POLÍTICA
Maiores vencedores das eleições, MDB e PSD embaral…
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1 ano atrásem
Victoria Bechara
Quando a contagem de votos chegou ao fim no domingo 27, a fotografia das eleições municipais revelou uma ampla vitória da centro-direita em todo o país. Nesse cenário, dois partidos chamaram a atenção: PSD e MDB foram as siglas que mais fizeram prefeitos pelo país e conquistaram juntas dez capitais, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, as três maiores, além de Curitiba, Belém e Porto Alegre. Somadas, as legendas comandarão, a partir do ano que vem, quase 56 milhões de eleitores e terão o controle de mais de um terço do orçamento das prefeituras, o equivalente a 489 bilhões de reais.
O ótimo desempenho de MDB e PSD pelo país e as cidades importantes que comandarão os tornam peças-chave no xadrez para 2026, tanto nas eleições aos governos estaduais quanto na corrida presidencial. O ganho de musculatura dessas siglas, porém, deixa mais dúvidas do que certezas, porque elas são conhecidas por se equilibrarem, com razoável destreza, em todas as canoas que navegam no oceano político brasileiro. Dependendo do contexto, são aliadas do PL de Jair Bolsonaro ou do PT de Luiz Inácio Lula da Silva. Também jogam com a possibilidade de se juntarem a novos desafiantes do petista, como os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Ratinho Junior (PSD), cujas bases já compõem em ambos os estados. O maior trunfo da flexibilidade política dessas legendas é a capital paulista, onde a reeleição de Ricardo Nunes garantiu ao MDB a ascendência sobre o maior colégio eleitoral e o maior orçamento municipal do país — na eleição de 2020, Nunes era vice de Bruno Covas (PSDB) e herdou uma máquina quase toda organizada pelo tucano. O triunfo do emedebista teve atuações decisivas dos presidentes nacionais do MDB, Baleia Rossi, e do PSD, Gilberto Kassab, que é secretário estadual de Governo na gestão Tarcísio de Freitas. Alianças de MDB e PSD inclinadas à direita também se deram em Porto Alegre, com Sebastião Melo (MDB); em Curitiba, com Eduardo Pimentel (PSD); e em Florianópolis, com Topázio Neto (PSD). Em todas essas cidades, o vice-prefeito eleito é do PL, a rigor o único grande partido que atua na oposição a Lula.
Em outros locais, no entanto, o vento empurra a maré em outra direção, uma vez que MDB e PSD têm participação importante no governo Lula. Cada um comanda três ministérios, alguns importantes como Planejamento, Transportes e Cidades (MDB), Minas e Energia e Agricultura (PSD). Foi o caso do Rio de Janeiro, onde o presidente apoiou Eduardo Paes (PSD), cuja coligação tinha PT, PCdoB, PDT e PSB. Em Belo Horizonte, a esquerda, depois do fiasco no primeiro turno, agarrou-se ao prefeito Fuad Noman (PSD) — que boa parte do PT defendia apoiar desde o início —, em uma campanha que teve a participação (um tanto errática) de Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia de Lula e aspirante a disputar o governo do estado em 2026 com o apoio do presidente. Em Cuiabá, a aliança PSD-PT emplacou a filha do ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, a jornalista Rafaela Fávaro, ambos do PSD, como vice na chapa liderada por Lúdio Cabral (PT), que chegou ao segundo turno no coração do agro.
A posição desses partidos em 2026 ainda é uma grande incógnita. Ricardo Nunes já adiantou que vai trabalhar para barrar o apoio do MDB a Lula — a irritação com o governo cresceu após a primeira-dama Janja da Silva, com outras mulheres, divulgar às vésperas do segundo turno um vídeo lembrando uma antiga acusação de violência doméstica contra ele. O governador do Paraná, Ratinho Junior, também descarta caminhar com o presidente. “Pode ser uma opção para alguns, não é a minha”, diz. O prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB), se reelegeu contra Maria do Rosário (PT) com um discurso majoritariamente antipetista e crítico ao governo federal. Por outro lado, Lula ficou neutro em Belém, mesmo com o PT tendo o vice do atual prefeito, Edmilson Rodrigues (PSOL), em gesto que ajudou na eleição de Igor Normando (MDB), candidato do governador Helder Barbalho (MDB), que sonha com uma vaga na chapa do petista daqui a dois anos — posto que, aliás, o PSD também pode pleitear.

Nacionalmente, há muita divisão sobre para onde se direcionar. “Por óbvio, o partido segue no intuito e no sentido de caminhar com o presidente Lula”, diz o deputado Isnaldo Bulhões (AL), líder do MDB na Câmara. Enquanto isso, o PSD se equilibra entre os cargos no governo federal, o apoio a Tarcísio (que Kassab já classificou como seu principal projeto para a próxima eleição) e a possibilidade de candidatura própria. “Se o PSD tiver candidato ao Planalto, será o governador Ratinho Junior”, disse Kassab em entrevista ao programa Ponto de Vista, de VEJA. Foi ele quem afirmou, ao fundar o PSD, em 2011, que o partido não seria “nem de direita nem de esquerda nem de centro”. Outros quadros da sigla, porém, defendem que haja um posicionamento ideológico mais definido. “O Brasil hoje tem dois lados. O meio-termo não ganha eleição”, opina o deputado Cezinha de Madureira (PSD-SP). Para outros, peculiaridades regionais explicam a existência de várias facetas. “Essa discussão é natural em partido de centro que atua em um país continental”, defende Fábio Mitidieri (PSD), governador de Sergipe.
Parte do jogo para as eleições gerais passa por 2025, quando as duas legendas deverão ser decisivas na disputa pelo controle do Congresso. O PSD lançou o deputado baiano Antonio Brito na briga pela sucessão de Arthur Lira (PP-AL). No Senado, o partido considera manter o posto que hoje ocupa com Rodrigo Pacheco — são cotados Eliziane Gama (PSD-MA) e Otto Alencar (PSD-BA). “O resultado da eleição tem impacto no Congresso. A candidatura do Brito fica mais forte”, acredita Eliziane Gama. Apesar disso, a verdade é que será difícil desbancar o favorito no páreo, o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), já que conta com os apoios do PL, PT, PP e Podemos, além do próprio MDB.

A estratégia de manter um pé em cada canoa pode funcionar bem no pleito municipal, mas não é garantia de sucesso na eleição nacional. Depois da redemocratização, nenhum presidente filiado ao MDB chegou ao cargo pelo voto popular. Tancredo Neves foi eleito indiretamente e morreu antes de tomar posse, sendo substituído por José Sarney. Já Itamar Franco emplacou após o impeachment de Fernando Collor. O mesmo ocorreu com Michel Temer, que assumiu após a destituição de Dilma Rousseff. O quadro não melhora quando se lembra que o MDB de hoje é dividido por lideranças regionais, sem unidade de pensamento. “A maior parte dos presidentes da nossa recente democracia teve uma orientação ideológica clara”, entende Graziella Testa, doutora em ciência política e professora da FGV.
Outra verdade inequívoca saída das urnas neste ano é que o cenário político brasileiro ficou ainda mais fragmentado. O PT cresceu levemente em comparação a 2020, mas segue muito menor do que já foi nos primeiros mandatos de Lula. O PL, apesar de ter aumentado o número de prefeituras, perdeu nas principais capitais que disputou como cabeça de chapa. A centro-direita, por outro lado, tem muitos caminhos a seguir. Nesse cenário, o certo é que o cacife de MDB e PSD se expandiu com o último pleito. A questão agora é saber em qual canoa eles vão embarcar nos próximos anos — e quando.
Publicado em VEJA de 1º de novembro de 2024, edição nº 2917
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A articulação para mudar quem define o teto de jur…
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8 meses atrásem
5 de maio de 2025Nicholas Shores
O Ministério da Fazenda e os principais bancos do país trabalham em uma articulação para transferir a definição do teto de juros das linhas de consignado para o Conselho Monetário Nacional (CMN).
A ideia é que o poder de decisão sobre o custo desse tipo de crédito fique com um órgão vocacionado para a análise da conjuntura econômica.
Compõem o CMN os titulares dos ministérios da Fazenda e do Planejamento e Orçamento e da presidência do Banco Central – que, atualmente, são Fernando Haddad, Simone Tebet e Gabriel Galípolo.
A oportunidade enxergada pelos defensores da mudança é a MP 1.292 de 2025, do chamado consignado CLT. O Congresso deve instalar a comissão mista que vai analisar a proposta na próxima quarta-feira.
Uma possibilidade seria aprovar uma emenda ao texto para transferir a função ao CMN.
Hoje, o poder de definir o teto de juros das diferentes linhas de empréstimo consignado está espalhado por alguns ministérios.
Cabe ao Conselho Nacional da Previdência Social (CNPS), presidido pelo ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, fixar o juro máximo cobrado no consignado para pensionistas e aposentados do INSS.
A ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, é quem decide o teto para os empréstimos consignados contraídos por servidores públicos federais.
Na modalidade do consignado para beneficiários do BPC-Loas, a decisão cabe ao ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias.
Já no consignado de adiantamento do saque-aniversário do FGTS, é o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que tem a palavra final sobre o juro máximo.
Atualmente, o teto de juros no consignado para aposentados do INSS é de 1,85% ao mês. No consignado de servidores públicos federais, o limite está fixado em 1,80% ao mês.
Segundo os defensores da transferência da decisão para o CMN, o teto “achatado” de juros faz com que, a partir de uma modelagem de risco de crédito, os bancos priorizem conceder empréstimos nessas linhas para quem ganha mais e tem menos idade – restringindo o acesso a crédito para uma parcela considerável do público-alvo desses consignados.
Ainda de acordo com essa lógica, com os contratos de juros futuros de dois anos beirando os 15% e a regra do Banco Central que proíbe que qualquer empréstimo consignado tenha rentabilidade negativa, a tendência é que o universo de tomadores elegíveis para os quais os bancos estejam dispostos a emprestar fique cada vez menor.


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