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Sargento da PM que atirou em estudante durante confusão com trisal é preso no interior do Acre

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A Polícia Civil cumpriu a prisão preventiva contra o sargento da Polícia Militar e Erisson Nery, que atirou pelo menos quatro vezes contra o estudante Flavio Endres Ferreira, de 30 anos, na noite de sábado (27) durante uma confusão em um bar de Epitaciolândia no interior do Acre. Na manhã desta segunda-feira (29), Nery foi ouvido na delegacia da cidade enquanto um grupo de amigos fazia protesto e pediam justiça.

Um vídeo mostra o sargento armado após atirar contra o estudante durante a confusão. A PM confirmou que ele estava afastado por laudo médico e também que a arma institucional dele havia sido recolhida pela corporação há um mês.

A delegada que preside o caso, Carla Ívane, disse que, desde domingo (28), havia representado pela prisão preventiva do sargento. Ela ouviu 18 testemunhas e também está analisando as câmeras internas do bar em que a confusão aconteceu. Sobre a arma usada pelo sargento, já que as da PM estavam recolhidas, a delegada disse que ele preferiu ficar em silêncio sobre a procedência.

“Entendemos que ele estava foragido, porque não se apresentou à delegacia e a polícia estava fazendo as buscas. Em razão das provas, optamos pela representação, que foi acatada pelo Judiciário e também pelo Ministério Público. As demais circunstância e demais qualificadoras vão ser finalizadas no decorrer do término da instrução do inquérito policial. Há muitas imagens que estão sendo analisadas desde ontem [domingo, 28] pela equipe de investigação de Epitaciolândia com o apoio da equipe de investigação de Brasileia”, destacou.

O sargento ficou conhecido nas redes sociais após assumir um trisal com a mulher, também sargento da PM, Alda Nery, e a administradora Darlene Oliveira. Os três moram na cidade de Brasileia e há alguns meses, a sargento estava fazendo tratamento psicológico, quando o casal voltou a gerar polêmica ao surgir boatos de separação.

Alda e Darlene também aparecem nas imagens dos vídeos e foram ouvidas, porém, devem ser chamadas novamente após análise de algumas imagens de segurança.

Um relatório está sendo confeccionado juntamente com as imagens também de testemunhas que filmaram algumas cenas do tumulto. A versão do trisal é que Alda foi assediada por Flávio, porém, diante do que foi analisado de imagens até então, não é possível confirmar esse fato, segundo a delegada.

“Elas já foram ouvidas ontem [domingo,28] na delegacia, inclusive a sargento Alda registrou um boletim de ocorrência acerca de uma suposta importunação sexual que teria sido praticada pela então vítima. Entretanto, até o momento da análise das imagens, e friso isso, não é possível verificar essa importunação que ela apontou, mas as análises seguem em curso”, destaca a delegada.

Mulher deveria tê-lo prendido
Em sua decisão, o juiz Clovis de Souza Lodi determinou ainda que a conduta da sargento Alda seja investigada. “Por ser policial militar tinha a obrigação legal de prendê-lo em flagrante delito e apresentá-lo ao superior hierárquico ao invés de ajudá-lo a fugir do local. Se não bastasse, a esposa do representado também tinha o dever legal de apreender a arma de fogo utilizada por seu cônjuge na prática delitiva e entregá-la ao superior, ao invés de ocultá-la, dificultando a investigação policial”, pontua.

A família de Flavio Endres Ferreira informou que o estudante de medicina passou por uma cirurgia no pronto-socorro de Rio Branco e tem quadro estável. A mãe do estudante, Lúcia Ferreira, disse que o filho foi atingido por quatro tiros; um abaixo do umbigo, dois acima e um no peito.

Perfurou o intestino, mas, graças a Deus, só a sutura deu certo. Não precisou de bolsa de colostomia”, disse.

A defesa do sargento disse que ele vai passar por audiência ainda nesta segunda para verificar se ele se manterá preso ou não. Caso o magistrado decida pela manutenção da prisão preventiva dele, ele deve ficar recolhido ou no Bope ou Batalhão Ambiental na cidade de Rio Branco.

Protesto
Com cartazes com os dizeres: “Justiça por Flavio”, “Queremos punição”, “Que a instituição (PM) não feche os olhos para essa atrocidade”, o grupo de amigos esteve na frente da delegacia da cidade exigindo que a situação não fique impune.

Um dos colegas de faculdade de Ferreira, que participa do protesto e prefere não se identificar, disse que estava no local onde ocorreu a confusão e que o amigo não fez nada que justificasse as agressões e tiros.

“Flavio é uma pessoa com comportamento exemplar, uma pessoa respeitadora, um cristão, família toda é serva de Deus e é um cara que não mexe com ninguém. Falo isso porque estudo com ele desde o início da faculdade, há uns seis anos estamos juntos. Não pode ficar impune porque foi um comportamento que não teve motivo, efetuou disparos contra meu amigo e, mesmo após ele [Flavio] estar no chão, baleado, ele teve a covardia de ainda agredir meu amigo com chute e murro no rosto dele”, disse o amigo.

Segundo familiares, o estudante tinha ido assistir o jogo no bar com os amigos. A família também rebate a versão do policial, que alega que o estudante teria assediado Alda.

A mãe dele, Lúcia disse ainda que o estudante acordou após sedação e disse que não tinha feito nada. “Ele acordou e disse por três vezes: ‘mãe, eu não fiz nada’. Meu filho é um menino bom, eduquei para o mundo e ele nunca desrespeitou ninguém. Mas, a justiça de Deus é garantida! Sou mãe e estou sofrendo muito”, desabafa.

Amigos também estão se organizando para fazer um protesto pedindo justiça em frente ao batalhão da cidade de Epitaciolândia. Um perfil no Instagram “Justiça por Flávio” foi criado e já tem mais de 700 seguidores. A descrição diz: “Estudantes de medicina unidos em busca de justiça por nosso amigo”.

Os dois estavam afastados da PM

O que também chama atenção é que, segundo a PM, todas as armas institucionais que eles tinham cautela foram recolhidas há um mês. Ou seja, a arma utilizada não é da PM-AC. O recolhimento das armas se deu porque Alda está de licença especial por recomendação da policlínica e Nery está com atestado de 60 dias de um psiquiatra.

“Todas as armas institucionais que eles tinham cautela foram recolhidas há um mês. Seguramente a arma utilizada não é da PM-AC”, destacou a corporação.

O Comando da PM informou que está apurando disciplinarmente os fatos e tomará as medidas necessárias, mas destacou que a apuração criminal caberá à Polícia Civil. A nota diz ainda que o sargento ainda não se apresentou.

“No entanto, a PM continua em diligências com o fim de localizá-lo. A instituição reafirma que não compactua com ações que firam as normas legais ou que contrariam os valores castrenses seguidos pela corporação ao longo de sua história. Atitudes tomadas por quaisquer membros da corporação no âmbito de suas vidas privadas não refletem no posicionamento institucional e devem ser apuradas à luz do que determina a legislação”, destaca.

Segundo informações da polícia, a guarnição foi acionada para atender a ocorrência no bar e quando chegou ao local o homem já estava no chão e o sargento não estava mais no local. Testemunhas chegaram a dizer para a polícia que a confusão começou porque o homem que aparece no chão agrediu Alda e, por isso, Nery sacou a arma e atirou contra ele.

‘Passou a mão nela’
Mesmo ainda não tendo sido ouvido pela polícia, o sargento falou ao g1 nesse domingo que reagiu à uma importunação sexual feita pelo homem contra sua mulher.

“O cara molestou minha esposa e ela foi tomar satisfação imediatamente. Mas, ele deu um murro na cara da Alda que ela caiu apagada e com a boca cortada. Aí quando eu vi ela daquele jeito, fui atrás do cara. Lá fora entramos em luta corporal e eu atirei nele. Foram dois disparos, todos pegaram nele. Ele está estável e foi transferido para Rio Branco”, alega.

Nery disse ainda que Alda foi até a delegacia fazer queixa da importunação sexual e agressão. “Ele passou a mão nela. O bar tava lotado, mas ela conseguiu identificar e foi tomar satisfação. Não teve nada de dança, dela estar dançando, de estar conversando, não existe nada disso. Ela passou a mão nela e ela foi tomar satisfação e ele deu um soco nela”, conta.

A delegada da cidade, Carla Ívane, informou que um inquérito foi instaurado e que os procedimentos estão sendo tomados.

“Tem vídeos e áudios circulando, estamos aguardando o resultado do exame do corpo de delito e foi instaurado um inquérito policial. O sargento Nery não se apresentou e nem foi localizado pela PM. Houve um boletim informativo e seguimos com os prosseguimentos de ouvir testemunhas e abrimos o inquérito para apurar o que de fato aconteceu”, informou.

Em sua rede social, a sargento escreveu que Nery tentou defendê-la. Ela reforçou a versão do sargento e disse ainda que mais pessoas tentaram agredi-lo.

“Daí só porque você é mulher mesmo estando acompanhada pode levar dedada, murro na cara e nada tem que acontecer com o assediador? As pessoas não sabem de nada e são juízes alheios sem nem ao menos saber o que aconteceu. Mulher não merece respeito? Não pode estar ou circular em um ambiente livremente sem que seja assediada e desrespeitada? É tocada desrespeitosamente e se tomar satisfação ainda é agredida? Você conseguiria ver seu parceiro ou parceira esposo ou esposa caído no chão sangrando por uma injusta agressão sem defendê-lo? Você teria esse sangue de barata? Assediada e agredida e meu marido não podia me defender e se defender de mais de 5 cara que queriam agredi-lo?”, postou.

Trisal
Alda e Erisson Nery são sargentos da PM e já eram casados quando conheceram a administradora Darlene. Os três se relacionam há mais de um ano, mas só recentemente assumiram o trisal nas redes sociais e até criaram um perfil para divulgar a vida a três.

Mas a repercussão, além de trazer mensagens de apoio e até relatos de pessoas que levam o mesmo estilo de vida, acabou com a demissão de Darlene, segundo a sargento Alda, em junho deste ano. Ela diz que a companheira foi demitida com a justificativa de que a exposição dela afetaria a imagem da empresa.

Outra situação envolvendo os três ocorreu em agosto deste ano, quando os sargentos foram denunciados no Conselho Tutelar da cidade de Brasileia por suposta negligência na criação dos dois filhos, de 13 e 17 anos. Na época, Alda se manifestou também nas redes sociais e afirmou que os filhos são nerds.

 

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