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Feminista pode fazer plástica? – 10/11/2024 – Giovana Madalosso

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A pergunta do título é retórica: claro que feminista pode fazer plástica. Se pode fazer em paz já é outra história. Sei o que falo porque, de uns meses para cá, venho considerando fazer uma blefaroplastia, aquela cirurgia que tira a flacidez das pálpebras, dando um dar de “finalmente dormi bem essa noite” para seu perecível portador.

Sendo uma feminista que escreve há anos contra padrões opressivos de beleza, já sabia que meu plano seria questionado pelas minhas colegas, mas não esperava por certas reações.

Estava almoçando com uma delas quando contei sobre a minha ideia. Ela levantou os olhos do prato, a faca em riste: você não vai fazer isso. Tentei me justificar, explicando que, desde jovem, tenho pálpebras tão inchadas que as pessoas costumam me pedir pelo baseado, sendo que nem fumo.

Ela fitou os drapeados abaixo das minhas sobrancelhas. Não tendo coragem de mentir, apelou para a beleza do entorno: teu rosto tá ótimo, você não precisa de um procedimento invasivo. Aliás, de procedimento nenhum! Tive a sensação de que se tivesse um bigode mexicano ela bradaria contra a depilação.

Lembrei de uma amiga que precisou tirar férias para fazer uma plástica: me disse que se alguma colega de trabalho soubesse, ela perderia o crachá de Mulher Desconstruída.

Também lembrei de uma discussão que acompanhei nas redes sobre vulvoplastia, aquela intervenção que funciona como uma espécie de retrofit na vulva. Minhas colegas feministas se colocaram contra. Compreensível: neste caso, a dona da vulva sequer pode apreciar o resultado do procedimento, já que ninguém acorda de manhã, senta na frente do espelho e abre as pernas para ficar se admirando. Nem exibe esse mesmo recôndito em reuniões ou fotos —além de a vulvoplastia com fins estéticos ser voltada para o vislumbre exclusivo do parceiro, ainda pode pôr em risco o prazer da mulher, com chance de perda da sensibilidade.

Sabe quando eu colocaria meu prazer em risco para agradar a convenção estética tresloucada dos outros? Meus grandes lábios nem precisam dar a resposta. Ainda assim, não me sinto no direito de tolher quem considera fazer esse procedimento, nem qualquer outro.

Me imagino no lugar de uma daquelas consultoras de revistas femininas, que recebiam cartas das leitoras. Posso deixar minha vulva parecendo um porta-moedas com lábios em forma de zíper? Pode. Posso repuxar meu rosto a ponto de ficar com a testa na nuca? Pode. Posso colar o umbigo nas costas? Pode. Posso trocar esse nariz cheio de personalidade por um genérico? Pode, pode tudo.

Foi para isso que nós, feministas, lutamos: para sermos livres, para ter pleno poder sobre nossos corpos, sobre as nossas escolhas. É triste demais sair do jugo patriarcal para entrar em outro, para ser castrada logo por nossas parceiras que empunharam tantos cartazes ao nosso lado contra todo tipo de dominação.

Agradeço a minha amiga por tentar levantar a minha pálpebra. Ela está certa, é isso mesmo que precisamos fazer: levantar as outras, levantar cada centímetro das outras, a ponto de elas acharem que não precisam nem de base no rosto. Mas quando nem o nosso empurrãozinho resolve, melhor aceitar que vivemos em um mundo complexo, onde cada um se vira como pode.


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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

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Ufac participa de lançamento de projeto na Resex Cazumbá-Iracema — Universidade Federal do Acre

A Ufac participou do lançamento do projeto Tecendo Teias na Aprendizagem, realizado na reserva extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira (AC). O evento ocorreu em 28 de março e reuniu representantes do poder público, comunidade acadêmica e moradores da reserva.

Com uma área de aproximadamente 750 mil hectares e cerca de 500 famílias, a Resex é território de preservação ambiental e de produção de saberes tradicionais. O projeto visa fortalecer a educação e promover a troca de conhecimentos entre universidade e comunidade.

O presidente da reserva, Nenzinho, destacou que a iniciativa contribui para valorizar a educação não apenas no ensino formal, mas também na qualidade da aprendizagem construída a partir das vivências no território. Segundo ele, a proposta reforça o papel da universidade na escuta e no reconhecimento dos saberes locais.

O coordenador do projeto, Rodrigo Perea, sintetizou a relação entre universidade e comunidade. “A floresta ensina, a comunidade ensina, os professores aprendem e a Ufac aprende junto.” 

Também estiveram presentes no lançamento os professores da Ufac, Alexsande Franco, Anderson Mesquita e Tânia Mara; o senador Sérgio Petecão (PSD-AC); o prefeito de Sena Madureira, Gerlen Diniz (PP); e o agente do ICMBio, Aécio Santos.
(Fhagner Silva, estagiário Ascom/Ufac)



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Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre

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Educação Física homenageia Norma Tinoco por pioneirismo na dança — Universidade Federal do Acre

 Os professores Jhonatan Gomes Gadelha e Shirley Regina de Almeida Batista, do curso de Educação Física da Ufac, realizaram a mostra de dança NT: Sementes de uma Pioneira, em homenagem à professora aposentada Norma Tinoco, reunindo turmas de bacharelado e licenciatura, escolas de dança e artistas independentes. O evento ocorreu na noite de 25 de março, no Teatro Universitário, campus-sede, visando celebrar a trajetória da homenageada pela inserção e legitimação da dança no curso.

Norma recebeu uma placa comemorativa pelos serviços prestados à universidade. Os alunos do curso, André Albuquerque (bacharelado) e Matheus Cavalcante (licenciatura) fizeram a entrega solene. Segundo os organizadores, os anos de dedicação da professora ao curso e seu pioneirismo jamais serão esquecidos.

“A ideia, que ganhou corpo e emoção ao longo de quatro atos, nasceu do coração de quem viveu de perto a influência da homenageada”, disse Jhonatan Gomes Gadelha, que foi aluno de Norma na graduação. Ele contou que a mostra surgiu de uma entrevista feita com ela por ocasião do trabalho dele de conclusão de curso, em 2015. “As falas, os ensinamentos e as memórias compartilhadas por Norma naquele momento foram resgatadas e transformadas em movimento”, lembrou.

Gadelha explicou que as músicas que embalaram as coreografias autorais foram criadas com o auxílio de inteligência artificial. “Um encontro simbólico entre a tradição plantada pela pioneira e as ferramentas do futuro. O resultado foi uma apresentação carregada de bagagem emocional, autenticidade e reverência à história que se contava no palco.”

Mostra em 4 atos

A professora de Educação Física, Franciely Gomes Gonçalves, também ex-aluna de Norma, foi a mestre de cerimônias e guiou o público por uma narrativa que comparava a trajetória da homenageada ao crescimento de uma árvore: “A Pioneira: A Raiz (ato I), “A Transformadora: O Tronco” (ato II), “O Legado: Os Frutos” (ato III) e “Homenagem Final: O reconhecimento” (ato IV).

O ato I trouxe depoimentos em vídeo e ao vivo, além de coreografias como “Homem com H” (com os 2º períodos de bacharelado e licenciatura) e “K Dance”, que homenageou os anos 1970. O ex-bolsista Kelvin Wesley subiu ao palco para saudar a professora. A escola de dança Adorai também marcou presença com as variações de Letícia e Rayelle Bianca, coreografadas por Caline Teodoro, e o carimbó foi apresentado pelo professor Jhon e pela aluna Kethelen.

O ato II contou com o depoimento ao vivo de Jhon Gomes, ex-aluno que seguiu carreira artística e acadêmica, narrando um momento específico que mudou sua trajetória. Ele também apresentou um solo de dança, seguido por coreografias da turma de licenciatura e uma performance de ginástica acrobática do 4º período.

No ato III foi exibido um vídeo em que os atuais alunos do curso de Educação Física refletiram sobre o que a dança significa em suas formações. As apresentações incluíram o Atelier Escola de Dança com “Entre o que Fica e o que Parte” (Ana Fonseca e Elias Daniel), o Estúdio de Artes Balancé com “Estrelas” (coreografia de Lucas Souza) e a Cia. de Dança Jhon Gomes, com outra versão de “Estrelas”. A escola Adorai retornou com “Sarça Ardente”, coreografada por Lívia Teodoro; os alunos do 2º período de bacharelado encerraram o ato.

No ato IV, após o ministério de dança Plenitude apresentar “Raridade”, música de Anderson Freire, a professora Shirley Regina subiu ao palco para oferecer palavras à homenageada. Em seguida, a mestre de cerimônias convidou Norma Tinoco a entrar em cena. Ao som de “Muda Tudo”, os alunos formaram um círculo ao redor da professora, cantando o refrão em coro.

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I FÓRUM ESTADUAL "Autismo, Cultura, Mercado de Trabalho e Políticas Públicas no Acre."

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I FÓRUM ESTADUAL "Autismo, Cultura, Mercado de Trabalho e Políticas Públicas no Acre."

09 e 10 de ABRIL
Local: Teatro Universitário da UFAC
11 de ABRIL
Local: Anfiteatro Garibaldi Brasil UFAC

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