorientação causada pela perda dos valores tradicionais leva a tensões sociais – que também podem ser sentidas entre os ilustres pacientes do Berghof. “Estava no ar”, como afirma o romance.
Hans Wisskirchen, presidente da Sociedade Thomas Mann, descreve esse sentimento com mais precisão: “Você sente um enorme mal-estar, um medo do futuro”, diz ele à DW. “Os funcionários são insultados, as pessoas brigam, surgem as ideias mais malucas, as pessoas literalmente enlouquecem”.
A ‘grande irritação’ – então e hoje
Se não fosse pela sua linguagem arcaica, poderíamos pensar que o romance foi escrito por um autor contemporâneo, e não por Thomas Mann há um século.
O romance se passa em uma era de “grande irritação”, um “ponto de inflexão”, como descreve Caren Heuer, especialista em Thomas Mann.
Heuer, que é o diretor do Casa Buddenbrook em Lübeck, antiga casa da família de Thomas Mann e agora um museu dedicado ao escritor e ao seu irmão Heinrich, sente que estamos actualmente a viver uma fase de irritação semelhante e que ela pode ser sentida em todo o lado.
“Você só precisa ligar qualquer talk show no domingo à noite”, diz Heuer. “Você verá que as pessoas interrompem umas às outras, não se ouvem, mas sim trocam opiniões.”
O protagonista de Thomas Mann, Hans Castorp, também encontra defensores radicais de ideologias opostas que discutem amargamente.
O humanista Lodovico Settembrini, que acredita no progresso e nos valores liberais, entra em conflito com o arqui-reacionário jesuíta Leo Naphta, que vê um regime totalitário como a melhor opção para a sociedade. Ambos os homens disputam os favores de Castorp; ele está dividido entre suas idéias.
No final, segue-se um duelo de pistolas entre os dois rivais, no qual Settembrini dispara deliberadamente para o ar e não para o adversário. Nafta, por sua vez, não suporta a humilhação e dá um tiro de raiva. E assim começa uma onda de violência.
De entusiasta da guerra a defensor da democracia
Quando Thomas Mann escreveu “A Montanha Mágica”, ele tinha em mente a sua própria transformação política.
Colocou as primeiras linhas no papel em 1913 e concluiu a obra 12 anos depois — interrompida pela Primeira Guerra Mundial. Quando começou o livro, ele era um defensor convicto da guerra. Kai Sina disse à DW: “Thomas Mann foi levado pela euforia da guerra que impulsionava muitos intelectuais, artistas e escritores da época”.
Mas “em 1918, quando a guerra foi perdida, ele se sentiu completamente desorientado”, acrescenta o especialista Thomas Mann. A partir de então, ele se tornaria um dos oponentes mais eloquentes do fascismo na Alemanha.
“O que mais me impressiona em Thomas Mann”, diz Sina, “é sua coragem para revisar seus pontos de vista, sua disposição honesta e sincera de questionar repetidamente suas próprias ideias. E ‘A Montanha Mágica’ retrata exatamente isso.”
As tensões e os perigos que levariam à queda do República de Weimar — a primeira tentativa da Alemanha de uma verdadeira democracia parlamentar — e, finalmente, ver o Nazistas tomada do poder, estão todos presentes no romance.
Em 1933, Thomas Mann deixou a Alemanha, mudando-se primeiro com a família para a Suíça; então, de 1938 a 1952, para os EUA antes de retornar à Suíça. Ele fez campanha pela tolerância e pela dignidade humana até morrer em 1955.
Um romance ‘acidental’
Mann originalmente imaginou o livro como um conto humorístico, uma contrapartida leve de sua novela. “Morte em Veneza.”
Ele escolheu o sanatório depois que sua esposa Katia passou três semanas em um para tratamento de tuberculose em 1912.
O resultado final se tornaria um dos maiores romances do século, abrangendo quase mil páginas.
“The Magic Mountain” não trata apenas de ideologias, mas de morte. Afinal, muitos dos visitantes do sanatório acabam saindo num caixão, pois não havia antibióticos na época.
Mas equilibrando a onipresença da morte, o desejo pela vida e pelo amor desempenham um papel central no romance.
Hans Castorp está obcecado pela misteriosa russa Clawdia Chauchat, outra paciente que lhe concede uma única noite de amor. Ela lembra ao protagonista um amigo de juventude.
O crítico literário Kai Sina vê isso como uma alusão aos próprios anseios homossexuais reprimidos de Thomas Mann: “A questão do que é um homem, o que é uma mulher, o que é masculino, o que é feminino e o que é percebido como atraente ou erótico – é tudo confuso aqui”, diz ele.
O Laureado com o Prêmio Nobel Mann e sua esposa Katia teve seis filhos e foram casados por 50 anos – portanto, qualquer desejo que ele pudesse ter por homens só poderia ser vivido em segredo, se fosse, e em seus escritos.
Um ‘festival mundial da morte’
Hans Castorp pode ter esperado mais favores da bela russa, mas quando irrompe a Primeira Guerra Mundial, os pacientes fogem do Berghof. Castorp junta-se a um regimento de voluntários; seu rastro está perdido no campo de batalha.
No final de “A Montanha Mágica”, Thomas Mann pergunta: “Será que um dia o amor surgirá deste festival mundial de morte?”
O romance foi traduzido para 27 idiomas.
Para Isabel Gracia Adabel, que traduziu “A Montanha Mágica” para o espanhol, o romance não perdeu nada de sua relevância: “Um século se passou e continuamos os mesmos, resolvendo conflitos com guerras”.
Ainda assim, ela acrescenta: “Trata-se de coisas muito sérias, mas o livro em si é uma experiência agradável. E você não precisa de três doutorados para gostar de Thomas Mann, porque sua escrita é cheia de ironia e humor”.
‘Buddenbrooks’, de Thomas Mann
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Este artigo foi escrito originalmente em alemão.
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Fundape tem nova sede inaugurada no campus da Ufac na capital — Universidade Federal do Acre
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26 de junho de 2026A reitora da Ufac, Guida Aquino, participou da solenidade de inauguração da nova sede da Fundação de Apoio e Desenvolvimento ao Ensino, Pesquisa e Extensão Universitária no Acre (Fundape), da qual ela é presidente do Conselho Curador. O evento ocorreu nesta sexta-feira, 26, no campus-sede, local em que se localiza o espaço administrativo e operacional da fundação.
Guida destacou a importância da Fundape para a Ufac e para outras instituições da Região Norte. Para ela, a fundação passou por um processo de fortalecimento nos últimos anos. “A Fundape hoje nos faz realizar, na verdade, todas as parcerias de formação de docentes, de ensino, de pesquisa, de extensão, de inovação”, afirmou.
Segundo a reitora, a fundação ampliou sua atuação para além do Acre, atendendo também instituições de Rondônia, Amapá e Roraima. “Olha a grandeza disso. E nós, enquanto Universidade Federal do Acre, temos que nos orgulhar”, pontuou.
O diretor-presidente da Fundape, Ismar Bernardo de Araújo, disse que a inauguração da sede própria representa uma conquista construída com dedicação, trabalho em equipe e visão de futuro. “Hoje não celebramos apenas a abertura de um novo espaço físico; celebramos uma conquista construída com dedicação, trabalho em equipe, visão de futuro e confiança.”

Ismar lembrou que a Fundape foi instituída em 22 de junho de 1998 e completa 28 anos em 2026. Atualmente, a fundação conta com 38 colaboradores, representa quatro universidades federais, três institutos federais e um hospital universitário, estando presente em quatro Estados da região Norte.
Membro fundador da Fundape e pró-reitor de Planejamento da Ufac, Alexandre Hid, relembrou a criação da fundação e os desafios enfrentados ao longo da trajetória institucional. “Hoje a fundação está aí forte e firme para maiores e melhores desafios.”

Também participaram da solenidade a reitora da Unir, Marília Pimentel; o procurador-geral adjunto para Assuntos Administrativos e Institucionais do MP-AC, Carlos Roberto da Silva Maia, representando o procurador-geral Oswaldo Lima Neto; o diretor técnico da Fundape, Camilo Gouveia; o diretor administrativo-financeiro da Fundape, Dionel de Araújo; Gemil Júnior, suplente do senador Alan Rick (Republicanos-AC); a pró-reitora de Inovação, Pesquisa e Pós-Graduação do Ifac, Alana Chocorosqui, representando o reitor Fábio Storch; o ex-reitor da Ufac, Minoru Kinpara; além de dirigentes, coordenadores de projetos, colaboradores e representantes de instituições parceiras.
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Seminário na Ufac tematiza planejamento e governança pública — Universidade Federal do Acre
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23 de junho de 2026O programa de pós-graduação em Planejamento e Governança Pública, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), no âmbito do mestrado interinstitucional para técnico-administrativos da Ufac e do Instituto Federal do Acre (Ifac), realiza o 12º Seminário de Boas Práticas em Planejamento e Governança Pública, de 14 a 16 de julho, no anfiteatro Garibaldi Brasil, campus-sede da Ufac. As inscrições são gratuitas e estão abertas até 16 de julho, por meio online.
O evento será transmitido pelo YouTube e terá como tema “Governança, Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional na Amazônia: Desafios Estruturais para o Acre”, propondo um debate sobre questões territoriais, sociais, ambientais, urbanas, institucionais e econômicas que atravessam a realidade amazônica e acreana.
A programação científica será organizada em quatro eixos temáticos: governança urbana, mobilidade e direito à cidade na Amazônia; infraestrutura, saneamento e resiliência em contextos de enchentes e queimadas; governança ambiental, desenvolvimento sustentável e capacidade estatal na Amazônia; e educação e empreendedorismo na Amazônia.
O seminário tem como público-alvo a comunidade universitária e gestores públicos, contando com a participação de autoridades locais, pesquisadores da UTFPR, docentes da Ufac e do Ifac, bem como especialistas convidados de diferentes áreas.
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Estudo indica limitações de conhecimento sobre leishmaniose — Universidade Federal do Acre
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17 de junho de 2026A Ufac é parceira em pesquisa desenvolvida no município de Sena Madureira (AC), a qual identificou limitações no conhecimento sobre a leishmaniose cutânea entre pacientes e profissionais da saúde, além de barreiras geográficas e estruturais que dificultam o acesso ao diagnóstico e ao tratamento precoce em áreas rurais endêmicas.
Os resultados do estudo foram publicados, em maio, na revista eletrônica “Acervo Saúde”, vol. 26(5), com o título “Leishmaniose Cutânea na Amazônia Ocidental: Lacunas no Conhecimento e Barreiras de Acesso Assistencial em Áreas Endêmicas”. O artigo tem coautoria de pesquisadores da Ufac.
A pesquisa foi realizada com 50 pacientes com suspeita clínica de leishmaniose cutânea e 51 agentes de saúde, sendo 63% agentes comunitários de saúde e 37% agentes de combate às endemias.
“Em nosso trabalho, identificamos que tanto os profissionais da saúde quanto os pacientes possuem informações limitadas sobre a doença. Conhecer as limitações para acesso ao diagnóstico e tratamento precoce é uma das principais estratégias para a implementação de programas de controle e de educação em saúde que contemplem o perfil epidemiológico e social das populações de áreas endêmicas”, disse o autor do estudo, Leandro Siqueira de Souza, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC).
A região Norte é responsável por mais da metade dos casos da doença no Brasil; o Acre conta com mais de 11 mil casos notificados na última década. Em 2025, os municípios acreanos de Xapuri, Marechal Thaumaturgo, Assis Brasil, Sena Madureira e Brasileia foram classificados pelo Ministério da Saúde como áreas de risco intenso para transmissão da doença.
“A região amazônica é uma área endêmica para a leishmaniose cutânea, uma doença negligenciada que afeta principalmente populações de comunidades tradicionais”, contou o pesquisador Reginaldo Peçanha Brazil, do IOC. “Conhecer as limitações no conhecimento tanto dos pacientes como de profissionais da saúde de áreas endêmicas é fundamental para o sistema de saúde do Estado do Acre e para o controle mais efetivo da doença.”
A investigação integra um projeto de pesquisa coordenado por Brazil. Além da Ufac, são parceiros na pesquisa a Universidade Federal de Minas Gerais, a Universidade de Brasília, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e a Secretaria de Estado de Saúde do Acre.
Pela Ufac, são coautores do artigo os pesquisadores Andréia Luísa Peixinho da Silva Guimarães, Francisca Alana Costa de Souza, Marcos Bruno Zacarias Campelo, Breno Kalyl Freitas Nascimento, Andreia Fernandes Brilhante e Francisco Glauco de Araújo Santos. Os estudos contam com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e apoio de instituições parceiras.
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