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O dólar ainda tem seu charme; o X nem tanto – 18/11/2024 – Paul Krugman

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“Há muita ruína em uma rede”, observou uma vez Adam Smith.

Ok, na verdade era “nação”, não “rede”; ele estava tranquilizando um compatriota de que uma derrota britânica nas mãos dos revolucionários americanos não destruiria o futuro de seu país. Mas tanto sua versão original quanto minha atualização parecem relevantes hoje em dia —em parte porque Smith cuidadosamente não disse ruína ilimitada.

E podemos estar assistindo em tempo real o que acontece quando o nível de ruína em uma rede —especificamente o X, anteriormente Twitter— atinge o ponto de inflexão em que o edifício implode.

Por rede, quero dizer um arranjo social mantido pelo que os economistas chamam de externalidades de rede —situações em que as pessoas acham conveniente se engajar em alguma atividade porque muitas outras pessoas estão fazendo a mesma coisa. Um exemplo comum é o domínio de longa data das planilhas do Excel; não conheço ninguém que ame o Excel, mas as empresas continuam a usá-lo em grande parte porque todos os outros o estão usando.

Um exemplo menos mundano — de fato, envolto em muito pensamento místico — é o papel internacional do dólar.

Passei mais ou menos toda a minha carreira profissional sendo bombardeado com avisos terríveis de que o status global do dólar estava em risco iminente de colapso, e com ele o poder americano. Mesmo que tal colapso fosse provável, importaria muito menos do que as pessoas pensam; a América certamente obtém algumas vantagens do que já foi chamado de “privilégio exorbitante” de emitir a moeda dominante do mundo, mas elas não são tão grandes.

Em qualquer caso, as previsões sobre o fim do dólar geralmente falham em apreciar a extensão em que o papel do dólar é resultado de externalidades de rede que nenhum rival potencial oferece. Bancos internacionais fazem pagamentos em dólares porque os mercados de dólar são enormes, em grande parte porque o dólar é amplamente utilizado. Importadores e exportadores escrevem contratos em dólares porque todos os outros fazem isso e mantêm saldos em dólares para fazer esses pagamentos. E assim por diante.

Quarenta anos atrás, escrevi um artigo sobre como esses efeitos de rede tornariam difícil deslocar o dólar, apesar das previsões generalizadas de seu fim na época. Nos anos que se seguiram, de vez em quando surge uma história alarmante — a Arábia Saudita pode aceitar pagamentos de petróleo na moeda da China, o renminbi— que é interpretada por alguns como o começo do fim para o dólar. Mas todas essas histórias são marginais em comparação com a enorme vantagem do dólar.

Ainda assim, não seria impossível para o dólar perder seu charme se o governo dos Estados Unidos se comportasse mal o suficiente.

Imagine a América sofrendo de má gestão econômica extrema levando a uma inflação muito alta. Imagine uma grande erosão do estado de direito em nosso país, com empresas politicamente conectadas ganhando vantagem em todos os setores.

Se uma ou ambas essas coisas acontecessem, não é difícil ver como o dólar poderia perder seu status especial —sim, a força do dólar reside em sua ubiquidade, mas também na estabilidade percebida da nação que o emite. E esses cenários parecem muito mais possíveis agora do que há alguns anos. Mas, embora eu espere que Donald Trump nos leve pelo caminho do capitalismo de compadrio, nem eu acho que ele está prestes a destruir o dólar como marca.

X pode ser uma história diferente.

Antes de Elon Musk, o Twitter era o lugar onde as pessoas do meu ramo tinham que estar. Sei que pessoas diferentes o usavam para propósitos diferentes —nada contra Katy Perry, mas nem todos os seus quase 106 milhões de seguidores estão nas plataformas de mídia social pelos mesmos motivos que eu. Eu usava o Twitter para aprender e interagir com pessoas que possuíam verdadeiro conhecimento, às vezes em áreas que conheço bem, às vezes em áreas que não conheço, como relações internacionais e política climática.

Não vou passar pela lista de maneiras como a plataforma mudou para pior sob a liderança de Musk, mas do meu ponto de vista, ela se tornou basicamente inutilizável, dominada por bots, trolls, excêntricos e extremistas.

Mas para onde você poderia ir em vez disso? Nos últimos anos, houve várias tentativas de promover alternativas ao X, mas nenhuma delas realmente pegou. Em certa medida, isso pode ter refletido falhas em seus designs, mas muito disso foi simplesmente falta de massa crítica: Não havia pessoas suficientes com quem você queira interagir nos sites alternativos.

Então veio a eleição presidencial deste ano, que parece ter desencadeado um êxodo de Muskland. Do meu ponto de vista, o Bluesky, em particular —um site que funciona muito como o Twitter pré-Musk— de repente atingiu a massa crítica, no sentido de que a maioria das pessoas que quero ouvir agora está postando lá. O número bruto de usuários ainda é muito menor do que o de X, mas, pelo que posso dizer, o Bluesky agora é o lugar para encontrar análises inteligentes e úteis.

E sim, a maioria dos novos postadores do Bluesky que considero úteis são liberais, mas isso reflete o anti-intelectualismo da direita moderna, em vez de um viés político por parte do site.

Não tenho ideia do que isso significa para as finanças de X, e não me importo. O que vejo é que você pode, de fato, arruinar uma rede se se esforçar o suficiente. E está começando a parecer que Musk conseguiu fazer isso.


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Ufac celebra trajetória de dez anos do Laboratório de Discriminação Racial — Universidade Federal do Acre

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Ufac celebra trajetória de dez anos do Laboratório de Discriminação Racial-capa.jpg

O Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) da Ufac realizou, nesta quarta-feira, 13, no auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (Cfch), um evento em comemoração aos 10 anos do Laboratório de Pesquisa Observatório de Discriminação Racial (LabODR). A programação reuniu a comunidade acadêmica, pesquisadores, egressos, bolsistas e integrantes do movimento social negro para celebrar a trajetória do laboratório e os resultados alcançados por meio das pesquisas desenvolvidas ao longo da última década.

Vinculado à área de História, mas formado por profissionais de diferentes áreas do conhecimento, o LabODR/Ufac foi criado em 2016 a partir de uma articulação entre a Ufac e o movimento negro acreano, especialmente o Fórum Permanente de Educação Étnico-Racial do Estado do Acre. Inicialmente estruturado como projeto institucional de pesquisa, o laboratório contou com apoio da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Proaes) e, em 2018, foi inserido na plataforma Lab e certificado pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (Propeg).

O laboratório atua na pesquisa e na formação de pesquisadores com foco na promoção da igualdade racial, desenvolvendo estudos voltados tanto à denúncia de práticas racistas quanto à construção de reflexões e práticas antirracistas, principalmente nos espaços educacionais. Atualmente, o LODR/Ufac abriga projetos institucionais como “Práticas Pedagógicas em Educação das Relações Étnico-Raciais em Escolas do Estado do Acre”, desenvolvido desde 2018, e “Pérolas Negras”, iniciado em 2020.

Durante o evento, convidados e bolsistas compartilharam experiências acadêmicas e profissionais construídas a partir das atividades desenvolvidas pelo laboratório, destacando a importância do observatório em suas formações pessoais e profissionais. A programação também apresentou pesquisas realizadas ao longo desses dez anos de atuação e ressaltou a contribuição do laboratório para o fortalecimento das discussões sobre igualdade racial dentro da universidade e na sociedade acreana.

Compuseram o dispositivo de honra o vice-reitor, Josimar Ferreira; o pró-reitor de Extensão e Cultura, Carlos Paula de Moraes; a pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da Ufac, Margarida Lima; a vice-diretora do Cfch, Lucilene Ferreira de Almeida; e a representante do Neabi, Flávia Rocha.

 



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Ufac participa de mostra científica na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira — Universidade Federal do Acre

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Ufac participa de mostra científica na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira — Universidade Federal do Acre

A Universidade Federal do Acre (Ufac) participou, no dia 1º de maio, da Mostra Científica “Conectando Saberes: da integração à inclusão na Amazônia”, realizada na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira. A ação reuniu instituições de ensino, pesquisa, escolas rurais e moradores da reserva em atividades de divulgação científica e integração comunitária.

Financiada pelo CNPq, a iniciativa contou com a participação da Ufac, Ifac, ICMBio e de escolas da região. Aproximadamente 250 pessoas participaram da programação, entre estudantes, professores e moradores das comunidades da reserva.

Durante o evento, estudantes da graduação e pós-graduação da Ufac e do Ifac apresentaram pesquisas e atividades educativas nas áreas de saúde, Astronomia, Física, Matemática, Robótica e educação científica. A programação incluiu oficinas de foguetes, observação do céu com telescópios, sessões de planetário, jogos educativos e atividades com microscópios.

O professor Francisco Glauco, do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza (CCBN) da Ufac, destacou a importância da participação acadêmica em ações junto às comunidades tradicionais.

“A universidade tem um papel fundamental para a formação científica e cidadã dos estudantes. A troca de conhecimentos com comunidades de difícil acesso fortalece essa formação”, afirmou.

A professora Valdenice Barbosa, da Escola Iracema, ressaltou o impacto da iniciativa para os alunos da reserva.

“Foi um dia histórico de muito aprendizado. Muitos estudantes tiveram contato pela primeira vez com experimentos e equipamentos científicos”, disse.

Além das atividades científicas, a programação contou com apresentações culturais realizadas pelos estudantes da reserva, fortalecendo a integração entre ciência, educação e saberes amazônicos.

A participação da Ufac reforça o compromisso da universidade com a extensão, a popularização da ciência e a aproximação entre universidade e comunidades tradicionais da Amazônia.

Fhagner Soares – Estagiário

 



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UFAC participa de pesquisa sobre zoonose associada à caça de subsistência na Amazônia — Universidade Federal do Acre

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Um estudo publicado na revista Acta Amazonica identificou a presença do parasita Echinococcus vogeli em pacas (Cuniculus paca) abatidas e consumidas por comunidades tradicionais da Amazônia Ocidental. O agente é responsável pela equinococose policística humana, zoonose considerada emergente na região.

A pesquisa foi desenvolvida entre 2022 e 2023 nos municípios de Sena Madureira e Rio Branco, no Acre, sob coordenação do professor Francisco Glauco de Araújo Santos, do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza (CCBN), integrando a dissertação de mestrado de Liliane de Souza Anadão, do Programa de Pós-Graduação em Sanidade e Produção Animal Sustentável na Amazônia (PPGSPASA).

O estudo entrevistou 78 famílias e analisou 23 fígados de pacas abatidas para consumo. Em 48% das amostras foram identificados cistos hidáticos causados pelo parasita. A pesquisa também apontou que a maioria dos cães das comunidades participa das caçadas e consome vísceras cruas dos animais.

Segundo os pesquisadores, o principal risco de transmissão ocorre quando cães infectados eliminam ovos do parasita no ambiente, contaminando solo, água e alimentos.

“O principal risco está associado ao descarte inadequado das vísceras e ao contato com ambientes contaminados pelas fezes de cães infectados”, destacou o professor Francisco Glauco.

O estudo reforça a necessidade de ações de vigilância e educação em saúde nas comunidades rurais, principalmente relacionadas ao manejo de cães e ao descarte adequado das vísceras dos animais abatidos.

Para o pesquisador Leandro Siqueira, doutor em Medicina Tropical pela Fiocruz e coautor do estudo, a pesquisa amplia o conhecimento sobre a transmissão da doença na Amazônia e pode contribuir para futuras ações de prevenção e diagnóstico na região.

Fhagner Soares – Estagiário



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