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Por que Emilia Pérez é tão criticado no México? – 06/01/2025 – Ilustrada

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Atenção: Este artigo revela algumas partes da trama do filme.

“Emilia Pérez” triunfou neste domingo (5/1) na 82ª edição do Globo de Ouro.

O filme chegou ao evento como o longa com maior número de indicações e, além de ganhar o prêmio de melhor filme musical ou de comédia, também venceu na categoria de filme em língua não inglesa.

A americana de origem dominicana Zoe Saldaña levou a estatueta de melhor atriz coadjuvante por sua atuação no papel de uma advogada que concorda em ajudar um traficante mexicano a passar por uma operação de redesignação sexual para começar uma nova vida como mulher.

Dirigida pelo francês Jacques Audiard, “Emilia Pérez” estreou em maio de 2024 no Festival de Cannes, onde ganhou o prêmio do júri e na categoria melhor atriz pelo elenco feminino. Com isso, Karla Sofía Gascón se tornou a primeira mulher trans a ganhar este prêmio.

E espera-se que seu sucesso internacional tenha eco nas indicações ao Oscar, que serão anunciadas em 17 de janeiro.

O México, porém, país onde se passa a trama de “Emilia Pérez”, é o local onde talvez o filme tenha acumulado as críticas mais negativas.

E tudo isso sem que sequer tenha sido lançado oficialmente nas salas de cinema ou nas plataformas do país, como aconteceu no resto do mundo.

“Ironicamente, o país sobre o qual o filme fala será o último que ele alcançará”, disse a crítica de cinema mexicana Gaby Meza à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.

Seus estranhos diálogos

Os comentários negativos sobre o filme que mais repercutiram no México foram os do ator e produtor mexicano Eugenio Derbez.

Em entrevista a Gaby Meza há algumas semanas, ele apontou, por exemplo, que os diálogos entre os personagens soam estranhos para os mexicanos.

O ator destacou principalmente o sotaque de Selena Gomez, que é americana de ascendência mexicana, mas não fala espanhol.

Para Derbez, o problema é que se trata de uma produção feita por estrangeiros e que está sendo muito bem recebida pelo público que não fala espanhol, que pode não perceber as nuances da fala mexicana.

No caso de Selena Gomez em particular, desde os primeiros diálogos do filme é possível perceber rapidamente que o espanhol não é a primeira língua da personagem, que é uma mulher americana.

De qualquer forma, para Derbez a interpretação da estrela pop “é indefensável”: “Eu estava assistindo com pessoas que se entreolharam e disseram: ‘Uau, o que é isso?'”

“Sinto que em Cannes lhe deram um prêmio e nos Estados Unidos não se comenta esse aspecto porque não falam espanhol e não perceberam isso.”

O comentário viralizou e o ator e produtor mexicano recebeu uma avalanche de críticas.

A própria Selena Gomez respondeu dizendo que entendeu as críticas e garantiu que sua pronúncia foi a melhor que conseguiu com o pouco tempo que teve para se preparar.

“Isso não diminui quanto trabalho e coração foram colocados neste filme”, disse ela.

Pouco depois, Derbez pediu desculpas por suas palavras: “Peço verdadeiramente desculpas pelos meus comentários imprudentes. Eles são indefensáveis e vão contra tudo o que defendo”, escreveu.

A diretora de elenco do filme, Carla Hool, explicou que alertou o diretor Jacques Audiard sobre os sotaques de Selena Gomez e Zoe Saldaña, e incluiu no roteiro que os dois personagens que interpretam não são mexicanos.

Gaby Meza destaca que, justamente uma primeira fonte de críticas ao filme no México foram os clipes que circularam na internet e que mostram o sotaque e a pronúncia dos protagonistas.

“O que chega a muitas pessoas são memes ou clipes com sotaque e voz espanhola, diálogos que não são mexicanos”, diz Meza.

“Mas o que Eugenio Derbez disse faz muito sentido, porque se você é alheio a uma língua, não consegue entender as nuances de uma interpretação”, ressalta.

“Se eu assistir a um filme japonês, pode parecer uma boa atuação, mas não consigo entender a intenção das palavras, se a entonação está correta ou não, nem as nuances, porque não falo essa língua”, acrescenta.

Do México… sem mexicanos

Outra das grandes críticas ao filme no México foi sobre o elenco.

Das personagens principais, apenas uma, Epifania Flores, é interpretada por uma atriz mexicana, Adriana Paz.

Em entrevistas, o diretor de elenco indicou que as primeiras audições foram realizadas no México e que a seleção depois foi aberta para outros países da América Latina, para Espanha e Estados Unidos.

Segundo ele, no final Karla Sofía Gascón, Zoe Saldaña e Selena Gomez foram as que melhor se encaixavam nos papéis principais.

“Audiard olhava para todos da mesma forma. Ele não estava dizendo que queria uma atriz famosa. Ele só queria a melhor atriz para o papel. E acabou sendo Selena e Zoe”, disse Hool.

O fato de a diretora de elenco ter dito que não conseguia encontrar atrizes no México para os papéis principais também foi fonte de críticas.

A atriz Karla Sofía Gascón, por sua vez, saiu em defesa de sua obra e do filme em postagem no X, e o fato de ter descrito os críticos do filme como “quatro gatos” (algo como “meia dúzia de gatos-pingados”) suscitou ainda mais ataques.

“Cada declaração do elenco e da equipe de “Emilia Pérez” é mais ofensiva que a anterior e revela descaradamente a forma depreciativa e desdenhosa como as pessoas pensam sobre o México”, escreveu o usuário Luis Ruiz na rede social X.

Para Gaby Meza, esse é mais um ponto que faz o filme gerar “resistência” no México.

Mas, para ela, tanto o sotaque das atrizes quanto o roteiro ou a ausência de atrizes mexicanas são problemas menos importantes do que a forma como o filme apresenta a realidade da violência das drogas e dos desaparecidos no México.

‘Insensível’

Na trama, a mudança de gênero de Emilia Pérez é acompanhada por uma transformação de consciência: a ex-chefe do mundo violento do tráfico de drogas cria uma organização para encontrar desaparecidos no México.

A forma como o tema é abordado gerou múltiplas críticas no México, por se tratar de um tema muito delicado em um país com mais de 100 mil pessoas desaparecidas, segundo dados oficiais.

“Supor que, ao realizar sua transição, o homem selvagem e cruel que ordenou centenas de assassinatos de repente se transforme em uma mulher empática e comprometida com os mais fracos é um malabarismo narrativo imperdoável”, disse o escritor mexicano Jorge Volpi em uma coluna de opinião no o jornal El País.

“No final, a redenção de Emilia Pérez acaba sendo tão falsa —e tão desrespeitosa para com o espectador— quanto o sotaque de Selena Gomez ou a falsa determinação de Audiard em abordar, sem o menor conhecimento ou empatia, o doloroso tema dos desaparecidos no México”, acrescentou.

Questionado, o diretor do filme reconheceu que não investigou muito a realidade dessa questão no México.

“O que eu tinha que entender eu já sabia um pouco”, disse ele em declarações que apenas colocaram mais lenha na fogueira.

Para Gaby Meza, o filme é percebido pelos mexicanos como “uma exploração de uma tragédia atual no México, do tráfico de drogas e dos desaparecidos devido à violência, para gerar um produto de entretenimento”.

“E até pode se pensar que existem muitas séries sobre narcotráfico que se apropriam de temas da narcocultura para contar histórias”, reflete Meza.

“A diferença aqui tem a ver com tudo o que os elementos se combinam: um diretor francês que disse não ter estudado o México porque o que sabia era o que precisava saber; uma diretora de elenco que diz ter procurado gente no México, na América Latina e nos EUA, mas que no final as atrizes selecionadas eram as melhores opções; uma tentativa de empatia com as vítimas de desaparecimento sugerindo que o vilão se arrepende e fica tudo bem”, completa.

Apesar de tudo isso, Meza considera que é valioso que um realizador tenha dado uma abordagem inovadora a um tema complexo como o tráfico de drogas e a violência, especialmente se tratando de um musical.

“É muito importante que cada pessoa faça sua própria leitura.”

“É muito válido que no México haja pessoas que gostem do filme, que pensem que ele retratou bem [o país], que não é insensível. E é válido também que haja quem diga o contrário, que não, que não representa o México.

“A maravilha do cinema é que cada pessoa pode interpretá-lo à sua maneira.”



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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

A Ufac participou do lançamento do projeto Tecendo Teias na Aprendizagem, realizado na reserva extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira (AC). O evento ocorreu em 28 de março e reuniu representantes do poder público, comunidade acadêmica e moradores da reserva.

Com uma área de aproximadamente 750 mil hectares e cerca de 500 famílias, a Resex é território de preservação ambiental e de produção de saberes tradicionais. O projeto visa fortalecer a educação e promover a troca de conhecimentos entre universidade e comunidade.

O presidente da reserva, Nenzinho, destacou que a iniciativa contribui para valorizar a educação não apenas no ensino formal, mas também na qualidade da aprendizagem construída a partir das vivências no território. Segundo ele, a proposta reforça o papel da universidade na escuta e no reconhecimento dos saberes locais.

O coordenador do projeto, Rodrigo Perea, sintetizou a relação entre universidade e comunidade. “A floresta ensina, a comunidade ensina, os professores aprendem e a Ufac aprende junto.” 

Também estiveram presentes no lançamento os professores da Ufac, Alexsande Franco, Anderson Mesquita e Tânia Mara; o senador Sérgio Petecão (PSD-AC); o prefeito de Sena Madureira, Gerlen Diniz (PP); e o agente do ICMBio, Aécio Santos.
(Fhagner Silva, estagiário Ascom/Ufac)



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Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre

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Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre

 Os professores Jhonatan Gomes Gadelha e Shirley Regina de Almeida Batista, do curso de Educação Física da Ufac, realizaram a mostra de dança NT: Sementes de uma Pioneira, em homenagem à professora aposentada Norma Tinoco, reunindo turmas de bacharelado e licenciatura, escolas de dança e artistas independentes. O evento ocorreu na noite de 25 de março, no Teatro Universitário, campus-sede, visando celebrar a trajetória da homenageada pela inserção e legitimação da dança no curso.

Norma recebeu uma placa comemorativa pelos serviços prestados à universidade. Os alunos do curso, André Albuquerque (bacharelado) e Matheus Cavalcante (licenciatura) fizeram a entrega solene. Segundo os organizadores, os anos de dedicação da professora ao curso e seu pioneirismo jamais serão esquecidos.

“A ideia, que ganhou corpo e emoção ao longo de quatro atos, nasceu do coração de quem viveu de perto a influência da homenageada”, disse Jhonatan Gomes Gadelha, que foi aluno de Norma na graduação. Ele contou que a mostra surgiu de uma entrevista feita com ela por ocasião do trabalho dele de conclusão de curso, em 2015. “As falas, os ensinamentos e as memórias compartilhadas por Norma naquele momento foram resgatadas e transformadas em movimento”, lembrou.

Gadelha explicou que as músicas que embalaram as coreografias autorais foram criadas com o auxílio de inteligência artificial. “Um encontro simbólico entre a tradição plantada pela pioneira e as ferramentas do futuro. O resultado foi uma apresentação carregada de bagagem emocional, autenticidade e reverência à história que se contava no palco.”

Mostra em 4 atos

A professora de Educação Física, Franciely Gomes Gonçalves, também ex-aluna de Norma, foi a mestre de cerimônias e guiou o público por uma narrativa que comparava a trajetória da homenageada ao crescimento de uma árvore: “A Pioneira: A Raiz (ato I), “A Transformadora: O Tronco” (ato II), “O Legado: Os Frutos” (ato III) e “Homenagem Final: O reconhecimento” (ato IV).

O ato I trouxe depoimentos em vídeo e ao vivo, além de coreografias como “Homem com H” (com os 2º períodos de bacharelado e licenciatura) e “K Dance”, que homenageou os anos 1970. O ex-bolsista Kelvin Wesley subiu ao palco para saudar a professora. A escola de dança Adorai também marcou presença com as variações de Letícia e Rayelle Bianca, coreografadas por Caline Teodoro, e o carimbó foi apresentado pelo professor Jhon e pela aluna Kethelen.

O ato II contou com o depoimento ao vivo de Jhon Gomes, ex-aluno que seguiu carreira artística e acadêmica, narrando um momento específico que mudou sua trajetória. Ele também apresentou um solo de dança, seguido por coreografias da turma de licenciatura e uma performance de ginástica acrobática do 4º período.

No ato III foi exibido um vídeo em que os atuais alunos do curso de Educação Física refletiram sobre o que a dança significa em suas formações. As apresentações incluíram o Atelier Escola de Dança com “Entre o que Fica e o que Parte” (Ana Fonseca e Elias Daniel), o Estúdio de Artes Balancé com “Estrelas” (coreografia de Lucas Souza) e a Cia. de Dança Jhon Gomes, com outra versão de “Estrelas”. A escola Adorai retornou com “Sarça Ardente”, coreografada por Lívia Teodoro; os alunos do 2º período de bacharelado encerraram o ato.

No ato IV, após o ministério de dança Plenitude apresentar “Raridade”, música de Anderson Freire, a professora Shirley Regina subiu ao palco para oferecer palavras à homenageada. Em seguida, a mestre de cerimônias convidou Norma Tinoco a entrar em cena. Ao som de “Muda Tudo”, os alunos formaram um círculo ao redor da professora, cantando o refrão em coro.

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I FÓRUM ESTADUAL "Autismo, Cultura, Mercado de Trabalho e Políticas Públicas no Acre."

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I FÓRUM ESTADUAL "Autismo, Cultura, Mercado de Trabalho e Políticas Públicas no Acre."

09 e 10 de ABRIL
Local: Teatro Universitário da UFAC
11 de ABRIL
Local: Anfiteatro Garibaldi Brasil UFAC

Mais informações

 



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